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#Romances#Literatura Brasileira

A Normalista

Por Adolfo Caminha (1893)

Depois, as duas curvadas sobre o livro, unidas, coxa a coxa, braço a braço, passaram à “sensação nova”.

Lídia apressou-se em dizer que as “mulheres do mundo” é que sabem essas coisas... Quanto a ela não conhecia outras sensações além dos beijos na boca, às escondidas, fora os abracinhos fortes e demorados, peito a peito, isto mesmo com pessoa do coração... Contou então que o seu primeiro namorado, um estudante do Liceu, um fedelho, tentara certa vez... Concluiu baixinho ao ouvido de Maria, com receio de que alguém as estivesse observando.

— E consentiste?

— Qual! Dei-lhe com um — não — na cara, e o tolo nunca mais me fez festa.

Leram ainda alguns trechos do romance, rindo, cochichando, acotovelandose, e depressa a conversação tomou rumo diverso recaindo sobre o Zuza e o Loureiro.

— A propósito, perguntou Maria curiosa, pretendes mesmo casar com o guarda-livros?

— Por que não? fez a outra erguendo-se. Muito breve tenho homem! Decididamente este não me escapa, tenho-o seguro... Vai todas as noites à nossa casa, como vês, está caidinho. A mamãe já não repara, deixa-se ficar com o dela... — Com o dela? inquiriu Maria com surpresa, muito admirada.

Apanhada em flagrante indiscrição, Lídia confessou, muito em segredo, que uma noite encontrara D. Amanda na alcova com o Batista da Feira Nova, um negociante...

Maria tomava sentido, recalcando a curiosidade que lhe espicaçava o espírito. Calou-se para não ser indiscreta, e, depois de uma pausa em que folheava maquinalmente o romance:

— Dize uma coisa, Lídia: tu amas deveras o Loureiro?

— Que pergunta, criatura? Certamente que sim. Ele então tem uma paixão doida por mim! Bebe-me com o olhar e me come de beijos. É na boca, no pescoço, na orelha, nos olhos, na nuca... Nunca vi gostar tanto de beijos! E é preciso que se note, conhecemo-nos há três meses! E o teu Zuza?

O namoro de Maria com o filho do coronel Souza Nunes estava no começo. A falar verdade, ela gostava do Zuza e casaria se ele quisesse, mas até aquela data ainda não se tinham comunicado. Conheciam-se — nada mais.

Nessas confabulações íntimas com a amiga, Maria, que começava a compreender a vida tal como ela é na sociedade, fingia-se ingênua, tolinha, expediente que usava sempre que desejava saber a opinião da Lídia sobre isto ou sobre aquilo.

A princípio evitava conversar em amores, corando a qualquer palavra mais livre ou a qualquer fato menos sério que lhe contavam as colegas de estudo. Agora, porém, ouvia tudo com interesse, procurando inteirar-se dos acontecimentos, sem acanhamento, sem pejo. Pouco a pouco foi perdendo os antigos retraimentos que trouxera da Imaculada Conceição. A convivência com as outras normalistas transformara-lhe os hábitos e as idéias. A Lídia principalmente era a sua confidente mais chegada. Quase sempre estavam juntas em casa, na Escola, nos passeios, em toda parte onde se encontravam, de braços dados, aos cochichos... Havia entre elas um comércio contínuo de carinhos, de afagos e de segredos. Gabavam-se mutuamente, tinham quase os mesmos hábitos, vestiam-se pelos mesmos moldes, como duas irmãs.

Lídia Campelo tinha então vinte anos. Era uma rapariga alta, “fausse-maigre” e bem-feita de corpo.

A razão por que ainda não se casara ninguém ignorava, toda a gente sabia — é que a filha da viúva Campelo, por via do atavismo, puxava à mãe. Não havia na cidade rapazola mais ou menos elegante, caixeiro de loja de modas que não se gabasse de a ter beijado. Tinha fama de grande namoradeira, exímia em negócios de amor. O próprio João da Mata não gostava muito daquela amizade com Maria. Mais de uma vez dissera a D. Terezinha as suas desconfianças, os seus escrúpulos, os seus receios em relação a essa intimidade da afilhada com a Lídia: — “Não consentisse a rapariga ir à casa da outra. Antes prevenir que curar.”

Havia mesmo quem ousasse afirmar que a Campelinho “já não era moça”.

Da viúva diziam-se horrores: “aquilo era casa aberta...” Tantos fossem, quantos ela recebia com risinho sem-vergonha, arregaçando os beiços. A filha seguia o mesmo caminho.

O certo, porém, é que o procedimento de D. Amanda não escandalizava a sociedade. Vivia na sua modesta casinha do Trilho, muito concentrada, sem amigas, num respeitoso isolamento, saindo à rua poucas vezes em companhia da filha, não freqüentando os bailes nem o Passeio Público e muito menos as igrejas: vivia a seu modo, comodamente, do minguado montepio de seu defunto marido.

— “Uma mulher honesta!” protestava o Loureiro. Infâmias era o que se diziam da pobre senhora, infâmias que caíam por terra, ante o indefectível procedimento de D. Amanda!

E acrescentava convicto:

— Tal mãe, tal filha!

CAPÍTULO III

O velho mostrador da sala de jantar deu meia-noite, uma hora, e Maria do Carmo ainda estava acordada, a pensar no Zuza, arquitetando frases para responder ao futuro bacharel em ciências jurídicas. Porque o estudante, como suspeitou o amanuense, achara meio de comunicar-se com a rapariga, atirando-lhe uma cartinha por baixo da mesa, quando jogavam o víspora.

(continua...)

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