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#Elegias#Literatura Brasileira

Canto da Solidão

Por Bernardo Guimarães (1865)

O poema “Canto da solidão”, de Bernardo Guimarães, expressa os sentimentos íntimos de um eu lírico marcado pelo isolamento e pela melancolia. Inserida no contexto do Romantismo, a obra revela reflexões sobre a dor, a saudade e o afastamento do convívio humano, valorizando a natureza como espaço de refúgio e contemplação. O texto destaca a intensidade emocional e o tom introspectivo característicos do período.

Prelúdio

Neste alaúde, que a saudade afina,

Apraz-me às vêzes descantar lembranças

De um tempo mais ditoso;

De um tempo em que entre sonhos de ventura

Minha alma repousava adormecida

Nos braços da esperança.

Eu amo essas lembranças, como o cisne

Ama seu lago azul, ou como a pomba

Do bosque as sombras ama.

Eu amo essas lembranças; deixam n'alma

Um quê de vago e triste, que mitiga

Da vida os amargores.

Assim de um belo dia, que esvaiu-se,

Longo tempo nas margens do ocidente

Repousa a luz saudosa.

Eu amo essas lembranças; são grinaldas

Que o prazer desfolhou, murchas relíquias

De esplêndido festim;

Tristes flores sem viço! - mas um resto

Inda conservam do suave aroma

Que outrora enfeitiçou-nos.

Quando o presente corre árido e triste,

E no céu do porvir pairam sinistras

As nuvens da incerteza,

Só no passado doce abrigo achamos

E nos apraz fitar saudosos olhos

Na senda decorrida;

Assim de novo um pouco se respira

Uma aura das venturas já fruídas,

Assim revive ainda

O coração que angústias já murcharam,

Bem como a flor ceifada em vasos d'água

Revive alguns instantes.

Amor ideal

Há uma estrela no céu

Que ninguém vê, senão eu

(Garrett)

Quem és? - d'onde vens tu?

Sonho do céu, visão misteriosa,

Tu, que assim me rodeias de perfumes

De amor e d'harmonia?

Não és raio d'esp'rança

Enviado por Deus, ditamno puro

Por mãos ocultas de benigno gênio

No peito meu vertido?

Não és anjo celeste,

Que junto a mim, no adejo harmonioso

Passa, deixando-me a alma adormecida

Num êxtase de amor?

Ó tu, quem quer que sejas, anjo ou fada,

Mulher, sonho ou visão,

Inefável beleza, sê bem-vinda

Em minha solidão!

Vem, qual raio de luz dourando as trevas

De um cárcere sombrio,

Verter doce esperança neste peito

Em minha solidão!

Nosso amor é tão puro! - antes parece

A nota aérea e vaga

De ignota melodia, êxtase doce,

Perfume que embriaga!...

Amo-te como se ama o albor da aurora,

O claro azul do céu,

O perfume da flor, a luz da estrela,

Da noite o escuro véu.

Com desvelo alimento a minha chama

Do peito no sacrário,

Como sagrada lâmpada, que brilha

Dentro de um santuário.

Sim; a tua existencia é um mistério

A mim só revelado;

Um segredo de amor, que trarei sempre

Em meu seio guardado!

Ninguém te vê; - dos homens te separa

Um véu misterioso,

Em que modesta e tímida te escondes

Do mundo curioso.

Mas eu, no meu cismar, eu vejo sempre

A tua bela imagem;

Ouço-te a voz trazida entre perfumes

Por suspirosa aragem.

Sinto a fronte incendida bafejar-me

Teu hálito amoroso,

E do cândido seio que me abrasa

O arfar voluptuoso.

Vejo-te as formas do donoso corpo

Em vestes vaporosas,

E o belo riso, e a luz lânguida e meiga

Das pálpebras formosas!

Vejo-te sempre, mas ante mim passas

Qual sombra fugitiva,

Que me sorriu num sonho, e ante meus olhos

Desliza sempre esquiva!

Vejo-te sempre, ó tu, por quem minh'alma

De amores se consome;

Mas quem tu sejas, qual a pátria tua,

Não sei, não sei teu nome!

Ninguém te viu sobre a terra,

És filha dos sonhos meus:

Mas talvez, talvez que um dia

Te eu vá encontrar nos céus.

Tu não és filha dos homens,

Ó minha celeste fada,

D'argila, d'onde nascemos,

Não és decerto gerada.

Tu és da divina essência

Uma pura emanação,

Ou um eflúvio do elísio

Vertido em meu coração.

Tu és dos cantos do empíreo

Uma nota sonorosa,

Que nas fibras de minh'alma

Ecoa melodiosa;

Ou luz de benigna estrela

Que doura-me a triste vida,

Ou sombra de anjo celeste

Em minha alma refletida.

Enquanto vago na terra

Gomo mísero proscrito,

E o espírito não voa

Para as margens do infinito,

Tu apenas me apareces

Como um sonho vaporoso,

Ou qual perfume que inspira

Um cismar vago e saudoso;

Mas quando minh'alma solta

Desta prisão odiosa

Vaguear isenta e livre

Pela esfera luminosa,

Irei voando ansioso

Por esse espaço sem fim,

Até pousar em teus braços,

Meu formoso Querubim.

Hino à aurora

E já no campo azul do firmamento

A noite extingue os círios palejantes,

E em silêncio arrastando a fímbria escura

Do tenebroso manto

Transpõe do ocaso os montes derradeiros.

A terra, de entre as sombras ressurgindo

Do mole sono lânguida desperta,

E qual noiva gentil, que o esposo aguarda,

De galas se adereça.

Rósea filha do sol, eu te saúdo!

Formosa virgem de cabelos d'ouro,

Que prazenteira os passos antecedes

Do rei do firmamento,

Em seus caminhos flores despargindo!

Salve, aurora! - quão donosa surges

Nos azulados topes do oriente

Desfraldando o teu manto aurirrosado!

Qual cândida princesa

Que em desalinho lânguida se erguera

Do brando leito, em que sonhou venturas,

Tu lá no etéreo trono vaporoso

Entre cantos e aromas festejada,

Sorrindo escutas os melífluos quebros

Das mil canções com que saúda a terra

O teu raiar sereno.

Também tu choras, pois em minha fronte

Sinto teu pranto, e o vejo em gotas límpidas

A cintilar na tremula folhagem:

Assim no rosto da formosa virgem

- Efeito às vezes de amoroso enleio -

Brilha através das lágrimas o riso.

Bendiz o viajor extraviado

Tua luz benigna que a vereda aclara,

E mostra ao longe fumegando os tectos

De alvergue hospitaleiro.

Pobre colono alegre te saúda,

Por ver em torno do singelo colmo

Sorrir-se vicejante a natureza,

Manso rebanho retouçar contente,

Crescer a messe, as flores desbrocharem;

(continua...)

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