Por Machado de Assis (1858)
Machado de Assis (1839–1908), um dos principais nomes da literatura brasileira, publicou o poema narrativo “O Almada” em 1858, no Rio de Janeiro. A obra recria, em tom satírico-épico, um episódio do período colonial envolvendo o prelado Almada e conflitos entre autoridades civis, religiosas e o povo. Com linguagem paródica dos poemas heroicos, o texto combina crítica social, humor e erudição histórica.
(Fragmentos)
ADVERTÊNCIA
O ASSUNTO deste poema e rigorosamente histórico. Em 1659, era prelado administrador do Rio de Janeiro o Dr. Manuel de Sousa Almada, presbítero do hábito de S. Pedro. Um tabelião, por nome Sebastião Ferreira Freire foi vítima de uma assuada, em certa noite, na ocasião em que se recolhia para casa. Queixando-se ao ouvidor-geral Pedro de Mustre Portugal, abriu este devassa, vindo a saber-se que eram autores do delito alguns fâmulos do prelado. O prelado, apenas teve notícia do procedimento do ouvidor, mandou intimá-lo para que lhe fizesse entrega da devassa no prazo de três dias, sob pena de excomunhão. Não obedecendo o ouvidor, foi excomungado na ocasião em que embarcava para a capitania do Espírito Santo. Pedro de Mustre suspendeu a viagem e foi à Câmara apresentar um Protesto em nome do rei. Os vereadores comunicaram a notícia do caso ao governador de cidade, Tomé de Alvarenga; por ordem deste foram convocados alguns teólogos, licenciados, o reitor do Colégio, o dom Abade, o Prior dos Carmelitas, o guardião dos Franciscanos, e todos unanimemente resolveram suspender a excomunhão do ouvidor e remeter todo o processo ao rei.
Tal é o episódio histórico que me propus celebrar e que os leitores Podem ver no tomo III dos Anais do Rio de Janeiro, de Baltasar da Silva Lisboa.
No poema estão os principais elementos da história, com as modificações e acréscimos que é de regra e direito fazer numa obra de imaginação. Busquei o cômico onde ele estava: no contraste da causa com os seus efeitos, tão graves, tão solenes, tão fora de proporção. Dos Personagens que entram no poema, uns achei-os na crônica (AImada, o tabelião, o ouvidor, o Padre Cardoso e o Vigário Vilalobos), outros são de pura invenção Aos primeiros (excetuo Almada) não encontrando vestígios de seus caracteres e feições morais, forçoso me foi dar-lhes a fisionomia mais adequada ao gênero e à ação. Os outros foram desenhados conforme me pareceram necessários e interessantes.
Não é exagerada a pintura que faço do prelado administrador. Era ele, na verdade, homem irritadiço e violento, conquanto Monsenhor Pizarro no-lo dê por vítima de perseguição Inimigos teria, decerto, e e tais entranhas que, uma noite lhe disparam contra a casa uma peça de artilharia. Verdade é que da devassa que então se fez resultou ter sido aquele ataque noturno preparado por ele mesmo com o fim de se dar por vítima do ódio popular. O juiz assim o entendeu e o sentenciou, e o prelado foi compelido a pagar as custas da calçada e do processo. Monsenhor Pizarro pensa que isto foi ainda um lance feliz dos seus perseguidores. Pode ser; mas capaz de grandes cousas era certamente o Almada - Não tardou que recebesse ordem da corte para desistir do cargo, como se colhe de um documento do tempo citado nas Memórias Históricas, tomo VII.
Observei quanto pude o estatuto do gênero, parodiar o tom, o jeito e as proporções da poesia épica. No canto IV atrevi-me a imitar uma das mais belas páginas da antiguidade, o episódio de Heitor e Andrômaca, na Ilíada. Homero e Virgílio têm servido mais de uma vez aos poetas herói-cômicos. Não falemos agora de Ariosto e Tassoni. Parodiou Boileau, no Lutrin, o episódio de Dido e Enéias; Dinis seguiu-lhe as pisadas no diálogo do escrivão Gonçalves e sua esposa, e ambos o fizeram em situação análoga ao do episódio em que imitei a imortal cena de Homero.
Não se limitou Dinis à única imitação citada. Muitas fez ele da Ilíada, as quais não vi até hoje apontadas por ninguém, talvez por se não ter advertido nelas. Indicá-las-ei sumariamente.
Um dos mais engraçados episódios do Hissope, o da cerca dos capuchos, parece-me discretamente imitado do diálogo de Helena e Príamo, quando este, no alto de seus paços, interroga a esposa de Melenau a respeito dos guerreiros gregos que vê diante de Tróia. O vaticínio do galo assado é nada menos que o vaticínio Xanto. A pintura do escudo de Aquiles inspirou certamente a do machete do Vidigal. Dinis faz a resenha dos convidados do deão, como Homero a dos guerreiros de Agamenon. No último canto do Hissope o gênio das Bagatelas pesa na balança das razões do dedão e do bispo, como Júpiter pesa os destinos de Aquiles e Heitor.
Com tais exemplos, e outros que a instrução do leitor me dispensa apontar, e, porque é foro deste ramo da poesia, fiz a imitação indicada acima.
Agora direi que não é sem acanhamento que publico este livro. Do gênero dele há principalmente duas composições célebres que me serviram de modelo, mas que não são verdadeiramente inimitáveis, o Lutrin e o Hissope. Um pouco de ambição me levou contudo a meter, mãos à obra e perseverar nela. Não foi a de competir com Dinis e Boileau; tão presunçoso não sou eu. Foi a ambição de dar às letras pátrias um primeiro ensaio neste gênero difícil. Primeiro digo, porque os raros escritos que com a mesma designação se conhecem são apenas sátiras de ocasião, sem nenhumas intenções literárias. As deste são exclusivamente literárias .
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. O Almada. Rio de Janeiro: Paula Brito, 1858.