Por Martins Pena (1845)
LUÍS, puxando João pelo braço e falando-lhe à parte – Eu bem vi aonde estava... No quarto da ilhoa.
JÚLIO, mesmo jogo – Espero que não falte; quando não, digo tudo à Senhora D. Clara.
LUÍS, mesmo jogo – Se não consentir no que eu lhe quero pedir, descubro tudo à tia.
CLARA – O que quer isto dizer?
JÚLIO, mesmo jogo, mas falando alto – Dá-me a sua filha por esposa?
LUÍS, mesmo jogo – Concede-me a mão da prima?
JÚLIO, mesmo jogo, à parte – Olhe que eu falo...
LUÍS, mesmo jogo – Se ma não der, conto tudo...
JÚLIO, mesmo jogo, alto – Então?
LUÍS, mesmo jogo – O que resolve?
JÚLIO e LUÍS, mesmo jogo – Sim ou não?
JOÃO – Casem-se ambos, e deixem-me!
CLEMENTINA, RITINHA, JÚLIO, LUÍS – Ambos?
CLARA, puxando por João – Que história são essas?
MANUEL, mesmo jogo – Pague-me o que deve!
LUÍS, mesmo jogo – Dê-me a prima!
JÚLIO, mesmo jogo – Assim falta à sua palavra?
MANUEL, mesmo jogo – O meu dinheiro?
JÚLIO, mesmo jogo – Falarei!
LUÍS, mesmo jogo – O que decide? (Todos quatro rodeiam João, que assenta-se no chão e mergulha a cabeça, tapando-a com os braços.)
CLARA – Não o deixo enquanto não me disser aonde esteve, o que fez. Se isto são modos!
JÚLIO, ao mesmo tempo – Vossa Senhoria prometeu-me. Se não quer que eu fale, cumpra a sua palavra.
MANUEL, ao mesmo tempo – Quero-me ir embora! Nem um instante mais aqui! Paga-me o que me deve.
LUÍS – Basta! Deixem-no! Levante-se, tio; aqui está a minha mão. (João levanta-se.) Tranqüilize-se. (À parte, para João:) Faça o que lhe eu mandar, que o salvarei. (Para Júlio:) Bem vê que eu ainda podia lutar, mas sou generoso; não quero. (Para João:) Tio, dê-lhe a mão da prima, (ao ouvido:) que nos calaremos. (João, sem dizer palavra, vai apressado para Clementina, lava-a para junto de Júlio, a quem a entrega, e os abençoa.)
JÚLIO – Ó felicidade!
LUÍS – Disto estou livre. (Para João:) Pague ao Sr. Manuel o que lhe deve. (João mete a mão na algibeira do colete, tira um maço de bilhetes e entrega a Manuel.)
MANUEL – É pouco. (João dá-lhe mais dinheiro.) Agora sim, vou comprar uma carroça!
LUÍS – Agora dê um abraço na tia. (João vai abraçar a Clara.)
LUÍS – Anda, e diga à tia que estava lá fora no portão, ajustando com o italiano das fazendas dois vestidos de crepe bordado dos quais lhe queria fazer mimo.
CLARA – Dous vestidos?
LUÍS – E riquíssimos!
CLARA – Ai, vidinha, e eu estava desconfiando de ti! (Abraça-o)
LUÍS, tomando a João à parte – Não se meta noutra. Deixe o namoro para os moços solteiros.
JOÃO – Estou castigado! E emendado!
RITINHA, que se tem aproximado de Luís – E nós?
LUÍS, fingindo que a não ouve – Viva S. João! Vamos ao fogo! (Ritinha bate o pé de raiva. Acendem o fogo de artifício, e no meio de Viva S. João! e gritos de alegria desce o pano.)
Baixar texto completo (.txt)PENA, Martins. O Namorador ou a Noite de São João. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1992 . Acesso em: 29 jan. 2026.