Por Machado de Assis (1869)
Como já houvesse liberdade e confiança, o doutor pediu a Celestina, no fim do almoço, que fosse tocar um pouco. A mocinha tocava deliciosamente.
Encostado ao piano, com os olhos postos na moça, e a alma embebida nas harmonias que os dedos dela desferiam do teclado, o dr. Antero esquecia-se do resto do mundo para viver só daquela criatura que dentro de pouco tempo ia ser sua mulher. Durante esse tempo o major passeava, com as mãos cruzadas sobre as costas, e gravemente pensativo.
O egoísmo do amor é implacável; diante da mulher que o seduzia e atraía, o moço nem tinha um olhar para aquele pobre velho demente que lhe dava mulher e fortuna. O velho de quando em quando parava e exclamava:
— Bravo! bravo! Assim tocarás um dia nas harpas do céu!
— Gosta de me ouvir tocar? perguntou a moça ao doutor.
— Valia a pena morrer ouvindo esta música.
No fim de um quarto de hora, o major saiu, deixando os dois noivos na sala. Era a primeira vez que ficavam a sós.
O rapaz não ousava reproduzir a cena da outra tarde; podia haver um novo grito da moça e tudo estava perdido para ele.
Mas os seus olhos, esquecidamente embebidos nos da moça, falavam melhor que todos os ósculos deste mundo. Celestina olhava para ele com essa confiança da inocência e do pudor, essa confiança de quem não suspeita o mal e só conhece o bem. O doutor compreendeu que era amado; Celestina não compreendeu, sentiu que estava presa àquele homem por alguma coisa mais forte que a palavra do pai. A música cessara.
O doutor sentou-se defronte da moça, e disse-lhe:
— Casa-se comigo por vontade?
— Eu? respondeu ela; certamente que sim; gosto do senhor; além disso, meu pai quer, e quando um anjo quer...
— Não zombe assim, disse o doutor; não é culpa...
— Zombar de quê?
— De seu pai.
— Ora essa!
— É um desgraçado.
— Não conheço anjos desgraçados, respondeu a moça com uma graça tão infantil e um ar de tanta convicção que o doutor franziu a testa com um gesto de espanto. A moça continuou:
— Bem feliz que ele é; quem me dera ser anjo como ele! é verdade que filha dele devo ser também... e, na verdade, sou também angélica...
O doutor ficou pálido, e levantou-se com tanta precipitação, que Celestina não pôde reprimir um gesto de susto.
— Ah! que tem?
— Nada, disse o rapaz passando a mão pela testa; foi uma vertigem. Nesse momento entrou o major. Antes que tivesse tempo de perguntar nada, a filha correu a ele e disse que o doutor se achava incomodado.
O moço declarou achar-se melhor; mas pai e filha foram de opinião que devia ir descansar um pouco. O doutor obedeceu.
Quando chegou ao quarto atirou-se à cama e esteve alguns minutos sem movimento, mergulhado em reflexões. As palavras incoerentes da moça diziam-lhe que não havia naquela casa só um doido; tanta graça e beleza nada valiam; a infeliz estava nas condições do pai.
— Coitada! também é louca! Mas por que singular acordo de circunstâncias ambos eles estão de acordo nesta monomania celestial?
O doutor fazia esta e mil outras perguntas a si mesmo, sem achar resposta plausível. O que havia de certo é que o edifício da sua ventura acabava de esboroar-se. Só lhe restava um recurso; aproveitar a licença concedida pelo velho e sair daquela casa, que parecia encerrar uma história sombria.
Com efeito, ao jantar o dr. Antero declarou ao major que tinha intenção de ir à cidade ver uns papéis, no dia seguinte de manhã; voltaria de tarde.
No dia seguinte, logo depois do almoço, preparou-se o rapaz para ir embora, não sem ter prometido a Celestina que voltaria o mais cedo que pudesse. A moça pedia-lhe com alma; ele hesitou por um momento; mas que fazer? era melhor fugir dali quanto antes. Estava já pronto, quando sentiu bater-lhe à porta muito ao de leve; foi abrir; era a criada de Celestina.
IX
Esta criada, que se chamava Antônia, representava ter quarenta anos de idade. Não era feia nem bonita; tinha umas feições comuns e irregulares. Mas bastava olhá-la para ver nela o tipo da bondade e da dedicação.
Antônia entrou precipitadamente, e ajoelhou-se aos pés do doutor.
— Não vá! sr. doutor! não vá!
— Levante-se, Antônia, disse o rapaz.
Antônia levantou-se e repetiu as mesmas palavras.
— Que eu não vá? perguntou o doutor; mas por quê?
— Salve aquela menina!
— Pois quê! ela está em perigo?
— Não; mas é preciso salvá-la. Pensa que eu não adivinhei o seu pensamento? O senhor quer ir-se embora de uma vez.
— Não; prometo...
— Quer, e eu lhe peço que não vá... pelo menos até amanhã.
— Mas não me explicará...
— Agora, é impossível; pode vir gente; mas esta noite; olhe, à meia-noite, quando ela já estiver dormindo, eu virei aqui e lhe explicarei tudo. Mas promete que não vai? O rapaz respondeu maquinalmente.
— Prometo.
Antônia saiu precipitadamente.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. O anjo Rafael. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1869.