Por Machado de Assis (1876)
Veloso saiu; Gaspar ficou meditando na situação. Poupo à leitora a exposição das longas e complicadas reflexões que ele fez, bastando dizer que no dia seguinte ainda a questão estava neste pé:
— Devo eu desobedecer a voz de um morto? Trair a esperança de uma senhora que me estima, que me estremece?
Vinte e quatro horas depois estava enfim resolvida a questão. Gaspar declarou a D. Mônica que estava disposto a casar com ela, se consentisse em dar-lhe esse prazer. A boa senhora não tinha outro desejo; contudo, foi fiel à máxima do sexo; fez-se um tanto rogada.
— Resolvi! disse Gaspar a Veloso logo que o encontrou depois disso. — Ah!
— Caso-me.
— Com a Lucinda?
— Com minha tia.
Veloso recuou dois passos e esteve calado alguns instantes.
— Admiras-te?
— Admiro-te. Afinal os trezentos contos...
— Ah! não! Obedeço à vontade de meu tio, e não posso corresponder com ingratidão aos desvelos de uma senhora que me estima. Será isto poesia, talvez; talvez me acusarás de romanesco; mas eu penso que sou simplesmente honrado e leal.
Veloso foi convidado para servir de padrinho do casamento. Aceitou o encargo; é amigo da família; e consta que deve a Gaspar uns três ou quatro contos de empréstimo. Lucinda chorou durante dois dias, ficou raivosa outros dois; no quinto encetou um namoro, que acabou pelo casamento daí a quatro meses. Não era melhor que todos eles começassem por aí? Poupavam a si próprios alguns desgostos, e a mim o trabalho de lhes contar o caso.
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. D. Mônica. Jornal das Famílias, 1876.