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#Crônicas#Literatura Brasileira

No País dos Ianques

Por Adolfo Caminha (1894)

Enquanto esperávamos, vivamente ansiosos, o escaler que nos devia conduzir ao cais, assestávamos o óculo para a cidade quase silenciosa àquela hora, e cujas ruas não tardaríamos a conhecer. Acendiam-se os primeiros bicos de gás. Ao longe, nalguma igreja remota, badalava um sino triste. Já não se ouvia quase o bruaá quotidiano. Numerosas embarcações cruzavam-se no rio. Ouvíamos guinchos de locomotivas e o surdo ruído de carros que ainda labutavam.

Alguns oficiais deixaram-se ficar aguardando o dia imediato para mais comodamente satisfazerem sua curiosidade de viajantes em terra estrangeira.

Era fim de inverno. Ameaçava chover. O frio continuava bastante forte ainda e os camarotes do Barroso ofereciam, nessas condições, agasalho confortável aos mais friorentos.

Na manhã seguinte, grupos de oficiais brasileiros, uns fardados, outros à paisana, percorriam Nova Orleans.

O St. Charles Hotel, um dos melhores estabelecimentos da cidade, e o Royal Hotel — primeiro em luxo e ornamentação — eram procurados avidamente.

Os jornais davam notícias circunstanciadas de nossa chegada e anunciavam festas em homenagem ao Brasil.

Uma vez instalados nos hotéis, cada um de nós em seu vasto aposento, onde nada faltava, tão diferente dos estreitos camarotes de bordo, dividimo-nos em grupos.

Quanto a mim, o meu primeiro cuidado foi munir-me de um guia da cidade, espécie de pocket-book muito cômodo, registrando indicações úteis de estabelecimentos e lugares principais.

Meu quarto ficava no segundo andar do St. Charles Hotel frente para a rua do mesmo nome — uma saleta mobiliada com a máxima sobriedade, sem luxuosas decorações, contendo apenas os móveis indispensáveis a um rapaz solteiro, e o fogão a um canto.

Depois de magnífico banho morno em bacia de mármore (perdoem-se-me estas inocentes confidências, aliás de bom gosto) seguido de um valente almoço de ostras cruas, as melhores que eu tenho provado, regadas a Sauterne, mastigando (é o termo, porque não sou lá muito admirador de charutos) mastigando um charuto, que não sei bem se era de Havana, saí a fazer meu primeiro passeio, minha promenade matinal, começando pela Canal Street, a rua mais importante de Nova Orleans, que a divide em dois grandes bairros — o francês e o espanhol.

No cruzamento das ruas de St. Charles e Canal erguia-se a estátua de Clay. É esse o ponto principal da cidade e o de maior movimento nos dias úteis.

Parei defronte do monumento e consultei meu alcorão, quero dizer meu guia manual.

"Estátua de Clay — Inaugurada solenemente no dia 12 de abril de 1860.

Joel T. Harl, de Kentucky, o artista que deu forma e proporções à estátua, assistiu ao ato. O orador oficial foi Wen H. Hent."

Maldito laconismo! Pouco adiantei com as explicações do livrinho. A estátua é de bronze, sobre pedestal de mármore, e mede, aproximadamente, quinze pés ingleses de altura.

— Continuam as estátuas! — exclamei recordando as que vira em Barbados e Jamaica. Felizmente até agora não vira a de nenhum monarca. Veio-me então à memória aquela colossal massa de bronze que se ergue no Largo do Rocio, no Rio de Janeiro, em forma de um monarca escanchado num belo cavalo.

Tive pena de não ser aquele bronze aproveitado para outra coisa mais digna

e útil.

— Que diabo! Aquilo é uma página de história pátria, refleti. — E continuei o meu tour.

A Canal Street é o centro comercial de Nova Orleans, é a Rua do Ouvidor daquela cidade, sem os grandes inconvenientes do nosso querido beco.

Larga, bastante espaçosa e comprida, oferece trânsitos especiais para a população, para trens, bondes e carruagens.

As ruas, na maior parte, são mal calçadas, principalmente para o interior da cidade.

É, sem dúvida, admirável semelhante incúria em se tratando de americanos do norte, entretanto, é uma verdade que não deve ser esquecida, para consolo de nossas municipalidades.

Na Canal se acham os melhores e mais sólidos edifícios, as mais fortes casas comerciais, os mais importantes armazéns da cidade, cafés, restaurantes, clubes, etc.

Convenci-me desde logo que os principais produtos industriais de exportação eram — açúcar e algodão, como bem presumira ao desembarcar, no cais, onde era enorme a acumulação de fardos desses dois gêneros.

De vitrina em vitrina, observando sempre, escrupulosamente, curiosamente, à cata de novidades estrangeiras, posso afirmar que nada vi, surpreendente... Ah! sim, vi umas graciosas caixeiras acudirem pressurosas e desenvoltas, com o desembaraço próprio de sua raça, aos compradores, coisa aliás muito simples, muitíssimo natural, mas não no Brasil, onde as senhoras estão eternamente proibidas de competir com o outro sexo na vida pública.

(continua...)

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