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#Anedotas#Literatura Brasileira

O caminho de Damasco

Por Machado de Assis (1871)

Não tardou, pois, que entre os dois se estabelecesse a intimidade antiga, intimidade que aliás fora sempre aparente e superficial. Jorge iludiu-se a respeito do pensamento da moça; julgou que o amor lhe havia renascido, e que ela dava o primeiro passo para ele. Ainda assim, não julgou prudente arriscar um passo que podia ser fatal.

— Cansemos o inimigo, refletia ele; é uma tática boa, tática de guerra.

E com este pensamento deixou correr os dias sem romper o silêncio que se impusera. Jorge notava o desvelo da moça pelo marido, o afeto que lhe manifestava, a paz que reinava entre ambos, e invejava a sorte do primo. Pode-se dizer que só então lhe começou a raiar, tenuíssimo embora, um raio de redenção. O espetáculo da felicidade alheia convidou-o a buscar a própria felicidade, mas ele reconheceu que a única possível era aquela, e aquela estava perdida para ele.

Um dia de manhã, entre o charuto e o café, fez consigo a seguinte reflexão:

— Mas que estou eu a fazer? Isto não pode continuar nesta situação; é preciso sair da inação. A rapariga já há de fazer de mim uma tristíssima idéia.

Nesse mesmo dia, estando a conversar com a prima, disparou-lhe à queima-roupa uma declaração de amor.

Clarinha levantou-se indignada, e respondeu com um silêncio de desprezo à declaração do primo; saiu da sala e deixou-o só.

Não desanimou o rapaz. Deixou de lá ir alguns dias; mas voltou com a família. Clarinha não pôde deixar de vir à sala. Jorge compreendeu que a prima não havia de referir ao médico o que se passara entre ambos.

— Bem, pensou ele, nem tudo está perdido.

Com o tempo, foi renovando a situação anterior. Um dia, escreveu uma carta à moça, e deixou-lha sobre o piano na ocasião em que ela tocava. Clarinha debalde chamou por ele.

— Há de abrir a carta, disse Jorge.

Não a abriu. Quando ele lá foi entregou-lha intacta:

— Primo, disse ela; reconheça na minha bondade uma prova do afeto de parente que lhe tenho; porque é bondade ter ouvido da sua boca palavras insultantes e de eu não ter, como devera, comunicado a meu marido. Se alguma coisa, entretanto, pode reparar o seu erro, é esquecer-se de que eu existo e não voltar à minha casa.

— Mas por que razão é assim cruel comigo? disse Jorge, procurando dar à voz um tom de lástima e desespero. Clarinha não respondeu.

— E todavia, continuou Jorge, houve um tempo...

A moça levantou a cabeça e cravou nele um olhar de espanto.

— Houve um tempo em que o seu coração palpitou por mim.

— Está dizendo uma loucura, respondeu Clarinha empalidecendo; tratei-o sempre com estima; mas... aí vem meu marido; ouse repetir diante dele a afronta que me faz. Marques vinha efetivamente no corredor e entrou logo na sala. Clarinha levantara a voz nas últimas palavras para que ele as ouvisse; preferia uma solução violenta; Marques, entretanto, não ouvira as palavras da mulher; entrou alegremente na sala, e apertou com efusão a mão de Jorge.

Jorge deixou de lá ir três dias; no quarto dia entrou pela sala com a franqueza que a intimidade lhe dava, e que Marques estabelecera como uma condição das relações entre as famílias.

Marques estava no sofá; Clarinha, sentada em um banquinho a seus pés, olhava para ele com uma expressão tão suave de afeição e respeito, que o moço curvou insensivelmente a cabeça. Mas foi então que, pela primeira vez, a serpente do ciúme lhe mordeu no coração.

— Entre, disse o médico, vendo que o primo parara à porta; não se assuste: são duas criaturas felizes, e felizes um pouco por sua causa.

Clarinha olhou para o marido.

— Admiras-te? disse Marques à mulher; foi ele quem me animou quando eu apenas ousava querer-te em silêncio. A idéia de escrever a primeira carta, à qual não deste resposta, foi do nosso amigo Jorge.

— Ah! disse a moça.

E estendendo a mão ao primo, acrescentou:

— Obrigada!

A expressão de felicidade com que ela fez este gesto e disse esta palavra, encheu de júbilo o marido; enquanto Jorge, despeitado e picado de ciúme, mal tocara os dedos da moça.

Esta, porém, ficara pensativa.

— Não sabia então nada naquele tempo, dizia ela consigo; mas quem lhe confiara o meu coração? O padre... Impossível!... E contudo ninguém mais o sabia; foi ele, foi. Com que fim?

VIII

DE MAL A PIOR

Não é bom brincar com fogo. Jorge conheceu dentro de pouco tempo esta verdade comezinha; ardeu na chama de que tão pouco caso fizera.

Mas esse fogo, bom é que se saiba, não era o que purifica; o amor de Jorge não fora aceso no céu. Era fogo da terra ou do inferno; paixão ardente, voluptuosa, insensata — mistura de capricho, sensualidade e loucura..

A situação, porém, tinha mudado. Jorge percebeu que o médico o tratava com extrema frieza.

— Ela contou-lhe tudo, disse ele consigo.

Procurou indagar a verdade, mas como? Podia arrancá-la à própria moça, mas ela não lhe dava ocasião para isso. Não o recebia, quando estava só; falava-lhe em presença do marido.

(continua...)

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