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#Contos#Literatura Brasileira

Linha reta e linha curva

Por Machado de Assis (1871)

- Felizmente! 

E depois de um silêncio continuou: 

- Tive duas idéias: uma foi o desprezo; mas desprezá-los é pô-los em maior liberdade e ralar-me de dor e de vergonha; a segunda foi o duelo... é melhor... eu mato... ou...

- Deixe-se disso. 

- É indispensável que um de nós seja riscado do número dos vivos. - Pode ser engano... 

- Mas não é engano, é certeza. 

- Certeza de quê? 

Diogo abriu o bilhete e disse: 

- Ora, ouça: 

“Se ainda não me compreendeu é bem curto de penetração. Tire a máscara e eu me explicarei. Esta noite tomo chá sozinha. O importuno Diogo não me incomodará com as suas tolices. Dê-me a felicidade de vê-lo e admirá-lo.” 

EMÍLIA 

- Mas que é isto? 

- Que é isto? Ah! se fosse mais do que isto já eu estava morto! Pude pilhar a carta, e a tal entrevista não se deu... 

- Quando foi escrita a carta? 

- Ontem. 

- Tranqüilize-se. É capaz de guardar um segredo? O que lhe vou dizer é grave. Mas só a sua aflição me faz falar. Posso afirmar-lhe que esta carta é uma pura caçoada. Trata-se de vingar o nosso sexo ultrajado; trata-se de fazer com que Tito se apaixone... nada mais. 

Diogo estremeceu de alegria. 

- Sim? perguntou ele. 

- É pura verdade. Mas veja lá, isto é segredo. Se lho descobri foi por vê-lo aflito. Não nos comprometa. 

- Isso é sério? insistiu Diogo. 

- Como quer que lho diga?

- Ah! que peso me tirou! Pode estar certa de que o segredo caiu num poço. Oh! muito me hei de rir... muito me hei de rir... Que boa inspiração tive em vir falar-lhe! Diga-me, posso dizer a D. Emília que sei tudo? 

- Não! 

- É então melhor que não me dê por achado... 

- Sim. 

- Muito bem! 

Dizendo estas palavras o velho Diogo esfregava as mãos e piscava os olhos. Estava radiante. Quê! ver o suposto rival sendo vítima dos laços da viúva! Que glória! que felicidade! 

Nisto estava quando à porta do interior apareceu Tito. Acabava de levantar se da cama. 

- Bom dia, D. Adelaide, disse ele dirigindo-se para a mulher de Azevedo. Depois sentando-se e voltando a cara para Diogo: 

- Bom dia, disse. Está hoje alegre... Tirou a sorte grande? 

- A sorte grande? perguntou Diogo. Tirei... tirei... 

- Dormiu bem? perguntou Adelaide a Tito. 

- Como um justo que sou. Tive sonhos cor-de-rosa: sonhei com o Sr. Diogo. 

- Ah! sonhou comigo? murmurou entre dentes o velho namorado. Coitado! tenho pena dele! 

- Mas onde está Azevedo? perguntou Tito a Adelaide. 

- Anda de passeio. 

- Já? 

- Pois então. Onze horas. 

- Onze horas! É verdade, acordei muito tarde. Tinha duas visitas para fazer: uma a D. Emília... 

- Ah! disse Diogo.

- De que se espanta, meu caro? 

- De nada! de nada! 

- Bom; vou mandar pôr o seu almoço, disse Adelaide. 

Os dous ficaram sós. Tito acendeu um cigarro de palha; Diogo afetava grande distração, mas olhava sorrateiramente para o moço. Este, apenas soltou duas fumaças, voltou-se para o velho e disse: 

- Como vão os seus amores? 

- Que amores? 

- Os seus, a Emília... Já lhe fez compreender toda a imensidade da paixão que o devora? 

- Qual... Preciso de algumas lições... Se mas quisesse dar? - Eu? Está sonhando! 

- Ah! eu sei que o senhor é forte... É modesto, mas é forte... e até fortíssimo! Ora, eu sou realmente um aprendiz... Tive há pouco a idéia de desafiá-lo. 

- A mim? 

- É verdade, mas foi uma loucura de que me arrependi... 

- Além de que não é uso em nosso país... 

- Em toda a parte é uso vingar a honra. 

- Bravo, D. Quixote! 

- Ora, eu acreditava-me ofendido na honra. 

- Por mim? 

- Mas emendei a mão; reparei que era antes eu quem ofendia pretendendo lutar com um mestre, eu simples aprendiz?... 

- Mestre de quê? 

- Dos amores! Oh! eu sei que é mestre...

- Deixe-se disso... eu não sou nada... o Sr. Diogo, sim; o senhor vale um urso, vale mesmo dous. Como havia de eu... Ora!... Aposto que teve ciúmes? 

- Exatamente. 

- Mas era preciso não me conhecer; não sabe das minhas idéias? - Homem, às vezes é pior. 

- Pior, como? 

- As mulheres não deixam uma afronta sem castigo... As suas idéias são afrontosas... Qual será o castigo? Paro aqui... paro aqui... 

- Onde vai? 

- Vou sair. Adeus. Não se lembre mais da minha desastrada idéia do duelo... 

- Que está acabado... Ah! o senhor esca 

- De quê? 

- De morrer. Eu enfiava-lhe a espada por esse abdômen... com um gosto... com um gosto só comparável ao que tenho de abraçá-lo vivo e são! 

Diogo riu-se com um so amarelo. 

- Obrigado, obrigado. Até logo! 

- Venha cá, onde vai? Não se despede de D. Adelaide? 

- Eu já volto, disse Diogo travando do chapéu e saindo precipitadamente. Tito ainda o acompanhou com os olhos. 

"Este sujeito", disse o moço consigo quando se viu só, "não tem nada de original. Aquela opinião a respeito das mulheres não é dele... Melhor... já se conspira; é o que me convém. Hás de vir! hás de vir! 

Um criado alemão veio anunciar a Tito que o almoço estava preparado. Tito ia entrando quando assomou à porta a figura de Azevedo. 

- Ora, graças a Deus! O meu amigo não se levanta com o sol. Estás com olhos de quem acaba de dormir. 

- É verdade, e vou almoçar.

Dirigiram-se os dous para dentro, onde a mesa estava posta à espera de Tito. 

(continua...)

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