Por Aluísio Azevedo (1884)
Ela, porém, tornava-se mais exigente de dia para dia. O marido teve que pôr abaixo a sua barbinha à portuguesa e deixar crescer o bigode; teve que abandonar as suas queridas calças de brim mineiro, de que tanto gostava, teve que suportar cosméticos e brilhantinas, contra os quais protestava o seu delicado olfato de homem duro. O que, porém, mais lhe custou, o que atingiu as proporções de um verdadeiro sacrifício, foi ter de submeter-se a "usar pastinhas". Ele! o Borges! de pastinhas! — que não diriam os seus velhos e respeitáveis amigos do comércio?!...
Que não suporia o Barroso?!. Mas enfim... usou.
— Ah! o amor! o amor! gemia ele, quando no seu quarto entregava a cabeça aos ferros quentes do cabeleireiro. — Deus me dê paciência!
A dois passes, o criado observava-o em silêncio, com um ar de compaixão.
— A que bonito estado o reduziu aquela mulherzinha dos demônios. Quando eu digo as coisas!...
E de uma feita, vendo os esforços que o amo fazia por disfarçar o abdome com um espartilho, ficou tão indignado, que saiu do quarto, para não cometer alguma imprudência. Em baixo foi desabafar a sua indignação com o copeiro e o cozinheiro.
— Eu é que já não estou disposto, disse este, a suportar as impertinências da patroa! Tenho servido em casas muito mais ricas do que esta, e nunca sofri o que me fazem aqui. Todo o dia são reclamações e mais reclamações! Não há meio de agradar! Se faço assim, é mau; se não faço, é pior! E nada presta! e "tudo é uma porcaria!" Hoje é com a sopa, amanhã com o assado! Vá para o diabo um tal sistema!
— Além disso, acudiu o copeiro — não há horas certas para a comida! Uma vez querem o almoço às sete da manhã e já do dia seguinte só o reclamam às duas da tarde. O jantar, tanto pode ser às quatro, como às seis, como às oito e até como às onze da noite! E eu que me amole! Não! Assim também não se atura!
— E comigo, então?! perguntou a criada, que se havia metido já na conversa — comigo é que são elas! — Falte água no jarro, falte qualquer coisa, não corra eu ao primeiro chamado, para ver como fica a bicha! Outro dia, porque quebrei o braço de uma pestezinha de figura que ela tem sobre a cômoda, deu-me um tal pescoção que me fez cair de encontro à quina da secretária! Ainda estou com este quadril todo roxo! Bruta!
O jardineiro, que também se achegara do grupo, contou que, não havia uma semana, a senhora varrera com um pontapé os vasos da escada do jardim, só porque uma das begônias parecia mal tratada. — É uma mulherzinha de gênio!...
— E agora vão ver! tornou a criada. — Para ralhar e atirar com as coisas na gente, é isto que se sabe; entretanto, a casa pode cair aos pedaços que ela não se incomoda. Se o patrão que é aquele mesmo, não der as providências ninguém as dará!
— Não! Que ela tem pancada na bola, não resta dúvida!
E os comentários da criadagem foram-se desenvolvendo de tal forma, que chegaram aos ouvidos de Filomena.
— Tudo na rua! Já! disse esta, sem se alterar. — Não quero semelhante súcia nem mais um instante em casa! acrescentou ao marido. — Despede-os, e anuncia, quanto antes, que precisamos de nova gente! Preferem-se estrangeiros!
O Borges tratou de executar as ordens da mulher.
— Então, o senhor põe-me fora?... perguntou-lhe o criado, quando recebeu a intimação para sair.
— É verdade, Manuel, sustentou o Borges — tem paciência, mas não há outro remédio... Reconheço que és um bom rapaz, mas não podes continuar ao meu serviço. Vai-te e acredita que não é por meu gosto.
— Mas por que sou despedido? Há seis anos que estou ao serviço de vosmecê, e creio que até agora ainda não dei motivos para ser posto na rua como um cachorro.
— Tens razão! tens razão, mas, já te disse, filho! Não há outro remédio!...
— É que é duro ficar a gente assim desempregado de um momento para o outro, quando aliás...
— Eu recomendar-te-ei aos meus amigos. Não ficarás desamparado. E se te vires em algum aperto, procura-me...
— É duro! insistia Manuel. — É muito duro! Ah! mas vosmecê me despede porque lhe foram encher os ouvidos a meu respeito!
— Homem, rapaz, é melhor que te vás logo e não me estejas a causticar a paciência. Se te despeço é porque assim o entendo, sebo!
— Qual o que! vosmecê despede-me a mandado da patroa!
— Ó seu mariola! gritou o amo. — Ponha-se já na rua!
— Isto é uma casa de S. Gonçalo... principiou ainda o criado, quando o Borges, perdendo de todo a paciência, saltou sobre ele, e tê-lo-ia rachado com um pontapé, se o respondão não tratasse de ganhar a porta da rua.
— Atrevido! rosnou o Borges. — Insolente! Faltar-me ao respeito! A mim!
No dia seguinte, principiou a escolha do novo pessoal. O Borges, já bastante importunado com ter de suportar comida de hotel, viu-se tonto no meio da chusma de cozinheiros, copeiros, jardineiros, serventes de ambos os sexos e de todas as nacionalidades, que choviam de sul e norte, entre uma algazarra infernal.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Filomena Borges. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16530 . Acesso em: 15 mar. 2026.