Por Martins Pena (1846)
ROBERTO – Ao saltar em terra, apressado dirigi-me para a Santa Casa da Misericórdia, a fim de saber se minha filha ainda vivia. Como ia ansioso e trêmulo! Aí chegando, perguntei por essa inocente menina que havia dezoito anos dava-me forças para tanto sofrer e coragem para trabalhar... Dei os necessários sinais – uma cruz de ouro esmaltada, orlada de azul...
PEDESTRE, espantado – Uma cruz de ouro!
ANACLETA, da porta, à parte – Uma cruz de ouro!
ROBERTO – Foi-me respondido que essa menina, não tendo sido reclamada, o Recolhimento a dotara e casara. Perguntei com quem; disseram-me que com um homem que ao depois se fizera pedestre.
ANACLETA, da porta, à parte – Meu Deus!
PEDESTRE, assombrado, ao mesmo tempo – É ela! Oh! (Aqui Paulino principia a espiar pelo buraco da porta à esquerda; com cautela, porém, para não ser visto.)
ROBERTO – Com um pedestre! exclamei eu. Não importa. Se esse homem a tem feito feliz, se na pobreza a que seu estado o condena tem suavizado a sua sorte com os dotes de alma, se na vida doméstica a tem feito esquecer o abandono de sua mocidade, esse homem será meu genro. Amanhã terá um palácio magnífico, numerosos criados, ricas equipagens...
PEDESTRE, à parte – Oh, e eu a matei!
ROBERTO – ... ouro em que se possa fartar, ouro em abundância para satisfazer seus menores caprichos.
PEDESTRE, à parte – E eu a matei!
ROBERTO – Amanhã pisará o mais soberbo com a sua imensa riqueza e esmagará o mais rico com sua esplêndida ostentação.
PEDESTRE, à parte – Oh, e eu a matei!
ANACLETA, à porta e à parte – Meu Deus, é isto possível?
ROBERTO – Os homens que me ouviam deixaram primeiro passar esta torrente de exaltação e depois ensinaram-me a casa de meu genro. Meti-me em uma carruagem e dirigi-me para vossa casa. E agora, senhor, vós que sois o seu marido, ah, dizei-me: minha filha?
PEDESTRE, como alucinado – Vossa filha?
ROBERTO – Vive feliz? Não tem amaldiçoado seu pai?
PEDESTRE, no mesmo – Seu pai!
ROBERTO – Onde está ela? Quero abraçá-la.
PEDESTRE, no mesmo – Abraçá-la, abraçá-la!
ROBERTO – Sim, apertá-la contra o meu peito, fazê-la feliz... E a vós também, a vós que a tendes amparado. Oh, conduzi-me, conduzi-me para junto dela!
PEDESTRE, com a fisionomia desfigurada e tomando Roberto pelo braço – Vossa filha... está morta!
ROBERTO – Morta!
PEDESTRE – Sim, e fui eu, eu mesmo que a matei!
ROBERTO – Oh, grande Deus, que tenho ouvido? (Neste tempo Anacleta tem saído do buraco da porta.)
PEDESTRE, louco – Ela me traiu... seu amante... matei-os, fiz muito bem! Portas fechadas... nada valeram... Enganou-me... matei-a... Está morta! Palácios, equipagens, ouro, muito ouro, tudo ela me fez perder... Por sua causa viverei na miséria!
ROBERTO, como aniquilado – Meu Deus!
PEDESTRE – Oh, se ela não se deixasse matar, hoje tinha três navios, três! Diabos que me tentaram! Estava rico, rico, muito rico... Ah, mulher, o que me fizeste perder!
ROBERTO, com energia – Ah, sois o seu assassino? O assassino de minha filha? Ah, não saireis de minhas mãos!
PEDESTRE, sem dar atenção a Roberto – Mulher que me perdeste na vida e na morte, mulher que me danaste em vida e me arruínas na morte, mulher que me persegues ainda defunta, os diabos te levem!
ROBERTO – Ah, chamarei pela justiça, clamarei vingança!
PEDESTRE, como em confidência – Escutai, escutai... em segredo... que ninguém nos ouça...
ROBERTO – Assassino!
PEDESTRE, no mesmo – Escutai... eu vos darei um dos meus três navios para que lhe dês vida e eu possa assim ficar com os outros dois... Vinde, que ela ali está...
ROBERTO – Ali!
PEDESTRE – Sim, sim, está morta... Mas vós lhe dareis vida por um navio...
vinde... silêncio... Dar-vos-ei um dos navios que ela me fez perder...
ROBERTO, deixando-se conduzir pelo Pedestre – Oh!
PAULINO, à parte, do buraco – Atenção, agora é que são elas... (Logo que o Pedestre e Roberto estão a dois passos da porta, esta abre-se repentinamente e
Anacleta, que por ela saí, abraça-se com Roberto.)
ANACLETA, abraçando Roberto – Meu pai, meu pai!
ROBERTO, surpreendido – Ah!
PEDESTRE, vendo Anacleta, recua espavorido até a extremidade esquerda e vem encontrar-se à porta em cujo buraco está Paulino – Fantasma, fantasma!
ANACLETA, nos braços de Roberto – Sou eu, meu pai, sou sua filha, eis aqui a cruz... (Mostrando a cruz ao pai.)
ROBERTO, abraçando-a – Sim, sim, és minha filha! Filha, querida filha! Meu Deus!
ANACLETA, ao mesmo tempo – Meu pai, meu pai! (Enquanto Roberto abraça a filha e continua em uma cena muda de reconhecimento e expansão, o Pedestre está aterrorizado, encostado à porta, tremendo.)
[PEDESTRE] – É ela, é a sua alma! Deixai-me, deixai-me! (Diz isto ao mesmo tempo que Roberto fala com Anacleta.)
PAULINO, do buraco da porta para o Pedestre – Olá, não tenha medo... Não trema tanto...
PEDESTRE, ouvindo falar sobre a sua cabeça, olha, e vendo a cara de Paulino, diz com grande terror – Oh, também o outro fantasma! (Precipita-se para a porta do fundo, a fim de fugir.)
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)PENA, Martins. Os ciúmes de um pedestre ou o terrível capitão do mato. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2155 . Acesso em: 29 jan. 2026.