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#Comédias#Literatura Brasileira

Antonica da Silva

Por Joaquim Manuel de Macedo (1880)

PESTANA – Pestana: nome já glorioso no regimento de Moura.

INÊS (Fingindo rir) – Pestana, que nome ridículo! crisme-se; mas não caia em ficar sobrancelha; tome pelo menos o nome de sargento bigode.

PESTANA (À parte) – Eu aturo esta insolência só em respeito ao capitão Pina; mas capitão, capitão! começo a desconfiar.

INÊS (Notando um rasgão na manga esquerda da farda) – Sargento, dê-me uma agulha com linha...

PESTANA (À parte) – Ordena que parece o coronel do regimento (Tira da patrona agulha e linha) E dou-lha: quero ver como costura (Custa a enfiar a agulha).

INÊS (Tomando-lhe a agulha e a linha) – Ah!... levaria uma hora a enfiar... (Enfia e conserta o rasgão da farda; canta costurando)

Remendeira, remendeira...

Ponto aqui, ponto acolá

Enquanto vais remendando

Pensa em ti, quam longe está...

Lá, lá.

Que ditosa te fará,

Lá, lá.

PESTANA (À parte) – Costura que é um gosto! aposto que o soldadinho nunca foi alfaiate... costureira, parece que é! capitão, capitão.

Cena III

Inês, Pestana e Benjamim, com hábito de noviço franciscano, e logo o Capitão Pina.

BENJAMIM (Apressado) – Quero falar ao coman... (Reconhecendo Inês) Oh!...

INÊS (A Benjamim) – Silêncio...

BENJAMIM (A Inês) – Como está fascinadora com a farda de soldado!... mas eu não consinto... fugi do convento e venho entregar-me.

INÊS (A Benjamim) – De modo nenhum!... fuja eu preciso muito do senhor livre do recrutamento... preciso...

PESTANA – Reverendíssimo, conhece este soldadinho?

BENJAMIM – Não é da sua conta: quero falar ao comandante... ou ao general... ou não sei a quem.

PESTANA (À parte) – Que frade malcriado!...

INÊS (A Pestana) – Não chame o capitão...

BENJAMIM (Puxando Pestana) – Chame o capitão!

INÊS (Puxando Pestana) – Não chame!...

BENJAMIM (Puxando Pestana) – Chame!... Chame!...

PESTANA (A Inês) – Que tem o senhor com o frade?

INÊS – Também não é da sua conta.

PINA (Chegando) – Que é isto?...

PESTANA (A Inês) – Faça a continência...

INÊS – Deixe-me! agora não estou para continências.

PINA – Reverendíssimo, venha para o estado maior.

BENJAMIM – Aqui mesmo: eu venho...

INÊS – Senhor capitão, ele veio pedir o lugar de capelão do regimento...

PINA (A Inês) – Soldado! não te perguntei coisa alguma.

INÊS – Mas eu quando quero falar, não espero que me perguntem...

BENJAMIM – Venho declarar que sou o Benjamim que fugiu de Macacu vestido de mulher e com o falso nome de Antonica da Silva...

INÊS – É mentira dele, senhor capitão; o frade é meu primo e vem com esta...

PINA – Sargento, leva o soldado para o quartel...

PESTANA (A Inês) – Marcha!

INÊS – Não vou: agora não saio daqui.

PESTANA – Senhor capitão, recolho o insubordinado ao xadrez.

PINA – Deixa-o: talvez eu queira interrogá-lo.

PESTANA (À parte) – Foi-se a disciplina!... entrou no regimento uma saia por baixo da farda.

PINA – Reverendíssimo, como hei de acreditar no que diz?... esse hábito religioso...

BENJAMIM – Como eu era sacristão dos franciscanos em Macacu, entendeu o provincial que podia trancafiar-me no convento da cidade, e fazer de conta que sou noviço.

PINA – Então...

BENJAMIM – Fugi do convento... não quero ser frade... prefiro ser soldado...

INÊS – Oh... oh... oh!... quanta mentira!... o Benjamim sou eu.

PINA (A Inês) – Cala-te!... (Bate com o pé).

INÊS (Ressentida) – Perdão!... não se trata assim a uma...

PINA – A uma?

INÊS – Sim, senhor... a uma pessoa de educação.

PINA – Reverendíssimo, vou oficiar ao coronel, dando-lhe parte de tudo (Indo-se) E também ao provincial dos franciscanos... (Recolhe-se ao estado maior).

INÊS – Não sabe o que fez! destruiu a minha obra.

BENJAMIM – Não podia deixá-la aqui: serei soldado... mas não se esqueça de mim, oh! e se seus pais consentirem.

INÊS – Eu falarei a meu padrinho...

BENJAMIM – Que sombra de felicidade! (Toma a mão de Inês).

INÊS – Tenha fé! o sonho há de realizar-se!...

BENJAMIM – Nunca se amou como eu amo!...

PESTANA – Olhem o frade!...

Cena IV

Inês, Pestana, Benjamim e Mendes.

INÊS (Alegre) – Oh!... é meu padrinho!

MENDES – Onde e como venho encontrar-te? (Severo) uma donzela ousa vir meter-se em um quartel de soldados!... (Inês abate-se).

BENJAMIM – Coitadinha!... poupe-a: está arrependida; acabo de ouvi-la em confissão... ficou contrita, e eu absolvi-a.

MENDES – Mas eu não a absolvo: manchou sua reputação, condenou-se às censuras e à zombaria de todos... sou eu padrinho, mas nego-lhe a minha bênção!...

INÊS – Ah!... ah!... (Desata a chorar).

BENJAMIM – Não chore! não chore... senão eu... não poderei conter-me... desato numa berraria...

MENDES – De que servem choros? lágrimas não lavam manchas da vida e do proceder da mulher; o pranto não me comove! (À partee brando) o pior é que eu não posso vê-la chorar!...

INÊS (De joelhos e a chorar) Per... dão... meu pa... drinho...

MENDES (Comovido e à parte) – É preciso ser severo (Alto) Não há perdão!...

semelhante escândalo... não se perdoa!... (À parte) eu creio... que exagero a severidade...

ela está aflitíssima... (Alto) Não se perdoa!...

INÊS (Caindo de bruços a soluçar) – Eu... morro!... ah!...

(continua...)

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