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#Contos#Literatura Brasileira

Dívida Extinta

Por Machado de Assis (1878)

Respondeu Adriano: “. Os dois foram juntos à casa do marmorista; trataram com ele; discutiram o preço; assentaram na redação do epitáfio, que lembrava, não só o morto, mas sobretudo os dois vivos. Saíram juntos; toda a vida do finado foi rememorada entre eles, com a mais ardente piedade. Um e outro lembraram-se da estima que ele sempre lhes tivera. Nesse dia jantaram juntos; um jantar fúnebre mas cordial. Dois meses depois chegaram à fala sobre a necessidade de obedecer ao desejo do morto, que devia ser sagrado, dizia Anacleto. Sacratíssimo, emendava Adriano. Quando se completaram cinco meses depois da morte do boticário, Carlota e o marido entraram em uma loja de fazendas, a comprar não sei quantos côvados de chita de algodão. Não repararam na firma social pintada na porta, mas ainda reparando, podiam eles atinar quem seriam Fagundes & Monteiro? Fagundes e Monteiro, a firma toda, estavam na loja e voltaram-se para servir a freguesa. Carlota empalideceu, mas dominou se. Pediu o que queria com voz trêmula, e os dois apressaram-se a servi-la não sei se comovidos, mas em todo o caso corteses. 

— A senhora não acha melhor fazenda do que esta. 

— Pode ser... É muito cara? 

— Baratíssima, disse Fagundes: dois mil-réis... 

— É caro! 

— Podemos deixá-la por mil e oitocentos, acudiu Monteiro. 

— Mil e seiscentos, propôs o marido de Carlota. 

Os dois fizeram a careta do estilo e simularam uma hesitação, que não foi longa. — Vá, disseram eles. 

A fazenda foi medida e paga. Carlota, que não ousava encará-los, fez um leve gesto de cabeça e saiu com o marido. 

Ficaram silenciosos os primos por alguns instantes. Um dobrava a fazenda, enquanto o outro fechava o dinheiro na caixa. Interiormente estavam radiantes: tinham ganho seiscentos réis em côvado! 

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