Por Aluísio Azevedo (1887)
Ah! Magdá sabia claramente que era preciso tomar uma resolução! bem parecia que o pai, coitado, já estava fazendo das fraquezas forças e morto por vê-la encaminhada; além disso, o Dr. Lobão, com aquela brutalidade que todos lhe perdoavam, como se ele fosse um privilégio, por mais de uma vez lhe dissera: "É preciso não passar dos vinte anos que depois quem tem de agüentar com as maçadas sou eu! compreende?"
Sim, ela compreendia, compreendia perfeitamente. — Mas por ventura teria culpa de estar solteira ainda? Que havia de fazer, se entre toda aquela gente, que o pai lhe metia pelos olhos, nenhum só homem lhe inspirava bastante confiança? — Não era uma questão de amor, era uma questão de não fazer asneira! Lá ilusões a esse respeito, isso não tinha; sabia de antemão que não encontraria nenhum amante extremoso e apaixonado; não sonhava nenhum herói de romance. — A época dessas tolices já lá se havia ido para sempre; sabia muito bem que o casamento naquelas condições, era uma questão de interesse de parte a parte, interesses positivos, nos quais o sentimento não tinha que intervir; sabia que no círculo hipócrita das suas relações todos os maridos eram mais ou menos ruins; que não havia um perfeitamente bom. — De acordo! mas queria dos males o menor!
Casava-se, pois não! estava disposta a isso, e até compreendia e sentia melhor que ninguém o quanto precisava, por conveniência mesmo da sua própria saúde, arrancar-se daquele estado de solteira que já se ia prolongando por demais. Estava disposta a casar, que dúvida! Mas também não queria fazer alguma irreparável doidice, que tivesse de amargar em todo o resto da sua vida... Nem se julgava nenhuma criança, para não saber o que lhe convinha e o que não lhe convinha! Enfim, a sua intenção era, como se diz em gíria de boa sociedade: "Casar bem".
Sim! uma vez que o casamento era arranjado daquele modo; uma vez que tinha de escolher friamente um homem, a quem se havia de entregar por convenção, queria ao menos escolher um dos menos difíceis de aturar; um homem de gênio suportável, com um pouco de mocidade e uma fortuna decente.
Bastava-lhe isto!
Nada, porém, de se decidir, e o tempo a correr! Os vinte anos vieram encontrá-la sem noivo escolhido; o pai principiava a inquietar-se, e o Dr. Lobão a dizer-lhe: "Olhe lá, meu amigo, é bom não facilitar! É bom não facilitar!...
"Que injustiça! o pobre Conselheiro não facilitava; não fazia mesmo outra coisa senão andar por aí arrebanhando para a sua casa todo homem que lhe parecia apto para casar com a filha; e tanto, que a roda dos seus amigos crescia largamente, e as suas festas amiudavam-se, e suas despesas reproduziam-se.
Uma notícia má veio, porém, enlutar a casa e fechar-lhe as portas por algum tempo — a morte de Fernando. O rapaz nas últimas cartas já se queixava da saúde; dizia que andava à procura de ares mais convenientes aos seus brônquios. Fugira da Alemanha para a França, de França para a Itália, desta para a Espanha, e fora morrer, afinal, em Portugal.
O Conselheiro ficou fulminado com a notícia, aparentemente mais sentido do quem a própria Magdá. Esta recebeu-a como se já a esperasse: saltaram-lhe as lágrimas dos olhos, mas não teve um grito, uma exclamação, um gemido; apenas ficou muito apreensiva, aterrada, com medo do escuro e da solidão. Durante noites seguidas foi perseguida por terríveis pesadelos, nos quais o morto representava sempre o principal papel, mas, durante o dia, não tinha uma palavra com referência a ele.
Não obstante, duas semanas depois, passeando na chácara, viu pular diante de si um sapo; e foi o bastante para que explodisse a reação dos nervos. Estremeceu com um grande abalo, soltou um grito agudo e sentiu logo na boca do estômago uma pressão violenta. Era a primeira vez que lhe dava isto; acudiram-na e carregaram-na para o quarto. Ela, porém, não sossegava; o peso do estômago como que se enovelava e subia-lhe por dentro até a garganta, sufocando-a num desabrido estrangulante. Esteve assim um pouco; afinal perdeu os sentidos e começou a espolinhar-se na cama, em convulsões que duraram quase uma hora.
Tornou a si nos braços das amigas da vizinhança, atraídas ali pelos formidáveis gritos que ela soltava. O pai e o Dr. Lobão também estavam a seu lado; o doutor, muito expedito, com os óculos na ponta do nariz, suando, rabujava enquanto a socorria:
— Que dizia eu? Ora aí tem! É bem feito! Acho ainda pouco! Quem corre por seu gosto não cansa! Se fizessem o que recomendei, nada disso sucederia! Agora o médico que a ature!...
E, voltando-se para uma das vizinhas que, por ficar muito perto dele, lhe estorvava às vezes o movimento do braço, exclamou com arremesso: — Saia daí! Também não sei o que tem a cheirar cá! Melhor seria que estivessem em casa cuidando das obrigações!
— Cruzes! disse a moça, fugindo do quarto. — Que bruto! Deus te livre!
Por esse tempo Magdá era acometida por uma explosão de soluços, e chorava copiosamente, o peito muito oprimido.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O homem. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7408 . Acesso em: 18 mar. 2026.