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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

O Almada

Por Machado de Assis (1858)

Derrubá-lo é preciso. O grande nome,

O poder que me dá este meu cargo,

E do prelado a nobre confiança,

Exigem que ao trabalho hoje me entregue

Algum tempo sequer. Nem tu receies

Que eu desperdice as minhas bentas horas

De descanso. Uma só que nisto empenhe,

Tão fecunda há de ser, tão esticada,

Que dará quatro ou cinco em muitas noites,

E tudo se repõe no estado antigo.”

III

Insta a Preguiça; afrouxa, afrouxa quase

O vigário; na mente se lhe pinta

O alto, fofo colchão de fina pluma,

Em que as noites repousa, em que na sesta

A sua reverenda inércia espraia.

Os olhos com fastio aos livros lança;

A descair os membros lhe começam

De languidez; mas a cruel idéia

De ver perdida a posição brilhante

Que na igreja lhe cabe, o brio esperta

Ao grão doutor e lhe dissipa o sono.

Em vão tenta a Preguiça convidá-lo

Com palavras de mel; sacode o corpo,

Encolhe os ombros, os ouvidos cerra,

E ríspido a despede o reverendo.

IV

Apenas se achou só na grande sala,

Com o lenço o papel sacode e a mesa,

E num velho tinteiro mergulhando

A branca pena de um comido pato,

Lança as primeiras regras. Dez autores

Largamente consulta; um trecho saca

Dez tomos diversos e massudos

Com que as velas enfune ao seco estilo.

A cada rasgo da tardia pena,

Que a suada expressão goteja a custo,

A cabeça levanta o reverendo,

Todo o escrito relê com grande pausa,

As paredes consulta. e novamente

Ao trabalho com ânimo arremete.

Enfim, ao cabo de uma hora longa.

A tarefa acabou. Contente salta

Da cadeira, repete a torva prosa,

E vaidoso de si, como dos versos

Que primeiro compôs infantil vate,

As mãos esfrega, os olhos arregala,

Pela sala passeia, e de memória

Algum trecho repete, alguma frase

Que mais arrebicada lhe saíra.

O espanto do ouvidor, o entusiasmo

Do prelado, os pomposos elogios

Da cidade, na mente lhe descreve

Com destra mão e delicadas tintas

A fantasia ... Mas aqui começam

De lhe pesar as pálpebras; a custo,

Trôpego e bocejando deixa a sala,

Entra na alcova, a trancos se despede

Das roupas, e na cama continua

O delicioso sonho interrompido.

V

Lepidamente abrindo o alvo regaço,

E o chão juncando de purpúreas flores,

Do pastor fluminense à casa torna

A travessa alegria, e ao seu aspecto,

Pálida mágoa, lutuosa foges.

Sobre os moles colchões inda estendido,

O lôbrego papel ouve o prelado,

Que o douto Vilalobos lhe recita,

E com exclamações e com palmadas,

Lhe aplaude a erudição e o duro estilo,

E a infalível vitória lhe agradece.

VI

Um a um, vêm chegando os reverendos,

E a todos, um por um, de cabo a cabo,

A intimação lhes lê, que eles escutam,

Com muitos e rasgados elogios,

Maiormente os da boca do Veloso,

Que mal sofre ao rival este triunfo.

Mas como o fruto que seduz no rosto

E o verme esconde no corrupto seio,

Assim o pregador das grandes festas

Alegrar-se parece, enquanto a inveja

O punge, e mil idéias lhe insinua

De adular o prelado, e ao Vilalobos

Arrebatar os louros, que lhe impedem,

- O sono não, - mas o sossego d’alma.

VII

Ao ver-se tão cercado de zumbaias,

Em si mesmo não cabe de contente

O profundo doutor, em cujos lábios

A vaidade sorri, velada a meio

Dessas vãs cortesias de aparato,

E desse “Não, senhor! Oh! não! Oh! nunca!

Nunca esta prosa minha ambicionara

A tão alto subir como pretende

A bondade de Vossa Senhoria.

É um trabalhozinho feito à pressa

Só por obedecer às ordens suas”.

E outras tais mogigangas de modéstia,

De humildade, que são naqueles trances

Usual expressão.

VIII

Mas tu, Cardoso,

Êmulo foste do feliz vigário,

Quando para intimar o austero Mustre

Te ofereceste ousado. Havia fama,

Temerário escrivão, que a natureza

Para servo do altar te não fizera,

Que nasceras com balda de meirinho

Ou capitão-do-mato.[17]

–“Eu mesmo quero

(Diz o forte escrivão) dar-lhe este golpe,

E certo estou de que a fatal devassa

Nas mãos virá do arrependido Mustre

A vossos pés cair”. Cheio de mal gosto,

Almada esta façanha lhe elogia,

E copiada a intimação famosa,

Rubricada e selada, prontamente

A recebe o Cardoso. Dous abraços

O prelado lhe dá, e mais a bênção

Que o livrará das tentações do diabo.

Dá-lhe inda mais. De urna gaveta saca

Um tremendo chapéu pomposo e feio,

Que lhe mandara um monge italiano,

E que ele a sete chaves escondia.

“Tomai (lhe diz) este chapéu que há anos

De alheias vistas guardo; ele só vale

Mais que vinte orações; tomai-o, e vosso".

IX

Era um chapéu de ti: três enormes bicos.

Respeitoso o escrivão lhe imprime um beijo

E na cabeça o põe, e assim de casa

Para intimar o Mustre se encaminha.

Vaidoso e cheio da missão que leva,

As ruas atravessa da cidade,

O pavor antevendo e os calafrios

Do mesquinho ouvidor, quando o mandado

De seus lábios ouvir, e na cabeça

Sentir descarregar o grande golpe.

A notícia entretanto ia correndo

Pela cidade toda, e a cada passo

Nas esquinas, nas lojas se detinha

A gente curiosa e os olhos punha

No famoso escrivão; mas, sobranceiro,

Impávido calcando a dura terra,

Sem fazer caso do miúdo povo,

No caminho prossegue. Já chegava

Aos edifícios últimos, e a planta

O despovoado chão pisava afouto,

Quando em frente lhe surge, lacrimosa,

Brígida, mocetona de mão cheia,

Caseira sem rival, mescla robusta

De áfrico sangue e sangue d’alva Europa.

X

(continua...)

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