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#Relatos#Literatura Brasileira

História da Província de Santa Cruz

Por Pero de Magalhães Gândavo (1576)

Um certo gênero de arvores ha tão bem pelo mato dentro na Capitania de Pernãobuco a que chamam Copahibas de que se tira bálsamo mui salutifero e proveitoso em extremo, para enfermidades de muitas maneiras, principalmente as que procedem da frialdade: causa grandes efeitos, e tira todas as dores por graves que sejam em muito breve espaço. Para feridas ou quaisquer outras chagas, tem a mesma virtude, as quais tanto que com ele lhe acodem, saram mui depressa, e tira os sinais de maneira, que de maravilha se enxerga onde estiveram e nisto faz vantagem a todas as outras medicinas. Este óleo não se acha todo o ano perfeitamente nestas arvores, nem procuram ir busca-lo senão no estio que é o tempo em que assinaladamente o criam. E quando querem tira-lo dão certos golpes ou furos no tronco delas pelos quais pouco a pouco estão estilando do âmago este licor precioso. Porém não se acha em todas estas arvores se não em algumas a que por este respeito dão o nome de fêmea, e as outras que carecem dele chamam machos, e nisto somente se conhece a diferença destes dous gêneros, que na proporção e semelhança não difere nada umas das outras. As mais delas se acham roçadas dos animais, que por instinto natural quando se sentem feridos ou mordidos de alguma fera as vão buscar para remédio de suas enfermidades.

Outras arvores diferentes destas ha na Capitania dos Ilhéus, e na do Espírito Santo a que chamam Caborahibas, de que tão bem se tira outro bálsamo: o qual sai da casca da mesma arvore, e cheira suavíssimamente. Tão bem aproveita para as mesmas enfermidades, e aqueles que o alcançam tem-no em grande estima e vendem-no por muito preço, porque além de as tais arvores serem poucas correm muito risco as pessoas que o vão buscar, por causa dos inimigos que andam sempre naquela parte emboscados pelo mato e não perdoam a quantos acham.

Tão bem ha uma certa arvore na Capitania de São Vicente, que se diz pela língua dos índios "Obirá paramaçaci", que quer dizer pão para enfermidades: com o leite da qual somente com três gotas, purga uma pessoa por baixo e por cima grandemente. E si tomar quantidade de uma casca de noz, morrerá sem nenhuma remissão. De outras plantas e ervas que não dão fruto nem se sabe o para que prestam, se podia escrever, de que aqui não faço menção, porque meu intento não foi se não dar noticia (como já disse) destas de cujo fruto se aproveitam os moradores da terra. Somente tratarei de uma mui notável, cuja qualidade sabida creio que em toda parte causará grande espanto. Chama-se erva viva, e tem alguma semelhança de silvão macho. Quando alguém lhe toca com as mãos, ou com qualquer outra cousa que seja, naquele momento se encolhe e murcha de maneira que parece criatura sensitiva que se anoja, e recebe escândalo com aquele tocamento. E depois que assossega, como cousa já esquecida deste agravo, torna logo pouco a pouco a estender-se até ficar outra vez tão robusta e verde como dantes. Esta planta deve ter alguma virtude mui grande, a nós encoberta, cujo efeito não será pela ventura de menos admiração. Porque sabemos de todas as ervas que Deus criou, ter cada uma particular virtude com que fizessem diversas operações naquelas cousas para cuja utilidade foram criadas e quanto mais esta a que a natureza nisto tanto quis assinalar dando-lhe um tão estranho ser e diferente de todas as outras.

CAPÍTULO VI - Dos animais e bichos venenosos que há nesta Província.

Como esta Província seja tão grande e a maior parte dela inabitada e cheia de altíssimos arvoredos, e espessos matos, não é d'espantar que haja nela muita diversidade de animais, e bichos mui feros e venenosos, pois cá entre nós, com ser terra já tão cultivada e possuída de tanta gente, ainda se criam em brenhas cobras mui grandes de que se contam cousas mui notáveis, e outros bichos e animais mui danosos, esparzidos por charnecas e matos, a que os homens com serem tantos e matarem sempre neles, não podem acabar de dar fim, como sabemos. Quanto mais nesta Província, onde os climas e qualidades dos ares terrestres, não são menos dispostos para os gerarem, do que a terra em si, pelos muitos matos que digo, acomodada para os criar.

(continua...)

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