Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)
f: a aurora, é a rosa do céu que, antes de tudo mais, quero ver... se puder ver; e a aurora que é pura, que é o sorrir do sol mandado de longe à terra, é a aurora que eu contemplarei por mais de três, por dez minutos sem temer a visão do mal: porque no seio e através da aurora só poderei ver o sol, que é majestade pela luz, vida pelo calor, providencia pela regulação do movimento dos planetas.
III
E estremeci, ouvindo o canto dos passarinhos no jardim, e o ruído e a festa da natureza, saudando o despontar da aurora.
Era tempo; mas demorei-me ainda, aspirando mais luz, mais brilhante alvorecer no horizonte; o meu coração palpitava com força, a minha alma estava nadando em mar de esperanças e de temores: enfim minha mão se ergueu convulsa... fixei a luneta...
Oh! felicidade!... oh, supremo gozo!... eu vi!... eu adorei a aurora!
Ah! contemplei esse quadro ao mesmo tempo gracioso e magnífico de rosas de fogo suave, esse rubor da virgem do oriente acendido pelo beijo de fogo brando que o sol na face lhe imprime!
Como é bela, esplêndida, fresca, sublime a aurora! não se descreve: é como o primeiro despertar de noiva formosa no leito nupcial, mistura de glória e pejo, de pudicícia e de flamas que fazem corar... é o indizível... o céu abrindo-se à terra.
Eu estava embevecido a olhar a aurora pela minha luneta mágica, admirava, apreciava uma a uma todas as pétalas daquela rosa do oriente que resume mil rosas, todas as nuanças daquelas tintas de fogo saídas dos pincéis dos ralos do sol...
Esqueci o tempo a olhá-la... sem dúvida eu ia já além de três minutos. . .
E de repente as rosas fulgurantes foram se apagando... vi uma nuvem negra, feia, horroroso, preparando em seu seio tempestade violenta, senti a trovoada e o raio, as trevas perto da luz, o estridor abafando o trinar das aves...
Vi o sol, mas não senti nem a luz da majestade, nem o calor que fecunda, vi os raios de ardor desastroso que crestam as plantas e preparam a miséria e a fome; vi raios que pela insolação tinham de produzir a loucura, vi raios que forjados para vibrar sobre os tanques de águas estagnadas, e sobre os pauis, iam levantar, espalhar miasmas e com eles derramar a peste e a morte sobre os homens, vi o sol—não formoso—mas cheio de manchas; vi o sol— não fonte de vida—mas senti a sua força atrativa forjando só os terremotos, os cataclismos, o horror...
Recuei assombrado... a luneta mágica abandonada pela mão que a sustinha, caiu-me no peito... nada mais vi, exclamei porém com dor profunda:
—Meu Deus!... como a aurora e enganadora e falsa!... e como o sol é feio, terrível e mau!!!
IV
O armênio tem razão: a visão do mal é um tormento; ver muito é um erro; ver demais e um castigo; a temperança é virtude que deve presidir e moderar os gozos de todos os sentidos do homem.
Por que, para que me expus a desestimar a aurora que é tão formosa, e a descobrir na natureza e na influência do sol que dizem ser fonte de vida, tantos germens de destruição e de morte? Por que e para que ficar-me na alma esta desconfiança das ilusões da aurora, esta certeza de que o sol é também assassino da criação e assolador da terra?...
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E por que esta luneta mágica além de três minutos de fixidade só me deixou ver os males e os horrores que 0 sol pode produzir e negou-me a contemplação dos seus benefícios?
Oh! foi dolorosa; mas será profícua a lição; doravante saberei defender-me da vingança terrível da salamandra escravizada: aborreço. Não experimentarei mais a visão ao mal; basta-me a visão da superfície e das aparências. Se o mundo é de enganos, se a vida é de ilusões, se na terra a felicidade do homem está nas ilusões dos sentidos, e nos enganos da alma, eu quero iludir-me e enganar-me para ser feliz.
Oh! vem, minha luneta magica, vem! mas para que eu te fixe somente dois minutos sobre cada objeto.
E eu fixei a luneta nas flores, cujo matiz, e cujas cores variadas e belas enfeitiçaram meus olhos, fixei-a nos passarinhos, nas borboletas, nas folhas das arvores que ainda lagrimejavam gotas de orvalho e festejei todos estes tesouros da natureza, que eu via, e distinguia perfeitamente pela primeira vez.
Gozei uma hora de inexplicável encantamento, gozei muito, muito; mas, preciso é confessar, os meus gozas, suavíssimos embora, foram sempre perturbados por dois sentimentos que de certo modo os deixavam incompletos.
Fixando a minha luneta eu sentia logo e quase ao mesmo tempo medo e curiosidade; medo de esquecer o tempo e de chegar à visão do mal, e curiosidade teimosa, insistente, insidiosa e cada vez mais forte dessa mesma visão do mal.
Pouco e pouco venci o medo, medindo instintivamente os minutos; não pude porém vencer, domar a curiosidade, que em luta aberta com a minha razão, martirizava-me, aguçando um desejo fatal.
Essa curiosidade era como a tentação do demônio que nos arrasta ao pecado; meus lábios haviam já tocado uma vez na taça oferecida pela tentação, e o veneno que eu bebera, abrasava o meu seio, e eu tinha sede devoradora da visão do mal.
(continua...)
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