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#Romances#Literatura Brasileira

Cinco Minutos

Por José de Alencar (1856)

"Conheci que tu me amavas; e, perdoa, fiquei orgulhosa dessa paixão ardente, que uma só palavra minha havia criado, desse poder do meu amor, que, por uma força de atração inexplicável, tinha-te ligado à minha sombra.

"Não pude resistir.

"Aproximei-me, disse-te uma palavra sem que tivesses tempo de ver-me; foi essa mesma palavra que resume todo o poema do nosso amor e que, depois do primeiro encontro, era, como ainda hoje, a minha prece de todas as noites.

"Sempre que me ajoelho diante do meu crucifixo de marfim, depois de minha oração, ainda com os olhos na cruz e o pensamento em Deus, chamo a tua imagem para pedir-te que não te esqueças de mim.

"Quando tu te voltaste ao som da minha voz, eu tinha entrado no toilette; e pouco depois saí desse baile, onde apenas acabava de entrar, tremendo da minha imprudência, mas alegre e feliz por te ter visto ainda uma vez.

"Deves agora compreender o que me fizeste sofrer no teatro quando me dirigias aquela acusação tão injusta, no momento mesmo em que a Charton cantava a ária da Traviata.

"Não sei como não me traí naquele momento e não te disse tudo; o teu futuro, porém, era sagrado para mim, e eu não devia destruí-lo para satisfação de meu amor próprio ofendido.

"No dia seguinte escrevi-te; e assim, sem me trair, pude ao menos reabilitar-me na tua estima; doía-me muito que, ainda mesmo não me conhecendo, tivesses sobre mim uma idéia tão injusta e tão falsa.

"Aqui é preciso dizer-te que no dia seguinte ao do nosso primeiro encontro, tínhamos voltado à cidade, e eu te via passar todos os dias diante de minha janela, quando fazias o teu passeio costumado à Glória.

"Por detrás das cortinas, seguia-te com o olhar, até que desaparecias no fim da rua, e este prazer, rápido como era, alimentava o meu amor, habituado a viver de tão pouco.

"Depois da minha carta tu deixaste de passar dois dias, estava eu a partir para aqui, donde devia voltar unicamente para embarcar no paquete inglês.

"Minha mãe, incansável nos seus desvelos, quer levar-me à Europa e

fazer-me viajar pela Itália, pela Grécia, por todos os países de um clima doce.

"Ela diz que é para - mostrar-me os grandes modelos de arte e cultivar o meu espírito, mas eu sei que essa viagem é a sua única esperança, que não podendo nada contra a minha enfermidade, quer ao menos disputar-lhe a sua vítima durante mais algum tempo.

"Julga que fazendo-me viajar, sempre me dará mais alguns dias de existência, como se estes sobejos de vida valessem alguma coisa para quem já perdeu a sua mocidade e o seu futuro.

"Quando ia embarcar para aqui, lembrei-me de que talvez não te visse mais e, diante dessa derradeira provança, sucumbi. Ao menos o consolo de dizer-te adeus!...

"Era o último!

"Escrevi-te segunda vez; admirava-me da tua demora, mas tinha uma quase certeza de que havias de vir.

"Não me enganei.

"Vieste, e toda a minha resolução, toda a minha coragem cedeu, porque, sombra ou mulher, conheci que me amavas como eu te amo.

"O mal estava feito.

"Agora, meu amigo, peço-te por mim, pelo amor que me tens, que reflitas no que te vou dizer, mas que reflitas com calma e tranqüilidade.

"Para isto parti hoje de Petrópolis, sem prevenir-te, e coloquei entre nós o espaço de vinte e quatro horas e uma distância de muitas léguas.

"Desejo que não procedas precipitadamente e que, antes de dizer-me uma palavra, tenhas medido todo o alcance que ela deve ter sobre o teu futuro.

"Sabes o meu destino, sabes que sou uma vítima, cuja hora está marcada, e que todo o meu amor, imenso, profundo, não te pode dar talvez dentro em bem pouco senão o sorriso contraído pela tosse, o olhar desvairado pela febre e carícias roubadas aos sofrimentos.

"É triste; e não deves imolar assim a tua bela mocidade, que ainda te reserva tantas venturas e talvez um amor como o que eu te consagro.

"Deixo-te, pois, meu retrato, meus cabelos e minha história; guarda-os como uma lembrança e pensa algumas vezes em mim: beija esta folha muda, onde os meus lábios deixaram-te o adeus extremo.

"Entretanto, meu amigo, se, como tu dizias ontem, a felicidade é amar e sentir-se amado; se te achas com forças de partilhar essa curta existência, esses poucos dias que me restam a passar sobre a terra, se me queres dar esse consolo supremo, único que ainda embelezaria minha vida, vem!

"Sim, vem! iremos pedir ao belo céu da Itália mais alguns dias de vida para nosso amor; iremos aonde tu quiseres, ou aonde nos levar a Providência.

"Errantes pelas vastas solidões dos mares ou pelos cimos elevados das montanhas, longe do mundo, sob o olhar protetor de Deus, à sombra dos cuidados de nossa mãe, viveremos tanto um como outro, encheremos de tanta afeição os nossos dias, as nossas horas, os nossos instantes, que, por curta que seja a minha existência, teremos vivido por cada minuto séculos de amor e de felicidade.

"Eu espero; mas temo.

(continua...)

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