Por Domingos Olímpio (1903)
Luzia ouvia-o complacente e admirada, porque Alexandre, de ordinário tão retraído e acanhado, estava, nesse dia, expansivo, e loquaz.
— Desde, então – continuou ele – não pensei mais em assentar praça, nem abandonar esta terra. Quando soube que tinha mãe e conheci a tia Zefinha, meu coração se abriu consolado, como se houvesse ressuscitado a minha defunta mãe, que Deus haja em glória.
Você hoje – Observou a velha, amparando da luz os embaciados olhos, com as mãos, trêmulas e mirradas – trouxe o uru cheio! ...
— O pobre tem seu dia...
E afastou-se para entregar as compras a Luzia, esvaziando o uru que deixara sobre o jirau do alpendre.
—Aqui tem uma libra de carne fresca e um corredor, uma quarta de toicinho, afora a ração do governo. A farinha é meia grossa., mas tem muita goma.
— Ninguém dirá, com semelhante fartura, – gracejou Luzia – que somos retirantes.
— Agora – disse-lhe Alexandre, baixando a voz, tímido e comovido – tenho uma coisa. para você; um mimo que me trouxe um camarada meu da Meruoca.
E tirou do bolso interior da jaqueta de brim pardo uma laranja, onde estava plantado um cacho de cravos sangüíneos e cheirosos.
Aqueceu-se o rosto moreno de Luzia, como inundado de um fluxo de sangue abrasado. Seus olhos negros brilharam em fugaz eflúvio de prazer fitando-se no fruto e nas rubras flores sensuais, preciosas jóias da natureza avara naquela quadra de desolação. Ela as tomou a duas mãos, meigamente; hauriu com voluptuoso anseio o perfume dos cravos; e, mal articulando as palavras, dirigiu-se à mãe:
— Aqui tem, mãezinha, um presente de Alexandre. Tome a laranja; eu fico com os cravos. Que bonitos!...
E, com gestos de casquilhice infantil, cravou-os nas ondas do cabelo. Depois, voltando-se para Alexandre, que não ousava contemplá-la, lhe disse à puridade:
— Muito agradecida. Mas ... estou zangada com você ... — Comigo! ? ...
— Sim. Teresinha contou-me a sua briga com Crapiúna.
— Não houve nada. Juro-lhe à fé de Deus! Estávamos na casa. da Comissão: eu no meu lugar fazendo a relação da gente que era demais; ele, numa reinação, intimando com as mulheres. Chegou a Quinotinha em procura da ração do pai, que desmentira um pé; e o desaforado entrou a bulir com ela até fazê-la chorar. Aquilo foi me inchando no coração; perdi a paciência, e não me pude conter. Meti os pés; cresci pra cima do cabra, e disse-lhe por aqui assim: "Se o senhor não respeita a farda para provocar uma menina inocente, há de respeitar um homem!..." Ele estremeceu; quis se endireitar pra mim, mas eu não o deixei esfriar, e acrescentei: "Uma pouca vergonha que a gente não se atreve... Tamanho homem e, de mais a mais, soldado, andar aqui todos os dias, que Deus dá, com desaforos, até com meninas donzelas! Fique sabendo que não me mete medo; não me vou queixar ao sargento Carneviva, nem ao Comandante!..." O mulherio abriu em roda; e o Crapiúna, vendo que eu estava decidido para o que desse e viesse, murchou; ficou fulo de raiva e foi saindo, lá ele, por estas palavras: "Está bom! Não quero baticum de boca comigo..." E o povaréu caiu em cima dele com dictérios que faziam uma zoada doida: — Olha o valentão! ... Meteu o rabo entre as pernas!... Cabra frouxo!... Vi que ele ficou danado, mas, nem como coisa, continuei sossegado o meu serviço. Quando o capitão José Silvestre soube do caso, disse-me que eu tinha feito muito bem.
— Que tinha você de comprar briga ...
— A gente não faz essas coisas por querer. Quando dá fé está feito... Tal qual você, quando tirou o Raulino debaixo do boi... O coração não se governa, nem pede licença. para bater...
— Mas você já estava de ponta com ele ...
— Andava, falo a minha verdade. E não era para menos ver aquele safado, com partes de ser cangaceiro e criminoso, andar intimando com Deus e o mundo.
Todo o gabola é mofino ...
— Faça-me um favor...
— Que não farei eu por você, Luzia?...
— Não se meta mais com a vida do Crapiúna ...
— Está dito!... Por essas e outras é que eu desejava trabalhar fora daqui...
— Ninguém está livre de uma traição...
— Ah! Bem se vê que ele tem cara de cascavel de tocaia...
— Evite; evite aquele homem, Alexandre... Eu lhe peço por alma de sua mãe...
— Juro!... – afirmou o moço, solene, erguendo-se e estendendo a destra, com um gesto resoluto e sincero.
— Confiem em Deus, minha gente – observou a velha, que do quarto os ouvia.
— Não há mal que sempre dure. Ele é pai de misericórdia. Há de ter pena de nós e desta terra...
— Se nós dois – disse Luzia, após alguns momentos de meditação – botássemos mãezinha numa rede e a carregássemos até a Barra do Acaracu?
— E tu a teimares, filha...
— Eu era muito homem para fazer isso – respondeu Alexandre – mas vinte léguas, léguas de beiço, muito puxadas, por uma estrada de águas difíceis e com esta soalheira!?...
Luzia não replicou.
— Mais fácil seria – continuou ele, irmos trabalhar na obra da ladeira. Já estou com uma casinha de olho: a que fica quase defronte da Cova da Onça. Daqui até lá levamos a tia Zefinha de um só fôlego...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O touro negro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7415 . Acesso em: 25 mar. 2026.