Por Aluísio Azevedo (1895)
- Uma flauta! balbuciou André no auge da comoção. - Uma flauta!
- Vê se está a teu gosto.
Coruja ergueu-se da cadeira, tomou nas mão instrumento, e experimentou-lhe o sopro, e ficou tão satisfeito com o presente do amigo que não encontrou uma só palavra para lho agradecer.
- Que fazias tu? perguntou-lhe Teobaldo.
Mas correu logo os olhos pelo trabalho que estava sobre a mesa e acrescentou: - Ah! É ainda o tal catálogo!
- É exato.
- Gabo-te a paciência! Não seria eu!
E, tomando a bocejar uma das folhas escritas o outro tinha defronte de si.
- Isto vem a ser?...
- Isto é a numeração das obras, respondeu André.
- Ah! Vai numerá-las...
- Vou. Para facilitar.
- E isto aqui? interrogou Teobaldo, tomando outra folha de papel. - Isto é uma lista dos títulos das obras.
- E isto?
- O nome dos autores.
- Depois reúnes tudo?
- Reuno.
- Melhor seria fazer tudo de uma mais prático. Assim, não é tão cedo que te verás livre dessa maçada!
- Há de ficar pronto.
Mas estava escrito que o célebre catálogo não teria de ficar acabado nas férias deste ano.
Urna circunstância extraordinária veio alterar completamente os planos do autor.
Logo ao entrar das férias, o pai de Teobaldo apresentou-se no colégio para ir em pessoa buscar o filho.
Entrou desembaraçadamente a gritar pelo rapaz desde a porta da rua.
- Ah! É V. Exa. exclamou o diretor com espalhafato, logo que o viu. E correu a tornar-lhe o chapéu e a bengala.
- Bela surpresa! Bela surpresa, Sr. Barão! Tenha a bondade de entrar para o escritório!
- Vim buscar o rapaz. Como vai ele?
- Muito bem, muito bem.! Vou chamá-lo no mesmo instante. Tenha a bondade V. Exa. de esperar alguns segundos.
E, como se a solicitude lhe dera sebo às canelas, o Dr. Mosquito desapareceu mais ligeiro que um rato.
O Sr. Barão do Palmar, Emílio Henrique de Albuquerque, era ainda nos seus cinqüenta e tantos anos uma bela figura de homem.
A vida acidentada e revessa, a que o condenara sempre o seu espírito irrequieto e turbulento não conseguira alterar-lhe em nada o bom humor e as gentilezas cavalheirescas de sua alma romântica e afidalgada
Como brasileiro, ele representava um produto legítimo da época em que veio ao mundo. Nascera em Minas, quando ferviam já os prelúdios da independência, e seu pai, um fidalgo português dos que emigraram para o Brasil em companhia do Príncipe Regente e de cujas mãos se passara depois para o serviço de D. Pedro I, dera-lhe por mãe uma formosa cabocla paraense, com quem se havia casado e de quem não tivera outro filho senão esse.
De tais elementos, tão antagônicos, formou-se-lhe aquele, caráter híbrido e singular, aristocrata e rude a um tempo, porque nas veias de Emílio de Albuquerque tanto corria o refinado sangue da nobreza, como o sangue bárbaro dos tapuias.
Crescera entre os sobressaltos políticos do começo do século, ouvindo roncar em torno do berço a tempestade revolucionaria, que havia de mais tarde lhe arrebatar a família, os amigos e as primeiras e mais belas ilusões políticas.
Desde muito cedo destinado às armas, matriculou-se na Escola Militar, fez parte da famosa guarda de honra do primeiro Imperador, e, com a proteção deste e mais a natural vivacidade do seu temperamento mestiço, chegou rapidamente ao posto de capitão. Teve, porém, de interromper os estudos para fazer a lamentável guerra de Cisplatina, donde voltou seis meses depois, sem nenhuma dar ilusões com que partira, nem encontrar os pais e amigos, que sucumbiram na sua ausência, e nem mais sentir palpitarlhe no coração o primitivo entusiasmo pelos defensores legais da integridade nacional. Orfanado, pois, ao vinte e dois anos, senhor de uma herança como bem poucos de tal procedência apanhavam nessas épocas, pediu baixa do Exército e levantou o vôo para a Europa, fazendo-se acompanhar por um criado que fora de seu pai, o Caetano, aquele mesmo criado que, trinta e tantos anos depois, apareceu no colégio do Dr. Mosquito vestido de libré cor de rapé, com botões amarelos.
Ah! Se esse velho quisesse contar as estroinices que fez o querido amo pelas paragens européias que percorreu! se quisesse dizer quantas vezes não expôs a pele para livrá-lo em situações bem críticas! quantas vezes por causa de alguma aventura amorosa ou por alguma simples questão de rua ou de café não voltaram os dois, amo e criado, para o hotel com o corpo moído de pauladas e os punhos cansados de esbordoar!
Durante essas viagens levaram eles a vida mais aventurosa e extravagante que é possível imaginar; só voltaram para o Brasil no período da regência, depois da abdicação do Sr. D. Pedro I, por quem o rapaz não morria de amores.
Tornando à província, Emílio, talvez na intenção de refazer os seus bens já minguados, casou-se, a despeito da oposição do Caetano, com uma rapariga de Malabar, filha natural de um negociante português que comerciava diretamente com a Índia.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O coruja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7406 . Acesso em: 18 mar. 2026.