Por Aluísio Azevedo (1894)
“O Japão” apresenta um olhar curioso e descritivo sobre a cultura, os costumes e o modo de vida japonês, revelando o interesse por uma sociedade vista como exótica aos olhos ocidentais. A narrativa destaca diferenças culturais, hábitos e tradições, ao mesmo tempo em que reflete sobre contrastes entre Oriente e Ocidente.
Graças à recente vulgarização das crônicas japonesas, dantes inacessíveis a todo e qualquer estranho, poucos segredos haverá de virgindade inteira sobre o Japão remoto, e nenhum absolutamente a respeito dos fatos políticos que no moderno determinaram a restauração micadoal, podendo-se num punhado de capítulos despretenciosos dar exata notícia do que foi aquele passado, outrora tão misterioso e sem fundo, e do que vem a ser ao justo essa famosa revolução que num momento de frenesi histórico derrocou, em nossos dias, um mundo insondável de tradições acumuladas durante vinte e dois séculos de sigilo nacional. Isto, conquanto um pouco fora do meu programa, faz-se indispensável para clareza do resto desta singela obra de impressões pessoais; sem contar que o caso é de si bonito e novo, pois começa poeticamente por uma lenda maravilhosa e risonha, palpitante de quimeras e ficções divinas, e acaba na mais engravatada e burocrática monarquia constitucional, com os seus ministérios de casaca bordada, com as suas secretarias de Estado e os seus competentes amanuenses de calças puídas, e até, acreditai se quiserdes! com o pálido bacharel apenas desabrochado da academia sem outro ideal na vida além de apanhar por empenho qualquer emprego público.
Aluizio Azevedo
1o Capítulo
JIMMU TENNÓ
JINGÓ KOGÓ - YORITOMO
Um dia, o tonante Izanangui, que habitava com a formosa e divina Izananmi o empíreo celeste, indiferentes ao mundo ainda descampado, teve a fantasia de sondar com a ponta ciclópica da sua lança de deus as profundezas do oceano e, ao recolhê-la d'agua, as gotas que escorreram e pingaram no mar viraram-se numa ilha esmeraldina, Awaji, da qual os dois altos amantes, cansados do céu impassível, fizeram o éden dos seus amores terrestres e sensuais. Izananmi, meiga e fecunda, deu deles então a luz da vida as oito mais bonitas ilhas de Dai-Nipão e logo, para as não deixar tristes e desertas, produziu do seu ventre trinta e cinco kamis ou deuses já humanizados pelo amor sexual feito por ela na terra. Dentre esta nova sucessão de Izananmi surtiu Amateras, deusa do sol, a dona do divino espelho de Shinto, em cuja luz a sua futura descendência mortal e sensitiva poderia, e nos escassos tempos e dias aziagos do porvir, contemplar-lhe o rosto amigo e ler-lhe nas benignas feições os desígnios providenciais. Amateras, cônscia do que lhe reservava o destino, queria também ser fecundada, mas, orgulhosa dos seus incompensáveis encantos, não achava entre deuses e kamis varão assaz luzido e belo para o amor do seu corpo, e então, num singular enlace, concebeu um filho com os ardentes carbúnculos do seu próprio diadema de princesa celestial. O filho, da têmpera rija e cristalina das gemas que o geraram, foi posto na ilha de Kiuciu, que ele povoou de heróis, vindo dois de seus descendentes, guiados pelo divino falcão de oito cabeças, a atravessar o Mar Interior e a cair sobre o Japão central, de pronto por ambos conquistado contra o poder dos maus deuses e homens rebeldes que o ocupavam.
Um desses dois conquistadores, Iware Hito, foi o primeiro soberano do Japão e morreu, com mais de um século de idade, 585 anos antes de Jesus Cristo. Seu nome póstumo é Jimmu Tennô, como está na História e com o qual abre o almanaque de Gotha a lista cronológica e genealógica dos Micados e Shoguns de Dai-Nipão; ocupa hoje o trono o seu descendente em linha reta Mutsu Hito, que e o 122o da divina série micadoal.
Assim, o atual Imperador, apesar da sua constituição parlamentar, apesar do seu prosaico uniforme de General de Divisão, é nada menos do que descendente direto da formosa Deusa do Sol e tem com certeza na augusta fíbrina centelhas das luzes cambiantes do ilustre diadema seu antepassado; sacrossanta procedência donde lhe deriva indiscutível supremacia sobre todos os seus compatriotas terrestres e logo o direito absoluto de ser, nem só obedecido e cegamente respeitado por eles como soberano, mas adorado como divindade que é e como foram todos os seus consubstanciais antepassados.
O espelho por Amateras transmitido carinhosamente a seus filhos, representa o símbolo da religião shintoísta, à qual não pode o Micado renegar sem com ela renegar também a qualidade divina da sua própria essência. O Shintoísmo é pois no Japão ainda hoje a religião do Estado; mas a religião popular e verdadeiramente querida, talvez por mais folgada e vistosa, é o Budismo, introduzida no país pelos coreanos no século sexto da era cristã.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O Japão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7416 . Acesso em: 24 mar. 2026.