Por Pero de Magalhães Gândavo (1576)
Não dão vida a nenhum cativo, todos matam e comem, enfim que suas guerras são mui perigosas, e devem-se ter em muita conta porque uma das cousas que desbaratou muitos portugueses foi a pouca estima em que tinham a guerra dos indios, e o pouco caso que faziam deles, e assim morreram muitos miseravelmente por não se aperceberem como convinha; destes houve muitas mortes desastradas: e isto acontece cada passo nestas partes.Quando estes indios tomam alguns contrários, se logo com aquele ímpeto os não matam, levam-nos vivos pela suas aldeias (ou sejam portugueses ou quaisquer outros indios seus inimigos), e tanto que chegam a suas casas lançam uma corda mui grossa ao pescoço do cativo para que não possa fugir, e armam-lhe uma rede em que durma e dão-lhe uma índia moça, a mais formosa e honrada que há na aldeia, para que durma com ele, e também tenha cuidado de o guardar, e não vai pela parte que não no acompanhe.Esta índia tem cargo de lhe dar muito bem de comer e beber; e depois de o terem desta maneira cinco ou seis meses ou o tempo que querem, determinam de o matar; e fazem grandes cerimônias e festas aqueles dias, e aparelham muitos vinhos pela se embeberam, e fazem-nos da raiz duma erva que se chama aipim, a qual fervem primeiro e depois de cozida mastigam-na umas moças virgens espremem-na nuns potes grandes, e dali a três ou quatro dias o bebe. E o dia que hão de matar este cativo, pela manhã se alguma ribeira está junto da aldeia levamno a banhar nela com grandes cantares e folias tanto que chegam com ele à aldeia, atam-no pela cinta com quatro cordas cada uma pela sua parte e três, quatro indios pegados em cada ponta destas e assim o levam ao meio dum terreiro, e tiram tanto por estas cordas que não se possa bulir pela uma parte nem pela outra, as mãos deixam soltas porque folgam de o ver defender com elas. Aquele que o há de matar empina-se primeiro com penas de papagaio de muitas cores por todo o corpo: há de ser este matador o mais valente da terra, e mais honrado. Traz na mão uma espada dum pau mui duro e pesado com que costumam de matar, e chega-se ao padecente dizendo-lhe muitas cousas e ameaçando-lhe sua geração que o mesmo ha de fazer a seus parentes; e depois de o ter afrontado com muitas palavras injuriosas dá-lhe uma grande pancada na cabeça, e logo da primeira o mata e lhe fazem pedaços. Está uma índia velha com um cabaço na mão, e assim como ele cai acode muito de pressa com ele a meter-lho na cabeça pela tomar os miolos e o sangue: tudo enfim cozem e assam, e não fica dele cousa que não comam. Isto e mais por vingança e por ódio que por se fartarem.Depois que comem a carne destes contrários ficam nos ódios confirmados e sentem muito esta injuria, e por isso andam sempre a vingar-se uns contra os outros. E se a moça que dormia com o cativo fica prenha, aquela criança, que pare depois de criada, matam-na e comem-na e dizem que aquela menina ou menino era seu contrario verdadeiro por isso estimam muito comer-lhe a carne e vingar-se dele. E porque a mãe sabe o fim que hão de dar a esta criança, muitas vezes quando sente prenha mata-a dentro da barriga e faz com que morra. E acontece algumas vezes afeiçoar-se tanto a este cativo e tomar-lhe tanto amor que foge com ele pela sua terra pela o livrar da morte. E assim alguns portugueses há que desta maneira escaparão e estão hoje em dia vivos; e muitos indios que do mesmo modo se salvarão, ainda que são alguns tão brutos que não querem fugir depois de os terem presos; porque houve algum que estava já no terreno atado pela padecer e davamlhe a vida e não quis senão que o matassem, dizendo que seus parentes o não teriam por valente, e que todos correriam com ele; e daqui vem não estimarem a morte; e quando chega aquela hora não na terem em conta nem mostrarem nenhuma tristeza naquele passo.Finalmente que são estes indios mui desumanos e cruéis, não se movem a nenhuma piedade: vivem como brutos animais sem ordem nem concerto de homens, são mui desonestos e dados á sensualidade e entregam-se aos vícios como se neles não houvera rezam de humanos ainda que todavia sempre têm resguardo os machos e as fêmeas em seu ajuntamento, e mostram ter nisto alguma vergonha. Todos comem carne humana e têm-na pela melhor iguaria de quantas pode haver: não de seus amigos com quem eles têm paz se não dos contrários. Tem esta qualidade estes indios que de qualquer cousa que comam por pequena que seja hão de convidar com ela quantos estiverem presentes, só esta proximidade se acha entre eles. Comem de quantos bichos se criam na terra, outro nenhum enjeitam por peçonhento que seja, somente aranha.Têm estes indios machos por costume arrancar toda a barba e não consentem nenhum cabelo em parte alguma de seu corpo, salvo na cabeça, ainda que ao redor dela por baixo tudo arrancam.
(continua...)
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