Por Machado de Assis (1864)
Esta é uma das primeiras narrativas de Machado de Assis, publicada sob o título de "Virginius: narrativa de um advogado". O conto explora a tragédia de Julião, um lavrador que, diante da desonra iminente de sua filha Elisa pelas mãos do filho de seu protetor, decide pelo sacrifício da jovem. Machado tece um drama sobre abuso de poder, relações de classe e a ética trágica, remetendo ao mito romano de Virginius, sob a lente crítica do Brasil oitocentista.
(NARRATIVA DE UM ADVOGADO)
CAPÍTULO PRIMEIRO
NÃO ME CORREU tranqüilo o S. João de 185. . .
Duas semanas antes do dia em que a Igreja celebra o evangelista, recebi pelo correio o seguinte bilhete, sem assinatura e de letra desconhecida:
O Dr. *** é convidado a ir à vila de... tomar conta de um processo. O objeto é digno do talento e das habilitações do advogado. Despesas e honorários ser-lhe-ão satisfeitos antecipadamente, mal puser pé no estribo. O réu está na cadeia da mesma vila e chama se Julião. Note que o Dr. é convidado a ir defender o réu.
Li e reli este bilhete; voltei-o em todos os sentidos; comparei a letra com todas as letras dos meus.amigos e conhecidos. . . Nada pude descobrir.
Entretanto, picava-me a curiosidade. Luzia-me um romance através daquele misterioso e anônimo bilhete. Tomei uma resolução definitiva. Ultimei uns negócios, dei de mão outros, e oito dias depois de receber o bilhete tinha à porta um cavalo e um camarada para seguir viagem. No momento em que me dispunha a sair, entrou-me em casa um sujeito desconhecido, e entregou-me um rolo de papel contendo uma avultada soma, importância aproximada das despesas e dos honorários. Recusei apesar das instâncias, montei a cavalo e parti.
Só depois de ter feito algumas léguas é que me lembrei de que justamente na vila a que eu ia morava um amigo meu, antigo companheiro da academia, que se votara, oito anos antes, ao culto da deusa Ceres como se diz em linguagem poética.
Poucos dias depois apeava eu à porta do referido amigo. Depois de entregar o cavalo aos cuidados do camarada, entrei para abraçar o meu antigo companheiro de estudos, que me recebeu alvoroçado e admirado.
Depois da primeira expansão, apresentou-me ele à sua família, composta de mulher e uma filhinha, esta retrato daquela, e aquela retrato dos anjos.
Quanto ao fim da minha viagem, só lho expliquei depois que me levou para a sala mais quente da casa, onde foi ter comigo uma chávena de excelente café. O tempo estava frio; lembro que estávamos em junho. Envolvi-me no meu capote, e a cada gota de café que tomava fazia uma revelação.
—A que vens? a que vens? perguntava-me ele.
—Vais sabê-lo. Creio que há um romance para deslindar. Há quinze dias recebi no meu escritório, na corte, um bilhete anônimo em que se me convidava com instância a vir a esta vila para tomar conta de uma defesa. Não pude conhecer a letra; era desigual e trêmula, como escrita por mão cansada...
—Tens o bilhete contigo?
—Tenho.
Tirei do bolso o misterioso bilhete e entreguei-o aberto ao meu amigo Ele, depois de lê-lo, disse:
—É a letra de Pai de todos.
—Quem é Pai de todos?
—É um fazendeiro destas paragens, o velho Pio. O povo dá-lhe o nome de Pai de todos, porque o velho Pio o é na verdade.
—Bem dizia eu que há romance no fundo!. . . Que faz esse velho para que lhe dêem semelhante título?
—Pouca cousa. Pio é, por assim dizer, a justiça e a caridade fundidas em uma só pessoa. Só as grandes causas vão ter às autoridades judiciárias, policiais ou municipais; mas tudo o que não sai de certa ordem é decidido na fazenda de Pio, cuja sentença todos acatam e cumprem. Seja ela contra Pedro ou contra Paulo, Paulo e Pedro submetem-se, como se fora uma decisão divina. Quando dous contendores saem da fazenda de Pio, saem
amigos. É caso de consciência aderir ao julgamento de Pai de todos.
—Isso é como juiz. O que é ele como homem caridoso?
—A fazenda de Pio é o asilo dos órfãos e dos pobres. Ali se encontra o que é necessário à vida: leite e instrução às crianças, pão e sossego aos adultos. Muitos lavradores nestas seis léguas cresceram e tiveram princípio de vida na fazenda de Pio. É a um tempo Salomão e S. Vicente de Paulo.
Engoli a última gota de café, e fitei no meu amigo olhos incrédulos.
—Isto é verdade? perguntei.
—Pois duvidas?
—É que me dói sair tantas léguas da Corte, onde esta história encontraria incrédulos, para vir achar neste recanto do mundo aquilo que devia ser comum em toda a parte.
—Põe de parte essas reflexões filosóficas. Pio não é um mito: é uma criatura de carne e osso; vive como vivemos; tem dous olhos, como tu e eu...
—Então esta carta é dele?
—A letra é.
—A fazenda fica perto?
O meu amigo levou-me à janela.
—Fica daqui a um quarto de légua, disse. Olha, é por detrás daquele morro.
Nisto passava por baixo da janela um preto montado em uma mula, sobre cujas ancas saltavam duas canastras. O meu amigo debruçou-se e perguntou ao negro:
—Teu senhor está em casa?
—Está, sim, Sr.; mas vai sair.
O negro foi caminho, e nós saímos da janela.
—É escravo de Pio?
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Virginius: narrativa de um advogado. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, jul./ago. 1864.