Por Joaquim Manuel de Macedo (1844)
Não fuja... prosseguiu d. Violante, arrastando por sua vez sua cadeira até encostá-la à do estudante; não fuja... eu quero dizer-lhe coisas que não é preciso que os outros ouçam.
— E então? pensou de novo Augusto, fiz ou não uma galante conquista!... E suava suores frios.
— O senhor está no quinto ano de medicina?...
— Sim, minha senhora. Já cura?
— Não, minha senhora.
— Pois eu desejava referir-lhe certos incômodos que sofro, para que o senhor me dissesse que moléstia padeço e que tratamento me convém.
— Mas... minha senhora… eu ainda não sou médico e só no caso de urgente necessidade me atreveria...
— Eu tenho inteira confiança no senhor: me parece que é o único capaz de acertar com a minha enfermidade.
Mas ali está um estudante do sexto ano...
— Eu quero o senhor mesmo.
Pois, minha senhora, eu estou pronto para ouvi-la; porém julgo que o tempo e o lugar são pouco oportunos...
— Nada… há de ser agora mesmo.
Ah!... A boa da velha falou e tornou a falar. Eram duas horas da tarde e ela ainda dava conta de todos os seus costumes, de sua vida inteira; enfim, foi uma relação de comemorativos, como nunca mais ouvirá o nosso estudante. Às vezes Augusto olhava para seus companheiros e os via alegremente praticando com as belas senhoras que abrilhantavam a sala, enquanto ele se via obrigado a ouvir a mais insuportável de todas as histórias. Daqui e de certos fenômenos que acusava a macista, nasceu-lhe o desejo de tomar uma vingançazinha. Firme neste propósito, esperou com paciência que d. Violante fizesse ponto final, bem determinado a esmagá-la com o peso de seu diagnóstico, e ainda mais com o tratamento que tencionava prescrever-lhe.
As duas horas e meia a oradora terminou o seu discurso, dizendo:
— Agora quero que, com toda a sinceridade, me diga se conhece a minha enfermidade e o que devo fazer.
Então V. S. ª dá-me licença para falar com toda a sinceridade?
— Eu o exijo.
— Pois, minha senhora, atendendo a tudo quanto ouvi, e principalmente a esses últimos incômodos, que tão amiúde sofre, e de que mais se queixa, como tonteiras, dores no ventre, calafrios, certas dificuldades, esse peso dos lombos etc., concluo, e todo o mundo médico concluirá comigo, que V. S. padece...
— Diga... não tenha medo. — Hemorróidas.
D. Violante fez-se vermelha como um pimentão, horrível como a mais horrível das fúrias, encarou o estudante com despeito, e, fixando nele seus tristíssimos olhos furta-cores, perguntou:
— O que foi que disse, senhor?
— Hemorróidas, minha senhora.
Ela soltou uma risada sarcástica.
— V. S.ª quer que lhe prescreva o tratamento conveniente?...
— Menino, respondeu com mau humor, tome o meu conselho: outro ofício; o senhor não nasceu para médico.
— Sinto ter desmerecido o agrado de V. S.ª por tão insignificante motivo. Rogo-lhe que me desculpe, mas eu julguei dever dizer o que entendia.
Isto dizendo, o estudante ergueu-se; a velha já não fez o menor movimento para o demorar, e vendo-o deixá-la, disse em tom profético:
— Este não nasceu para a medicina!
Mas Augusto, afastando-se de d. Violante, dava graças ao poder de seu diagnóstico e augurava muito bem de seu futuro médico, pela grande vitória que acabava de alcançar.
Agora sim, disse ele com os seus botões, vou recuperar o tempo perdido; e procurava uma cadeira, cuja vizinhança lhe conviesse.
A digna hóspeda compreendeu perfeitamente os desejos do estudante, pois mostrando-lhe um lugar junto de sua neta, disse:
— Aquela menina lhe poderá divertir alguns instantes.
— Mas, minha avó, exclamou a menina com prontidão, até o dia de hoje ainda não me supus boneca.
Menina!...
Contudo, eu serei bem feliz se puder fazer com que o senhor... o senhor...
— Augusto, minha senhora...
— O sr. Augusto passe junto a mim momentos tão agradáveis, como lhe foram as horas que gozou ao pé da sra. d. Violante.
Augusto gostou da ironia, e já se dispunha a travar conversação com a menina travessa, quando Fabrício se chegou a eles, e disse a Augusto:
— Tu me deves dar uma palavra.
— Creio que não é preciso que seja imediatamente.
— Se a sra. d. Carolina o permitisse, eu estimaria falar-te já.
— Por mim não seja... disse a menina erguendo-se.
— Não, minha senhora, eu o ouvirei mais tarde, acudiu Augusto, querendo retê-la.
Nada... não quero que o sr. Fabrício me olhe com maus olhos... Além de que, eu devo ir apressar o jantar, pois li no seu rosto que a conversação que teve com a sra. d. Violante, quando mais não desse, ao menos produziu-lhe muito apetite... mesmo um apetite de... de...
— Acabe.
— De estudante.
E, mal o disse, a travessa moreninha correu para fora da sala.
CAPÍTULO IV
Falta de condescendência
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. A Moreninha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16667 . Acesso em: 1 jan. 2026.