Por Machado de Assis (1876)
Lulu ergueu-se e foi à janela para disfarçar a comoção. Pedro deixou-se ficar na cadeira. Daí a pouco, ouviram-se os passos do padre Sá; o moço pegou num livro, abriu-o ao acaso e entrou a ler. A tristeza de Lulu foi observada pelo tio, que assentou de si para si convidar o sobrinho a uma conferência, resoluto a conhecer o estado das coisas. — Amam-se, não há dúvida, pensava o velho; mas há alguma coisa, decerto, que não posso descobrir. É necessário sabê-lo.
Pedro demorou-se em casa do padre até depois de nove horas. A moça presidiu ao chá com a graça habitual, e um pouco mais livre das comoções daquela noite. Acabado o chá, Pedro despediu se do velho sacerdote e da sobrinha. A moça acompanhou-o até à porta do gabinete, enquanto o tio preparava o tabuleiro das damas para a partida de costume. — Boa noite, disse Lulu apertando a mão ao filho de D. Emiliana.
— Boa noite, respondeu ele.
E mais baixo:
— Verá hoje mesmo que lhe satisfaço o capricho.
Lulu ficou estupefata ao ouvir aquelas palavras; mas não pôde pedir maior explicação, não só porque o tio ficava a poucos passos, como porque o moço só lhe dera tempo de ouvi-lo; saíra imediatamente.
A partida de damas foi aborrecida e não durou muito. Ambos os contendores estavam preocupados de coisas sérias. Às nove e meia, despediram-se para ir dormir. — Vê se o sono te dá melhor aspecto, disse o padre Sá dando a mão a beijar à sobrinha. — Estou hoje mais feia que de costume?
— Não; mais triste.
— Não é tristeza, é cansaço, respondeu a moça; dormi pouco a noite passada. Despediram-se.
Lulu, apenas entrou no quarto, correu à janela; fê-lo com a curiosidade vaga de saber se o filho de D. Emiliana realizara a promessa de satisfazer-lhe o capricho. A praia estava deserta.
— Naturalmente! disse ela consigo. Para obedecer a uma tolice minha era necessário cometer tolice maior.
Lulu entrou, destoucou-se, deixou os vestidos, envolveu-se em um roupão e sentou-se ao pé da janela. Ali ficou cerca de meia hora absorvida em seus pensamentos; a figura de Alexandre flutuava-lhe no espírito, confundindo-se às vezes com a de Pedro. Ela comparava a assiduidade de um com a frieza do outro; frieza que ela atribuía ora a um sentimento de ciúme, ora ao amortecimento da antiga afeição. Esta mesma afeição a moça entrou a analisá-la, a estudá-la no passado sem lhe achar intensidade igual à sua. Nunca duvidara do amor de Alexandre; mas agora que o dissecava reconhecia que era um amor grave e refletido demais, sem aquela exuberância própria da mocidade e do coração.
Lulu não reparava que esta mesma segurança de vista com que apreciava o estado do coração do primo era prova de que o seu estava menos alienado pela paixão. O que ela de todo ignorava era que aquele primeiro afeto, nascido do costume, nutrido da convivência, era menos espontâneo e irresistível do que parecia. Suas alegrias e tristezas não vinham das raízes do coração, não lhe estremeciam a alma, nem a cobriam de luto. Nisto não pensava ela; mas começou-o a sentir naquela noite, e pela primeira vez o coração pediu alguma coisa mais do que um afeto mal sentido e mal correspondido. No meio dessas sensações vagas, sonhos indecisos, aspirações e ânsias sem objeto, ergueu-se a moça disposta a recolher-se. Ia cerrar as venezianas da janela, quando viu um vulto na praia, a passear lentamente, parando às vezes de costas para o mar. Apesar da lua, que então começava a surgir brilhante e clara, Lulu não pôde conhecer quem era, todavia as palavras de Pedro estavam-lhe na memória. Afirmou a vista; e o talhe e o andar pareceram-lhe do moço. Seria ele? A idéia era tão extravagante que a moça repeliu-a imediatamente; esperou algum tempo à janela. Quinze minutos decorreram sem que o vulto, quem quer que fosse, se retirasse dali. Tudo parecia dizer que era o filho de D. Emiliana; contudo, a moça quis prolongar a experiência; fechou a janela e retirou-se. Meia hora decorreu — meia hora de relógio, mas uma eternidade para a alma curiosa da moça, lisonjeada com aquele ato do rapaz, lastimando e desejando o sacrifício. — Impossível! dizia ela. É impossível que uma brincadeira... Mas aquela é a figura dele; e demais quem viria colocar-se ali, a esta hora, a passear solitário...
Lulu abriu de novo a janela; o vulto lá estava, desta vez sentado em uma pedra, fumando um charuto. Logo que ela abriu a janela, o vulto, que parecia olhar para lá, ergueu-se e entrou a passear de novo, com o mesmo passo tranqüilo de um homem disposto a velar a noite na praia. Há de ser por força um passo diferente dos outros; pelo menos, assim o achou a sobrinha do padre Sá.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Encher tempo. 1876.