Por Aluísio Azevedo (1882)
Júlia, nestas condições, soube que Gregório ia casar. Seu ímpeto instantâneo foi correr ao primeiro homem e oferecer-se para ser amada aos olhos do ingrato que assim tão cruelmente a apunhalava. Esqueceu-se de tudo, posição, interesses, tranqüilidade, para só pensar nessa vingança absurda, que lhe parecia tão necessária à sua cólera como o vinho a um ébrio.
E cega, desvairada, às tontas, queria deixar bem patente que a traição de Gregório não a atormentava, e que ela se sentia, como nunca, feliz e indiferente.
— Sofrer?... mas por quê?! monologava a infeliz, a rir forçadamente, com a voz entalada na garganta. Acaso não previa eu tudo isto?... não e ele moço, livre e cheio de esperanças? A mim que importa pois seu casamento? Que se case quantas vezes quiser! Que faça o que entender!
Mas os soluços rebentavam com explosão, e a mísera deixava-se cair sobre o divã, a chorar apaixonadamente, sacudida por um formidável desespero.
Depois, sem que ela as chamasse, vinham de enfiada as recordações dolorosas do seu amor. Os episódios felizes de outrora lhe enchiam agora o coração com uma argamassa de desgostos. Via Gregório em todas as situações venturosas de outro tempo; sentia-lhe perfeitamente o cheiro dos cabelos, a luz dos olhos e a doçura embriagadora dos seus beijos. E perseguida, aguilhoada por estas idéias, queria fugir de si mesma, escapar à própria memória, esconder-se das reminiscências que lhe rugiam de dentro; mas todo o seu passado, em alvoroço, se enroscava por ela, a chupá-la para si, como um enorme polvo. Definitivamente era indispensável uma vingança! Era preciso inventar um cúmplice, um instrumento, uma arma, com que pudesse fulminar o infame!
Pobre visionária! Não calculava que o verdadeiro amor só sabe perdoar e não conhece os segredos do ódio e da maldade. Não sabia que o lábio que conserva o calor dos beijos que o aqueceram, não se pode converter rapidamente em lâmina fria de vingança. E tanto assim, que foi bastante lhe constar um mês depois desse desespero, o crime de que era suspeito o objeto do seu amor, para esquecer-se dos planos de vingança e só se lembrar de correr a prevenir Gregório e afastá-lo de qualquer perigo.
Foi nessa resolução que a vimos partir rapidamente da polícia para a casa de Clorinda. Sabia a viúva que era naquela tarde o casamento; Gregório estaria lá com certeza... Que lhe importava o desespero de ver a mulher que a preterira? que importava o espetáculo de uma felicidade que a humilhava e enlouquecia de dor? que lhe importava tudo isso, contanto que o seu Gregório não sofresse coisa alguma, contanto que ele fosse prevenido a tempo do grave perigo que o ameaçava?
O carro de Júlia parou à porta da noiva. A viúva conchegou para o colo as pontas do seu mantelete de seda preta, e subiu resolutamente as escadas da rival.
— A noiva?! perguntou ela à primeira pessoa que encontrou. Não se queria entender com Gregório, por um natural impulso de ressentimento.
A noiva estava no quarto e não podia receber ninguém.
— Mas é também para o interesse dela que lhe desejo falar. Trata-se de Gregório!
— Como?! Do noivo?!
— Sim.
— Oh! nesse caso, entre!
E a pessoa gritou logo para os que estavam na sala de jantar:
— Temos notícias do noivo!
Júlia foi conduzida para a alcova de Clorinda, enquanto os outros curtiam de fora a mais impaciente e viva curiosidade. Ao encarar a noiva do amante, sentiu a viúva percorrer-lhe no corpo um vivo estremecimento de ódio, mas a idéia do perigo em que estava Gregório, acalmou-lhe o sangue.
Clorinda, entretanto, a quem disseram que a recém-chegada trazia notícias de seu noivo, precipitou-se ao encontro de Júlia, exclamando aflita:
— Que sucedeu com Gregório?! Diga-me por piedade!
— Como?! Pois já sabe que lhe ia suceder alguma coisa?!...
— Mas o que é?! Diga! diga depressa!
— Ele então não está cá?!...
— Não! Ainda não apareceu!
— Não apareceu?! exclamou a viúva, empalidecendo. Oh! Nada consegui evitar! Foi preso!
Quem?! interrogou a noiva. Quem? Gregório?! Gregório preso! mas por quê, senhora?! Explique-se! explique-se, por amor de Deus!
E Clorinda, vendo o abatimento em que caía a outra, sacudiu-a com força:
— Então, senhora?! Que há?! Diga!
Mas a viúva continuava na sua prostração e repetia como num delírio:
— Preso! Nada consegui!
— Ó senhora! explique-se por uma vez! Não vê o estado em que me acho? Não vê que tenho olhos cheios d’água? não vê como tremo? não vê como sofro?!
— E que me importa a mim o seu sofrimento?! também eu sofro e já padeci bastante! Sua mágoa tem saída; a minha não. Se Gregório voltar, é para os seus braços e não para os meus!... Que vale por conseguinte a sua tristeza de criança, comparada à dor enorme que neste momento me dilacera o coração?!
— Eu não a compreendo! observou a noiva.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.