Por Joaquim Manuel de Macedo (1870)
CLARIMUNDO – Já tagarelaste demais, e estás estorvando o meu passeio com Helena; vai almoçar comigo amanhã às nove horas precisas... hotel Provenceaux segundo andar.
CINCINATO – Hotel Provenceaux... segundo andar... sem falta. seremos três a almoçar; porque eu sou dois à mesa dos amigos. Minha senhora... (Aperta a mão de
Helena.) Sr. Clarimundo, até amanhã. (Aperta a mão de Clarimundo.) CLARIMUNDO – Às nove horas... ou antes... ( Vai-se Cincinato.)
CENA V
CLARIMUNDO e HELENA
CLARIMUNDO – Excelente mancebo! tipo de lealdade e honra; é pena que desame o trabalho e tão estouvado às vezes se mostre.
HELENA – Vive na abastança com o que possui; não tem ambições e o seu estouvamento a ninguém prejudica; comigo, embora colaço de meu marido, leva o respeito a condições de cerimônia, e é um amigo de fidelidade exemplar.
CLARIMUNDO – É, posso dizê-lo; mas... como se acha?...
HELENA – Estou muito melhor... (Passeiam.)
CLARIMUNDO – Vim encontrá-la um pouco abatida... evidentemente padece; quando há três anos fui para o Rio da Prata, deixei-a mais alegre e gozando melhor saúde: não é feliz?...
HELENA – Muito feliz, Adriano... é tão bom para mim!...
CLARIMUNDO – Sabe como estimo seu marido: é um perfeito cavalheiro; mas às vezes entre jovens casados basta a sombra de uma suspeita para anuviar a felicidade.
HELENA (Trêmula.) – Eu confio no amor de meu marido: Adriano me trata
com a mais extremosa delicadeza.
CLARIMUNDO – Pareceu-me que se perturbou... eu tenho o direito...
HELENA – Oh! enganou-se, não posso queixar-me de Adriano: sou feliz.
CLARIMUNDO – Seu marido é muito moço e a mocidade é sujeita a imprudentes desvios: mas... eu respondo pelo coração do homem a quem confiei o seu futuro... a sua vida; (comovido.) se o ímpeto de idade... um erro... alguns dias de desvario... não sei... mas se por acaso Adriano mentiu ao seu dever, a virtude da esposa o regeneraria com o perdão.
HELENA – Por que me diz isto?... eu não deixei ainda transpirar leve desconfiança da lealdade de meu marido... amo e sou amada... que mais posso desejar?...
CLARIMUNDO – Mas responde-me a tremer, e está a ponto de chorar: o leviano sou eu... a ocasião é a mais imprópria...
HELENA – É que estou incomodada... sofro...
CLARIMUNDO – Para que então veio ao teatro?
HELENA – Não devia ter vindo... não devia... tem razão; eu, porém, havia prometido vir à melhor das minhas amigas.
CLARIMUNDO – E quem é a melhor das suas amigas. minha filha?...
HELENA – Dª. Úrsula, a senhora viúva, de quem se falou há pouco.
CLARIMUNDO – Ah! conheço-a: podia ser sua mãe; para a melhor das suas amigas é bem desigual em anos: desde quando se relacionou com ela?
HELENA – Há poucos meses. Que pensa de dª. Úrsula?...
CLARIMUNDO – Eu?... nem bem, nem mal: apenas a conheci nas sociedades do meu tempo.
HELENA – Ela tem falado de vossa mercê com elogio e estima...
CLARIMUNDO – Santa criatura!... pensei que nem se lembrasse de mim. E... de Adriano... que diz dª. Úrsula?...
HELENA (Estremecendo.) – De Adriano!... que poderia ela dizer-me de meu marido?...
CLARIMUNDO – Perguntei por perguntar: e Fábio?...o irmão de dª. Úrsula?...
HELENA – Não faço bom juízo dele: tenho-o por fátuo e vaidoso; e, embora Adriano o considere seu amigo, não admito a sua intimidade... apenas o encontro por acaso.
CLARIMUNDO – Penso que procede com acerto, mas nesse proceder quem a inspira?... o instinto da antipatia, o conselho da reflexão, ou... diga a verdade, ou o justo ressentimento da suspeita de uma afronta?...
HELENA – Senhor...
CLARIMUNDO – Muito bem, minha filha: quer voltar ao camarote?...
HELENA – Ainda não; o ar aqui é mais leve, e me reanima: não me acha melhor?... passemos pelo corredor dos camarotes... vamos por este lado...
CLARIMUNDO – O ar ali menos puro... talvez lhe seja nocivo...
HELENA – Não... vamos por ali... quero distrair-me: desejo ver a moça de quem o sr. Cincinato falou-nos, dizem que é bonita.
CLARIMUNDO – Como sabe que ela está no teatro?...
HELENA (Confundida.) – Como sei?... mas... o sr. Cincinato nomeou-nos o tio... não se lembra!...
CLARIMUNDO – O tio podia ter vindo só ao teatro: como sabe que o camarote é na segunda ordem e daquele lado?...
HELENA (Mais perturbada.) – Como sei... ora....era fácil sabê-lo... olhavam...
(Quase a chorar) todos olhavam... todos... adivinhei...
CLARIMUNDO – Minha filha!... minha filha!...
HELENA (Chorando e apoiando o rosto no ombro de Clarimundo.) – Perdão!...
CLARIMUNDO – Perdão... ah! sim! perdão! é perdão que eu te peço!... perdão para ele!...
HELENA – Meu bom pai!... sou muito desgraçada!...
CLARIMUNDO – Adriano chega, dissimula a aflição e conta comigo.
CENA VI
CLARIMUNDO, HELENA e ADRIANO
ADRIANO – Ah! passeiam... (Cuidadoso a Helena.) Que tens, Helena?...
HELENA – Ligeiro incômodo... uma vertigem que passou... dá-me uma cadeira... (Adriano vai buscar a cadeira.) veja o corredor donde ele vem!... (A
Clarimundo.)
ADRIANO (A Helena que se senta.) – Estás melhor?... dize... estás melhor?...
(Helena encara-o trêmula.) Que tem ela?... (A olhar) HELENA – Estou boa.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Remissão de Pecados. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2159 . Acesso em: 6 jan. 2026.