Por Machado de Assis (1893)
Neste divertido e irônico conto de Machado de Assis (1839–1908), publicado originalmente no Almanaque da Gazeta de Notícias para 1893, o autor satiriza a idealização romântica e a figura do poeta medíocre. A narrativa acompanha Ricardo, jovem que vive sob o fascínio da Vênus de Milo e compõe versos inflamados a musas inalcançáveis, até que a realidade prática o força a rimas mais domésticas. Um convite irônico ao pragmatismo que desmonta as fantasias sentimentais da juventude.
— VÊNUS! Vênus! divina Vênus!
E despegando os olhos da parede, onde estava uma cópia pequenina da Vênus de Milo, Ricardo arremeteu contra o papel e arrancou de si dous versos para completar uma quadra começada às sete horas da manhã. Eram sete e meia; a xícara de café, que a mãe lhe trouxera antes de sair para a missa, estava intacta e fria sobre a mesa; a cama, ainda desfeita, era uma pequena cama de ferro, a mesa em que escrevia era de pinho; a um canto um par de sapatos, o chapéu pendente de um prego. Desarranjo e falta de meios. O poeta, com os pés metidos em chinelas velhas, com a cabeça apoiada na mão esquerda, ia escrevendo a poesia. Tinha acabado a quadra e releu-a:
Mimosa flor que dominas
Todas as flores do prado,
Tu tens as formas divinas
De Vênus, modelo amado.
Os dous últimos versos não lhe pareceram tão bons como os dous primeiros, nem lhe saíram tão fluentemente. Ricardo deu uma pancadinha seca na borda da mesa, e endireitou o busto. Concertou os bigodes, fitou novamente a Vênus de Milo — uma triste cópia em gesso — e tratou de ver se os versos lhe saíam melhores.
Tem vinte anos este moço, olhos claros e miúdos, cara sem expressão, nem bonita nem feia, banal. Cabelo reluzente de óleo, que ele põe todos os dias. Dentes tratados com esmero. As mãos são delgadinhas, como os pés, e tem as unhas compridas e encurvadas. Empregado em um dos arsenais, vive com a mãe (já não tem pai), e paga a casa e parte da comida. A outra parte é paga pela mãe, que, apesar de velha, trabalha muito. Moram no bairro dos Cajueiros. O ano em que isto se dava era o de 1859. É domingo. Dizendo que a mãe foi à missa, quase não é preciso acrescentar que com um surrado vestido preto.
Ricardo prosseguia. O amor às unhas faz com que não as roa, quando se acha em dificuldades métricas. Em compensação, afaga a ponta do nariz com a ponta dos dedos.
Esforça-se por sacar dali dous versos substitutivos, mas inutilmente. Afinal, tanto repetiu os dous versos condenados, que acabou por achar a quadra excelente e continuou a poesia. Saiu a segunda estrofe, depois a terceira, a quarta e a quinta. A última dizia que o Deus verdadeiro, querendo provar que os falsos não eram tão poderosos como supunham, inventara, contra a bela Vênus, a formosa Marcela. Gostou desta idéia; era uma chave de ouro. Ergueu-se e passeou pelo quarto, recitando os versos; em seguida, parou diante da Vênus de Milo, encantado da comparação. Chegou a dizer-lhe em voz alta:
— Os braços que te faltam são os braços dela!
Também gostou desta idéia, e tentou convertê-la em uma estrofe, mas a veia esgotara se. Copiou a poesia — primeiramente, em um caderno de outras; depois, em uma folha de papel bordado. Acabava a cópia quando a mãe voltava da missa. Mal teve tempo de guardar tudo na gaveta. A mãe viu que ele não bebera o café, feito por ela, e posto ali com a recomendação de que o não deixasse esfriar.
"Hão de ser os malditos versos!" pensou ela consigo.
— Sim, mamãe, foram os malditos versos! disse ele.
Maria dos Anjos, espantada:
— Você adivinhou o que eu pensei?
Ricardo podia responder que já lhe ouvira muitas vezes aquelas palavras, acompanhadas de certo gesto característico; mas preferiu mentir.
— O poeta adivinha. A inspiração não serve só para compor versos, mas também para ler na alma dos outros.
— Então, você leu também que eu rezei hoje na missa por você... ?
— Li, sim, senhora.
— E que pedi a Nossa Senhora, minha madrinha, que acabe com essa paixão, por aquela moça... Como se chama mesmo?
Ricardo, depois de alguns instantes, respondeu:
— Marcela.
— Marcela, é verdade. Não disse o nome, mas Nossa Senhora sabe. Eu não digo que vocês não se mereçam; não a conheço. Mas, Ricardo, você não pode tomar estado. Ela é filha de doutor, não há de querer lavar nem engomar.
Ricardo teve moralmente náuseas. Aquela idéia reles de lavar e engomar era própria de uma alma baixa, ainda que excelente. Venceu o asco, e olhou para a mãe com um gesto igualmente amigo e superior. No almoço, disse-lhe que Marcela era a mais famosa moça do bairro.
— Mamãe acredita que os anjos venham à terra? Marcela é um anjo.
— Acredito, meu filho, mas os anjos comem, quando estão neste mundo e se casam... Ricardo, se você anda com tanta vontade de casar, por que não aceita Felismina, sua prima, que gosta tanto de você?
— Ora, mamãe! Felismina!
— Não é rica, é pobre...
— Quem lhe fala em dinheiro? Mas, Felismina! basta-lhe o nome; é difícil achar outro tão ridículo. Felismina!
— Não foi ela que escolheu o nome, foi o pai, quando ela se batizou.
— Pois sim, mas não se segue que seja bonito. E depois, eu não gosto dela, é prosaica, tem o nariz comprido e os ombros estreitos, sem graça; os olhos parecem mortos, olhos de peixe podre, e fala arrastado. Parece da roça.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Vênus! Divina Vênus!. Almanaque da Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 1893.