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#Ensaios#Literatura Brasileira

À Margem da História

Por Euclides da Cunha (1909)

Todas as caudais, de feito, atravessam períodos inevitáveis, de ritmos uniformes e constantes, malgrado a variabilidade do teatro em que se operam: a princípio indecisas, errantes e frágeis, derivando ao acaso, ao viés dos pendores, como à procura de um berço em cada dobra do chão, e acumulando-se nos numerosos lagos, incoerentemente esparsos, onde repousam; depois, definidas nas primeiras linhas de drenagem mais estáveis e fundas para onde convergem, adensadas, as chuvas, formando-se o aparelho das correntes, reprofundando-se os leitos esboçados e iniciando-se com a energia tumultuária das cachoeiras o choque secular com as asperezas da terra, longo tempo; até que, extintos os empeços estruturais, estabelecido um leito e definido um traçado, o rio se constitua, com os seus afluentes fixos, um declive contínuo em curvaturas regulares, um talvegue ajustado à contextura do solo e à diferenciação morfológica que lhe reflete a um tempo os seus vários estádios - das cabeceiras onde perduram as águas selvagens do antigo regime torrencial, ao curso médio que lhe caracteriza a situação presente, e ao trecho inferior, prefigurando-lhe a decrepitude, onde ele se espraia repousadamente e constrói pela colmatagem das vasas que acarreta com velocidade insensível, a própria planície aluvial em que descansa.

É a fase de madureza. O rio está na plenitude da vida, depois da molduragem complexa de todos os relevos. Atinge-a rematando um esforço pertinaz, que é por vezes toda a história geológica da região.

Não houve um ponto em todo o percurso de centenares ou de milhares de quilômetros que ele não atacasse, um grão de areia que não removesse, balanceando as escavações a montante com os aterros a jusante - construindo-se a si mesmo - obediente à tendência universal para as situações estáveis. Adquiriu, por fim, o seu perfil longitudinal de equilíbrio, e este, ainda abrupto nas vertentes, onde a correnteza é máxima e o volume mínimo, vem continuamente amortecendo-se, em sucessivo decair de declive, até ao quase horizontalismo no nível de base, da foz, onde aqueles elementos se invertem, resultando o equilíbrio dinâmico do sistema da relação inversa entre as massas liqüidas e as velocidades que se arrastam.

Como quer que seja, desde que alcança este período, todos os elementos do seu talvegue, projetados em plano vertical, desenham-se com a forma aproximada de um ramo de desmedida parábola, de concavidade volvida para as alturas.

Assim se traduz geometricamente um fato mecânico complexo. E bem que a tendência para aquela figura seja em geral perturbada ou extinta nas camadas de resistência variável, onde as rochas desvendadas originam o antagonismo das cachoeiras, é inegável que a curva parabólica se delineia nos terrenos homogêneos como sendo a forma definitiva da seção longitudinal de todos os rios no remate de suas vicissitudes evolutivas.

O Purus é um dos melhores exemplos.

Desenhando-se-lhe o perfil em toda a extensão itinerária de 3210 quilômetros que vai da embocadura no Solimões aos últimos manadeiros do Ribeirão Pucani, na serrania deprimida e sem nome que separa as maiores bacias hidrográficas da Terra, chega-se muito aproximadamente àquele ramo de parábola.

Pelo menos nenhuma outra curva o definirá melhor.

Demonstra-o este quadro onde os vários trechos se sucedem de modo a acompanhar-se em todo o seu percurso a queda regularíssima das águas:

SECÇÕES Distâncias Diferenças Declividade Declive

itinerárias de nível geral quilométrico

(Km) (metros) (metros)

Das nascentes ao 117 Curiuja 189 1/619 1,60

Do Curiuja a 278

Curanja 60 1/4500 0,22

De curanja à foz 304 do Chandless 49 1/6500 0,16

Do Chandless à 300

foz do Iaco 39 1/7700 0,13

Do Iaco ao Acre 237 27 1/8700 0,115

Do Acre ao Pani 233 20 1/11000 0,085

Do Pani ao 740

Mucuím 58 1/12900 0,077

Do Mucuím ao 990

Solimões 15 1/66700 0,015

Aí só há um dado vacilante: o que resulta da diferença de nível nos pontos extremos do último trecho. Deduzimo-lo adotando um mínimo de 18 metros para altura da foz do Purus, sobre o nível do mar, quando ela é certamente maior e mais favorável, portanto, às nossas conclusões. Os demais elementos, devemo-los aos trabalhos de William Chandless e às nossas observações recentes.

Ora, ao mais rápido lance de vistas, e sem que se exija um desenho facílimo, verifica-se que o grande rio, atravessando um terreno homogêneo e mais ou menos impermeável, subordinado a um declive que, apesar de diminuto, é dominante na vasta planura, onde as chuvas se distribuem com regularidade incomparável - é dos que mais se adaptam às condições teóricas indicadas por Morris Davis; e no ultimar a sua evolução geológica retrata-se admiravelmente na parábola majestosa de que tratamos há pouco.

No estudar o seu regime geral vamos, portanto, com a firmeza de quem discute a equação de uma curva.

(continua...)

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