Por Mário de Andrade (1930)
Mário de Andrade (1893–1945), figura central do Modernismo brasileiro, retrata em “O ladrão” a mobilização dos moradores de um bairro paulistano durante uma perseguição noturna, revelando solidariedade, tensões sociais e comportamentos coletivos. A primeira versão, intitulada “O fugitivo”, saiu em 27 de abril de 1930; profundamente reelaborada, tornou-se “O ladrão”, publicado na revista Clima, em agosto de 1944.
— Pega!
O berro, seria pouco mais de meia-noite, crispou o silêncio no bairro dormido, acordou os de sono mais leve, botando em tudo um arrepio de susto. O rapaz veio na carreira desabalada pela rua.
— Pega!
Nos corpos entrecortados, ainda estremunhando na angústia indecisa, estalou nítida, sangrenta, a consciência do crime horroroso. O rapaz estacara numa estralada de pés forçando pra parar de repente, sacudiu o guarda estatelado:
— Viu ele!
O polícia inda sem nexo, puxando o revólver:
— Viu ele?
—P...
Não perdeu tempo mais, disparou pela rua, porque lhe parecera ter divisado um vulto correndo na esquina de lá. O guarda ficou sem saber o que fazia, porém da mesma direção do moço já chegavam mais dois homens correndo. O guarda eletrizado gritou:
— Ajuda! e foi numa volada ambiciosa na cola do rapaz.
— Pega! Pega! os dois perseguidores novos secundaram sem parar. Alcançaram o moço na outra esquina, se informando com um retardatário que só àquelas horas recolhia.
—... é capaz que deu a volta lá em baixo...
No cortiço, a única janela de frente se abriu, inundando de luz a esquina. O retardatário virou-se para os que chegavam:
— Não! Voltem por aí mesmo! Ele dobrou a esquina lá de baixo! Fique você, moço, vigiando aqui! Seu guarda, vem comigo!
Partiu correndo. Visivelmente era o mais expedito, e o grupo obedeceu, se dividindo na carreira. 0 rapaz desapontara muito por ter de ficar inativo, ele!
Justo ele que viera na frente!... No ar umedecido, o frio principiou caindo vagarento. Na janela do cortiço, depois de mandar pra cama o homem que aparecera atrás dela, uma preta satisfeita de gorda assuntava. Viu que a porta do 26 rangia com meia luz e os dois Moreiras saíram por ela, afobados, enfiando os paletós. O Alfredinho até derrubou o chapéu, voltou pra pegar, hesitou, acabou tomando a direção do mano.
O guarda com o retardatário, já tinham dobrado a esquina lá de baixo. Uma ou outra janela acordava numa cabeça inquieta, entre agasalhos. Também os dois perseguidores que tinham voltado caminho, já dobravam a outra esquina. Mas foi a preta, na calma, quem percebeu que o quarteirão fora cercado.
— Então decerto ele escondeu no quarteirão mesmo.
O rapaz que só esperava um pretexto pra seguir na perseguição, deitou na carreira. Parou.
— A senhora então fique vigiando! Grite se ele vier!
E se atirou na disparada, desprezando escutar o “Eu não! Deus te livre!” da preta, se retirando pra dentro porque não queria história com o cortiço dela não. Pouco depois dos Moreiras, virada a esquina de baixo, o rapaz alcançou o grupo dos perseguidores, na algazarra. Um dos manos perguntava o que era. E o moço:
— Pegaram!
— Safado... ele...
— Deixa de lero-lero, seu guarda! assim ele escapa!
Aliás fora tudo um minuto. Vinha mais gente chegando.
— O que foi?
— Eu vou na esquina de lá, senão ele escapa outra vez!
— Vá mesmo! Olha, vá com ele, você, para serem dois. Seu guarda! o senhor é que pode pular no jardim!
— Mas é que...
— Então bata na casa, p...
O polícia inda hesitou um segundo, mas de repente encorajou:
— Vam’lá!
Foram. Foi todo o grupo, agora umas oito pessoas. Ficou só o velho que já não podia nem respirar da corridinha. Os dois manos, meio irritados com a insignificância deles a que ninguém esclarecera o que havia, ficaram também, castigando os perseguidores com ficarem. Lá no escuro do ser estavam desejando que o ladrão escapasse, só pra o grupo não conseguir nada. Um garoto de rua estava ali rente, se esfregando tremido em todos, abobalhado de frio. Um dos Moreiras se vingou:
— Vai pra casa, guri!... de repente vem um tiro...
— Será que ele atira mesmo! perguntou o baita que chegava.
E o velho:
— Tá claro! Quando o Salvini, aquele um que sufocou a mulher no Bom Retiro, ficou cercado...
Mas de súbito o apito do guarda agarrou trilando nos peitos, em firmatas alucinantes. Todos recuaram, virados pro lado do apito. Várias janelas fecharam.
O grupo estacara em frente de umas casas, quase no meio do quarteirão. Eram dois sobradinhos gêmeos, paredes-meias, na frente e nos lados opostos os canteiros de burguesia difícil. Os perseguidores trocavam palavras propositalmente em voz muito alta. O homem decerto ficava amedrontado com tanta gente.. Se entregava, era inútil lutar... Em qual das casas bater? O que vira o fugitivo pular no jardinzinho, quem sabe um dos rapazes guardando a esquina, não estava ali pra indicar. Aliás ninguém pusera reparo em quem falara. Os mais cuidadosos, três, tinham se postado na calçada fronteira, junto ao portão entreaberto, bom pra esconder. Se miravam ressabiados, com um bocado de vergonha. Mas um sorrindo:
— Tenho família.
— Idem.
— Pode vir alguma bala...
— Eu me armei, por via das dúvidas!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ANDRADE, Mário de. O ladrão. Clima, São Paulo, n. 13, p. 35-43, ago. 1944.