Por Adolfo Caminha (1896)
Mas pelo tom da voz, conheceu bem que alguma coisa havia no coração de Adelaide.
— Como não, se te ouvi soluçar?
— Eu?!...
— Exatamente. Queres ocultar-me algum desgosto?
E devagarinho, como para não acordar uma criança, o bacharel foi-se inclinando no leito.
— Vamos: é a primeira vez que choras em minha companhia, depois que estamos casados.
— Nada... lembrei-me da Balbina.
Da Balbina? Homessa!
Falavam muito em segredo, cochichando, ela de costas para ele. A casa estava toda no escuro. Furtado e a mulher não davam sinal de vida.
— Que tens tu com a Balbina? — tornou Evaristo. — Não é má a lembrança!
Como se a Balbina fosse tua mãe!
— Mas lembrei-me.
— Se me não dissesses, eu não acreditaria, palavra de honra!
E admirado:
— Chorar com saudades da Balbina! É curioso, é singular!
Os inquilinos do segundo andar apagaram a luz e um relógio bateu meianoite.
Involuntariamente, por causa de Adelaide, Evaristo adormeceu pensando na Balbina, a negra velha de Coqueiros, sem atinar com a significação da lágrima que vira na face da esposa.
Certo é que a amiga de D. Branca recolhera com o pensamento no batizado da Julinha. Quis desabafar, dizer tudo a Evaristo, suplicar-lhe que trouxesse um vestido novo para a festa de D. Branca, rogar-lhe, pelo amor de Deus, que fizesse um pequeno sacrifício... Mas não teve ânimo: podia parecer uma exigência, uma falta de atenção, e ela nunca abrira a boca para pedir a Evaristo um grampo, quanto mais um corte de fazenda! Não era por vaidade, nem por orgulho, nem por capricho — é que tinha obrigação de se apresentar à aristocracia em trajos de mulher educada e não com um pobre vestido fora da moda, sem elegância, mal cosido, mal ajustado ao corpo - horrível!
No outro dia Evaristo, inda na cama, interpelou-a sobre o acidente da véspera, gracejando, rindo, na melhor boa-fé, longe de adivinhar o que se passava no espírito de Adelaide. — Chorar pela Balbina — ela! Que extraordinário coração, que alma cândida!
— Chora-se até pelos animais, por um gatinho, por um cachorro, por um pássaro que a gente criou!...
E Adelaide, ocultando ingenuamente o desgosto que a pungia, lembrou ao marido o fato de ter ele chorado a morte de uma patativa, antes de vir para o Rio de Janeiro.
O bacharel não disse que não, mas afirmou que o caso era diverso e que entre a patativa e a Balbina preferia a patativa.
E a lágrima da jovem senhora caiu no esquecimento como todas as coisas deste mundo.
Ela, porém, via se aproximar o domingo do batizado, cheio de tristeza, maldizendo a nova situação em que a colocara o destino. Positivamente Evaristo não enxergava além das grosseiras necessidades da vida doméstica e não via que uma dona-de-casa no Rio de Janeiro tinha a obrigação de ser, ao mesmo tempo, uma dama elegante, uma senhora distinta, com todos os requisitos para figurar num sarau pomposo ou em qualquer parte aonde houvesse aristocracia e luxo... Como é que ela, vivendo na casa de um homem fino, de uni capitalista, vivendo entre pessoas de "tratamento" em Botafogo, ia-se apresentar aos olhos de D. Branca, aos olhos de D. Sinhá e da mulher do desembargador, aos olhos de uma gente fidalga, na sua humilde toilette de provinciana pobre? Todo o mundo havia de reparar e dizer mal. N0 entanto, com qualquer dinheirinho comprava-se um vestido sério, novo, que ao menos aparentasse... A própria D. Branca lhe dera a perceber que se obtinha, no Rio, muita coisa de alto valor por "preços baratíssimos..."
Oh, aquela festa, domingo, tirava-lhe o sono! Que belo, se caísse uma grande chuva, um aguaceiro medonho, de alagar a cidade inteira, de deixar tudo quanto fosse rua na lama! Quem dera! Ficava transferido o batizado ou ninguém ia à casa de D. Branca, e ela, então, ela, Adelaide, não tinha de se envergonhar, de baixar a cabeça a estranhos.
Mas — nem de propósito! — fazia um tempo claro, azul, luminoso, adorável, como os belos dias de primavera, sem o menor sintoma de variação barométrica, sem nuvens na limpidez cristalina das montanhas.
E a jovem esposa de Evaristo perdia-se em cogitações de toda a ordem, moralmente abatida no seu orgulho, na sua vaidade latente de mulher nova que se vê roubada nos seus direitos à partilha dos gozos. Lembrava-se, por uma natural associação de idéias, de que D. Branca lhe dissera certa vez: "O homem é egoísta e finge não compreender as necessidades da mulher, quando se trata de um vestido novo ou de uma despesa extraordinária. A mulher é obrigada a pedir, a reclamar, a dizer o que precisa, o que lhe falta." Ela pedir a Evaristo? Pedir o quê? Uma toilette para o batizado da pequena? E a roupa que trouxera do Norte, um enxoval quase completo, inda que fora da moda? Que havia de dizer? Que razões apresentar a ele, que sempre a conhecera pobre e refratária à etiqueta e ao luxo? Não, não tinha coragem, nem queria, com uma exigência descabida, molestar o grande coração de Evaristo.
Esperou, resignada, abafando impulsos d'alma.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CAMINHA, Adolfo. Tentação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16515 . Acesso em: 27 mar. 2026.