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#Contos#Literatura Brasileira

Mattos, Malta ou Matta?

Por Aluísio Azevedo (1884)

- Certamente, e eu seria um asno se não aproveitasse a boa vontade com que o pobre rapaz morreu! Vou trocar o meu lugar com o dele. Eu era defunto e tinha uma mortalha: ele um vivo e tinha roupa. relógio e talvez dinheiro. Trocamos. Ele fica sobre a minha mesa de pedra e eu vou para a mesa do restaurant que o esperava. Já vê que não sou tão caipora, principalmente se atendermos para o fato de que o meu protetor tem a minha estatura e que o seu chapéu me serve.

Dizendo isto, o ressuscitado colocara na cabeça o chapéu do outro, que apanhara do chão e, agora, de cartola e amortalhado como estava. tinha alguma cousa de cômico e de horrível.

A graça é que eu, desde que me pus a confronta-los, achava os igualmente parecidos com a fotografia que me dera a Jeannite.

- Bem! tratemos de trocar as fatiotas - acrescentou o ressuscitado, despindo o outro.

E, daí a uma hora, o novo Castro Malta, competentemente amortalhado, ficava estendido sobre a mesa da capela; ao passo que o outro saia do cemitério pelo meu braço e diziame em ar de graça, consultando as algibeira:

- Relógio, corrente de ouro, cinqüenta e tantos mil-réis em dinheiro e livre, livre como as asas. Mas de tudo isso o que eu herdei de melhor daquele santo morto, foi este objeto! E mostrou me um cartão que tirara da carteira.

- Um cartão de visita?

- Sim. De hoje em diante já não existo para os meus credores e para os meus inimigos. Morri! Este que aqui vai pelo seu braço, chama se...

E lendo o cartão:

- João Alves Castro Malta.

E acrescentou, fazendo parar um carro que passava:

- Durante a viagem lhe contarei tudo.

Sou de V.Sª.

Atº. Crº. e ven.or

Novas Revelações

Sétima Carta

Sr. Redator:

Vou tentar reproduzir aqui, com a maior fidelidade que me for possível, o significativo diálogo que se travou entre mim e o extraordinário ressuscitado, depois que deixamos o cemitério e nos metemos dentro do carro.

- Em primeiro lugar — disse-me ele — vou contar-lhe com toda a franqueza a minha história, sem o que não poderia o senhor capacitar-se de que não sou precisamente um doudo: Nasci na cidade de Campinas, e, segundo me consta, meu pai, a quem não tive o gosto de conhecer, era um sujeito honrado e de bons costumes, o que aliás não lhe impediu de sucumbir a uma indigestão de lagostas, justamente quando minha mãe estava em vésperas de dar-me ao mundo. A morte de meu pobre pai precipitou um pouco este vulgaríssimo fenômeno fisiológico, obrigando minha desgraçada mãe a pagar com a própria existência o meu direito de fazer parte dessa cousa que se chama humanidade e a um lugar neste mesquinho inferno que se chama o mundo. Por conseguinte, apenas com um dia de vida já recebia eu os primeiros couces da fortuna, achando-me completamente desamparado e sem ter ao menos uma teta que me garantisse a subsistência. Foi então que um pobre cocheiro se compadeceu de mim e carregou-me para casa. O cocheiro era casado e sua mulher entregava-se ao modesto e honrado mister de criar bodes e cabras. Foi uma cabra a única ama-de-leite que eu conheci, e tal amor tomei desde então a esse benfazejo animal, que ainda hoje, quando por acaso o encontro na rua ou em qualquer parte, a vontade que tenho é de ferrar-lhe um abraço.

- Nada mais justo... — considerei eu.

- Mas — continuou o narrador — a desdita não quis que o meu protetor levasse ao cabo a obra de caridade que me estava reservada e fê-lo sucumbir, pouco depois da mulher e quando eu ainda não tinha mais do que cinco anos de idade.

“Passei então para as mãos de um tipo, o melhor dos que tenho conhecido no mundo, e que foi ao mesmo tempo o meu salvador e a minha perdição.” - A sua perdição?

“ — Sim. Eu me explico: Pedro Melindroso, o homem que substituiu ao meu lado o cocheiro, era um filósofo, cujas teorias abstratas e metafísicas entraram muito profundamente pelo vasto terreno da loucura.

“ Foi justamente por isso que ele me recolheu. Um dia viu-me chorando abraçado à cabra que me amamentara e escondeu-se para me espreitar.

“ Eu, que me supunha a sós com a minha doce companheira de infância, exclamava deveras comovido à orelha do bicho: “Bebé! Bebé! (era este o tratamento que eu lhe dava) minha querida Bebé, não imaginas quanto te quero bem e quanto gosto mais de ti do que de todo o mundo!”

“ O filósofo, saindo do seu esconderijo, veio ter comigo e perguntou-me se era verdade o que ouvira de minha boca.

“ Eu, meio perturbado com a presença dele, respondi que sim e que não trocaria a minha querida Bebé por ninguém.

“ - Quem é seu pai? — perguntou-me ele depois. “ - Não cheguei a conhecê-lo — respondi “ - E sua mãe?

“ - Morreu quando me pôs no mundo.

“ - E com quem você vive agora?

“ - Com ninguém.

“ - Você não tem casa?

“ - Não.

“ - Onde dorme?

“ - Quase sempre no curral do Zé Coxo.

“ - Onde come?

“ - Onde encontro o que comer. E quando não encontro, peço.

“ - E quando não lhe dão?

“ - Roubo.

“ - E não se vexa de roubar?

“ - Não, porque não faço por maldade semelhante cousa, mas sim por não haver outro remédio.

“ - E por que você não se mata?

“ - Porque não quero.

(continua...)

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