Por Aluísio Azevedo (1881)
Dos empregados da casa era o mais antigo; nunca, porém lograra ter interesse na sociedade, continuava sempre de fora e tinha por isso um ódio surdo ao patrão ódio, que o patife disfarçava por um constante sorriso de boa vontade Mas o seu maior defeito o que deveras depunha contra ele aos olhos das - raposas - do comércio; o que explicava na Praga a sua não entrada na sociedade da casa em que trabalhava havia tanto tempo era sem duvida a sua queda para o vinho. Aos domingos metia-se na tiorga e ficava de todo insuportável.
Bento atravessou silencioso a varanda cortejando com afetada humildade o cônego e Ana Rosa, e seguiu logo para o mirante, onde moravam todos os caixeiros da casa.
O segundo a passar foi Gustavo de Vila Rica; simpático e bonito mocetão de dezesseis anos, com as suas soberbas cores portuguesas, que o clima do Maranhão ainda não tinha conseguido destruir. Estava sempre de bom humor; lisonjeava-se de um apetite inquebrantável e de nunca haver ficado de cama no Brasil. Em casa todavia ganhara fama de extravagante; é que mandava fazer fatos de casimira a moda, para passear aos domingos e para ir aos bailes familiares de contribuição, e queimava charutos de dois vinténs. O grande defeito deste era uma assinatura no Gabinete Português, o que levava a boa gente do comércio a dizer “que ele era um grande biltre, um peralta, que estava sempre procurando o que ler!” O Bento Ribeiro bradava-lhe as vezes, furioso:
— Com os diabos! o patrão já lhe tem dado a entender que não gosta de caixeiros amigos de gazeta?.. Se você quer ser letrado, vá pra Coimbra, seu burro! Gustavo ouvia constantemente destas e doutras amabilidades, mas, que fazer? precisava ganhar a vida!... O outro era caixeiro mais antigo na casa... Conformava-se, sem respingar, e em certas ocasiões até satisfeito, graças ao seu bom humor.
Ao passar pela varanda foi menos brusco no seu cumprimento à filha do patrão; chegou mesmo a parar, sorrir, e dizer, inclinando a cabeça: “Minha senhora!...”
O cônego teve uma risota.
— Que mitra! julgou com os seus botões.
Em seguida, atravessou a varanda, muito apressado, com as mãos escondidas nas enormes mangas de um jaquetão, cuja gola subia ate à nuca, uma criança de uns dez anos de idade. Tinha o cabelo à escovinha; os sapatos grandemente desproporcionados; calças de zuarte dobradas na bainha; olhos espantados; gestos desconfiados, e um certo movimento rápido de esconder a cabeça nos ombros, que lhe traia o hábito de levar pescoções.
Este era em tudo mais novo que os outros - em idade, na casa, e no Brasil.
Chegara havia coisa de seis meses da sua aldeia no Porto; dizia chamar-se Manuelzinho e tinha sempre os olhos vermelhos de chorar à noite com saudades da mãe e da terra.
Por ser o mais novo na casa varria o armazém limpava as balanças e bulia os pesos de latão. Todos lhe batiam sem responsabilidade, não tinha a quem se queixar. Divertiam-se à custa dele; riam-se com repugnância das suas orelhas cheias de cera escura.
Desfeava-lhe a testa uma grande cicatriz; foi um trambolhão que levou na primeira noite em que lhe deram uma rede para dormir O pobre desterradozinho, que não sabia haver-se com semelhante engenhoca, caiu na asneira de meter primeiro os pés, e zás! lá foi por cima de uma caixa de pinho de um dos companheiros. Desde esse dia ficou conhecido em casa pela alcunha de
“Salta-chão”. Punham-lhe nomes feios e chamavam-lhe “O coisa! — Ó maroto! — O bisca!” tudo servia para o chamarem, menos o seu verdadeiro nome.
Ia atravessando a varanda, como um bicho assustado, quase a correr. O cônego gritou por ele:
— O pequeno? anda cá!
Manuelzinho voltou, confuso, coçando a nuca, muito contrariado sem levantar os olhos.
Ana Rosa teve um olhar de piedade.
— Então que e isso? disse o cônego. Pareces-me um bicho do mato! Fala direito com a gente, rapaz! Levanta essa cachimônia!
E, com a sua mão branca e fina, suspendeu-lhe pelo queixo a cabeça, que Manuelzinho insistia em ter baixa.
— Este ainda está muito peludo!... acrescentou. E perguntou-lhe depois uma porção de coisas: “Se tinha vontade de enriquecer, se não sonhava já com uma comenda: se tinha visto o pássaro guariba, se encontrara a árvore das patacas.” O pequeno mastigava respostas inarticuladas, com um sorriso aflito... — Como te chamas?
Ele não respondeu.
— Então não respondes?... Com certeza és Manuel!
O portuguesinho meneou a cabeça afirmativamente, e apertou a boca, para conter o riso que procurava uma válvula.
— Então é com a cabeça que se responde? Tu não sabes falar, mariola?
E, voltando-se para Ana Rosa:
— Isto é um sonso, minha afilhada! olhe em que estado ele traz as orelhas! Se tens a alma como tens o corpo, podes dá-la ao diabo! Tu já te confessaste aqui, maroto?
Manuelzinho não podendo já suster os beiços, abriu a boca e, com a forca de uma caldeira, soprou o riso que a tanto custo refreada.
— Olha que estas a cuspir-me, o patife! gritou o cônego. Bom, bom! vai-te! vai-te!
Repeliu-o e limpou a batina com o lenço.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O mulato. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16537 . Acesso em: 25 mar. 2026.