Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Encarnação

Por José de Alencar (1878)

Lembrou-se do desejo que tivera outrora de achar um noivo como aquele, que a adorasse, como ele adorava a mulher, e lhe desse muitas jóias, muitas fitas, muitas galanterias.

Tinham corrido os anos. Ela ficara moça e era bonita; alguns diziam muito bonita, e ela concordava com estes. Seria mais bonita do que a outra, que ela invejava? Não sabia; e tinha uma certa curiosidade de verificar esta circunstância.

Não lhe faltavam noivos; ela poderia ter escolhido um entre muitos tão elegantes como esse, e talvez mais sedutores. Entretanto os desdenhara a todos; e não sentia o menor entusiasmo pelo casamento.

De que provinha isto?

Nessa noite Amália foi com a família ao teatro. Enquanto se vestia, e durante o espetáculo, seu espírito algumas vezes se desprendia das impressões do momento para insistir naquela interrogação.

Até então nunca se preocupara com o motivo de sua isenção. Era uma questão de gosto. Uns apreciam a música mais do que a pintura; há quem não pode suportar o burburinho da cidade, entretanto que outros detestam a monotonia campestre.

Ela preferia a vida de solteira, por ser mais livre, mais divertida e mais tranqüila.

Ao recolher-se, avistando a casa vizinha, voltaram-lhe de tropel todos os pensamentos, que a cena da tarde lhe tinha sugerido. Mas apenas esvoaçaram um instante pela fantasia, e submergiram-se no repouso de um sono forte e calmo, o sono da saúde e da mocidade.

Pela manhã, ao acordar, dissipado o primeiro torpor que deixa a longa síncope da vida moral, a moça encontrou em seu espírito a explicação com que não atinava na véspera.

Até então não conhecia senão a aparência do casamento, essa face material, que se vê de fora, e compõe a sua fisionomia social. Agora compreendia que essa união era mais do que um modo de vida; mais do que um hábito e uma conveniência. Era, devia ser, um destino.

Aquele marido, não só fiel à memória de sua mulher, mas unido a ela como no primeiro dia de seu amor; essa afeição alheia ao mundo e indiferente às vicissitudes da vida, fora uma revelação para Amália.

Entretanto esta revolução, que subitamente se tinha operado em suas idéias, produziu efeito oposto ao que talvez se devesse esperar. Bem longe de conciliá-la com o casamento, o contrário, acabou de afastá-la.

Se até então ela evitava essa ligação como um transtorno à sua mocidade e uma contrariedade à sua índole, atualmente a considerava como um perigo, e um grande perigo.

Unir-se a outro homem, que não fosse o marido esperado, não seria falhar a seu destino, sacrificar a existência inteira e condenar-se ao eterno suplício de um cativeiro cheio de humilhações?

Capítulo 7

Desde aquele dia, que se pode chamar de sua conversão, Amália ocupou-se com a casa vizinha, que dantes não lhe merecia a menor atenção.

Agradava-lhe a chácara, o edifício, as árvores. Achava-lhes alguma coisa de particular, embora não tivessem realmente de notável senão a solidão e o silêncio que os cercavam.

Acompanhava os movimentos da habitação. Ligava aos mais casuais e ordinários alguma significação. Uma janela que se abria, um rumor qualquer, eram como o gesto ou a palavra do edifício, que para ela tinha uma vida, uma história, uma individualidade.

Por Hermano, Amália sentia um indefinível respeito. Parecia-lhe que via nele pela primeira vez um homem,. bem diverso da gente que povoava as salas e ruas. Nesse habitava uma alma; e era uma alma superior ao mundo, que tinha o seu mundo em si.

Ela, que dias antes ria do espiritualismo de Henrique Teixeira, a propósito do amigo, enlevou-se depois numa ideologia ainda mais abstrata; e achava simples, naturais, evidentes, os fatos que sua imaginação fantasiava.

Julgara a princípio uma demência, essa ilusão em que vivia Hermano. Entretanto que exagerava agora aquele fenômeno moral, e atribula uma intenção misteriosa aos menores incidentes.

Por quem Amália, porém, mais se interessava era pela pessoa que já não existia: pela mulher que Hermano amava. Ela a considerava já como uma irmã sua; evocava a sua imagem; falava-lhe, e ficava contente de vê-la feliz por ter inspirado ao marido aquele amor indelével.

Avivava-se-lhe o pesar de não a ter conhecido, e de não lembrar-se de suas feições. Desejava tanto contemplar-lhe a beleza, ainda que fosse de memória! Hermano possuía necessariamente um retrato fiel de sua Julieta. Que não daria ela para vê-lo?

Essa mulher que havia merecido um amor tão puro, completamente desprendido dos interesses e misérias sociais; que expressão, que encanto especial, que magia celeste possuía a sua beleza!

Às vezes Amália tinha uma vaga reminiscência da alvura deslumbrante de sua tez; do brilho sereno dos olhos; da suave inflexão do talhe.

E insensivelmente comparava-se a esse modelo; e sorria-se com desvanecimento, porque achava em si uns traços de semelhança.

A sociedade começou a mostrar-se à moça por um novo aspecto.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...89101112...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →