Por Joaquim Manuel de Macedo (1840)
Uma Pupila Rica é um texto dramático que expõe, com ironia e crítica social, os conflitos entre amor, ambição e interesses financeiros no interior da família. Por meio de diálogos vivos e situações teatrais, a obra revela a condição frágil da órfã rica, cercada por disputas e convenções sociais, enquanto questiona a moral, o casamento por interesse e o poder do dinheiro nas relações humanas.
Ato lº
Sala de estudo e de trabalho de senhoras:
duas portas ao fundo: ao lado direito uma porta ao fundo e janelas abrindo para
o jardim: piano, harmônico ou harpa, músicas, mesa contendo frutas, papéis,
álbum, estojos de desenho, bastidores ricos para bordados, grande espelho,
mobília elegante e apropriada, ornamentos, quadros de trabalhos de seda e de
flores, flores naturais e vasos.
Cena 1ª
Firmino e Teodora
Teodora
Isso não... eu não posso deixar de convidar
Estefânia: sei que o sobrinho tentou fazer ou mesmo fez a corte a Corina e sou
capaz de jurar que a tia não foi estranha a isso; mas tua pupila repelia
definitivamente a um, e eu te asseguro que hei de espantar a outra.
Firmino
Todavia! conhecer-lhes as intenções e chamá-los
para casa é o maior dos erros: bastam as visitas com que eles me
importunam...
Teodora
Queres que eu rompa minhas relações com
Estefânia?... digo-te que não vale a pena lembrar a pretensão já anulada de
Fortunato... sabes, se também devo ter cuidado...
Firmino
Bem. (toma nota a lápis) Vá mais d. Estefânia e seu
sobrinho Fortunato. (dobra o papel) Dezoito convidados: não passo além.
Teodora
Por exceção valia a pena dar um baile: o filho do
barão do Lago Azul se vaneceria do obséquio: asseguro-te que ele está cativo de
Júlia.
Firmino
Parece, mas começamos errando: embora Teófilo já
tivesse uma vez encontrado Júlia em casa de tua irmã, devias quando esse
mancebo te foi apresentado anteontem, limitar-te a oferecer-lhe a nossa
amizade.
Teodora
Foi isso que fiz, já te disse vinte vezes; conheces
porém a cabecinha de nossa filha: apenas minha irmã fez-lhe o presente da
boneca, propôs logo o batizado, declarou-se madrinha, e convidou para padrinho
Teófilo que aceitou encantado. Que poderia eu dizer?...
Firmino
Júlia está muito adiantada! convém abrir-lhe os
olhos, ou pelo contrário aconselhá-la a não abrilos tanto...
Teodora
Inocência de menina...
Firmino
Inocência?... o batizado é pretexto para festa, e a
boneca é chamariz de bonecas.
Teodora
Ainda bem que o boneco é filho de fazendeiro
riquíssimo.
Firmino
Sim, o partido é ótimo: todavia ... tua irmã foi
casada com um parente de Teófilo: foi ela quem deu a boneca a Júlia; a festa do
tal batizado bem poderia ter sido determinada para sua casa... eu faria as
despesas: depois convidaríamos Teófilo a jantar conosco...
Teodora
Isso não tem senso comum, Firmino; minha irmã é uma
pobre paralítica, e somos nós que temos interesse em atrair o filho do barão do
Lago Azul.
Firmino
E só por esta razão cedi, mas vê bem que as
reuniões e saraus em nossa casa por ora não possa convir-nos: Corina já fez 15
anos, e apesar do retiro em que a temos, é patente o cerco que lhe fazem:
depois do dr. André de Araújo, conto mais dois pretendentes ao seu dote.
Teodora
Devias tê-la deixado presa no colégio até que ela
se resolvesse.
Firmino
No colégio até os quinze anos! Já estaria casada
sem vontade própria, sem audiência minha, e sem licença do juiz dos
órfãos.
Teodora
E por causa de Corina há um ano que suspendemos os
nossos saraus! É preciso acabar com isso!
Firmino
Maldita ambição dos homens! Se Corina não tivesse
seus duzentos contos de réis, nem pensaria na minha pupila. Poucos a têm, e ela
tem mais pretendentes do que Júlia: eu até desconfio de Teófilo...
Teodora
De quem a culpa? Desde alguns meses Corina podia
estar casada com o meu Carlos, se não te obstinasses em querê-la para o filho
da tua primeira mulher!
Firmino
Recomeças, Teodora!...
Teodora
Sempre me fizeste a vontade; agora, porém, queres
sacrificar meu filho à memória e ao amor da tua defunta: é porque sou muito
menos amada do que ela o foi.
Firmino
Reflete, Teodora: teu primeiro marido foi rico, e
na herança paterna Carlos possui bom princípio de fortuna, o meu Peregrino não
herdou um real de sua mãe e assim...
Teodora
Tenho eu culpa de que a tua defunta não tivesse
onde cair morta? Há dezessete anos que o teu Peregrino gozou, não pouco, do que
me deixou o pai de Carlos. Não basta?...
Firmino
Neste assunto hei de resistir aos teus
caprichos.
Teodora
E ainda há pouco falavas na maldita ambição!... Que
tutor modelo és tu, Firmino!...
Firmino
Principias a ofender-me!...
Teodora
Se me provocas!... Eu quero Corina casada com o meu
Carlos!
Firmino
Que inocente paixão por Corina!..
Teodora
É como a tua... melhor do que a tua!
Firmino
Corina é minha pupila! Sou eu que tenho direitos
sobre ela.
Teodora
Menos a de condená-la a ser desgraçada com teu
filho, que só quer empolgar-lhe o dote...
Firmino
Empolgar-lhe!... ah! mas se fosse Carlos...
Teodora... isto não é decente... acabemos...
Cena 2ª
Firmino, Teodora e Suzana
Suzana
Não é decente, não: (avançando) os criados podem
ouvir!
Firmino
Tia Suzana!
Suzana
Acabo de voltar da igreja com a alma cheia de
consolação, e, entrando em casa, acho logo um desgosto!... Por que não procuram
a igreja, como eu?...
Teodora
Minha tia...
Suzana
Vocês viveram bem até hoje. Deus nosso Senhor
estava nesta casa; que tentação maligna os expõe à perder a celeste
graça?...
Teodora
Nós nos amamos, como antes, minha tia. Tivemos
apenas arrufos sem conseqüência.
Suzana
Não, eu sei o que é. Desde algum tempo vocês
disputam a miúdo, e nem sabem guardar a disputa para a hora e o lugar em que o
sacrário dos esposos se fecha aos olhos e aos ouvidos da família. Essa
indiscrição é o castigo da ira, como essa luta cruel em que estão, é o castigo
de ambiciosa avareza.
Firmino
(a Teodora) E esta? É bem feito: aturamo-la
agora.
Suzana
Tenho-os ouvido por vezes... custara-me a
confundi-los com a verdade... hoje não posso mais... o dever da consciência o
manda: é por amor de vocês que vou falar...
Teodora
(a Firmino) Tem paciência, ouçamos o sermão da
santa velha.
Suzana
Meus filhos, uma órfã é criatura sagrada. Por isso
mesmo que na terra perdeu seus pais, por isso mesmo que é raro o tutor que sabe
servir de pai, ela é a filha mimosa do Pai do céu: das lágrimas da cruz, uma
lágrima é a sagração da paternidade divina da órfã. Quem atormenta a órfã,
flagela a Jesus.
Teodora
Que quer dizer, minha tia?...
Suzana
Corina é órfã e está marcada para vítima da ambição
do ouro: sua vida se resume em duas palavras: — sofrer por ter.
Firmino
Tia Suzana!
Suzana
É a verdade que devo fazer-lhes ouvir. Corina é rica, e só porque é rica o tutor a
quer para seu filho, a esposa do tutor a exige para o seu e discordes nesse
antagonismo de ambições, conspiram de acordo contra a liberdade da órfã,
premeditando o seu sacrifício...
Firmino
Senhora!...
Teodora
(a Firmino) Deixe-a falar; é inofensiva.
Suzana
A órfã vive enclausurada: Júlia vai ao teatro, aos
bailes, aos passeios, e Corina fica sempre com a velha Suzana. Júlia canta,
dança e toca na sociedade para atrair admiradores, e Corina não tem direito de
ostentar as mesmas prendas que, aliás, possui; Júlia se mostra em toda a parte
para ser desejada e amada, e Corina só por acaso chega à janela, mas sempre ao
lado do seu tutor que lhe encadeia os olhos: vem-lhe do mal o bem, porque a
órfã vive ao menos na ignorância das perversões do mundo, e em vez de ser
mártir, se conserva anjo.
Firmino
Conservava pois o meu zelo e os meus escrúpulos de
tutor?...
Suzana
Desconfio de quem é mais escrupuloso como tutor, do
que como pai. Bastava a Corina metade dos inocentes gozos de Júlia.
Firmino
É portanto uma acusação?...
Suzana
Não acuso, apenas por amor de nós mesmos mostro o
vosso pecado, e peço o arrependimento do tutor ambicioso. Corina é sonegada ao
mundo para que não seja senão Peregrino e Carlos: o tutor e mulher do tutor
enclausuram a órfã para obrigá-la a aceitar, a receber um de seus cativeiros
como simulacro de liberdade. Meus filhos, eu juro pelos Santos Evangelhos, que
vós ofendeis assim a lei da terra, e a santa religião daquele que morreu na
cruz do Calvário...
Teodora
Minha tia, que idéias são essas?...
Suzana
Se estou em erro, peço humildemente perdão, mas eu
tenho ouvido mais de uma vez a disputa do marido e da mulher, não sobre o
merecimento, porém sobre o dote da órfã desejada para enriquecer os filhos...
vejo na clausura da órfã a premeditação do sacrifício.... depois da clausura
pressinto a violência.... tudo quanto a ambição inspira... talvez o crime.
Firmino
Senhora!...
Suzana
A violência.... o crime.... meus filhos: eu não hei
de ver a violência e o crime sem protestar contra eles. Era isto o que eu tinha
a dizer... custou-me muito: perdoem-me, porque vos amo; mas arrependam-se,
porque estão em pecado mortal.
Firmino
Vá rezar o seu rosário, tia Suzana; vá...
Suzana
Vou: o meu rosário é a minha fortaleza, e com a
inspiração do meu rosário hei de cumprir sempre o meu dever diante de Deus.
Fiquem, se podem, na paz do Senhor. (vai-se)
Cena 3ª
Firmino e Tereza
Firmino
Quem esperaria por semelhante sermão de quaresma?... Tu és a culpada,
Teodora, pois que nos comprometes ambos com imprudentes e importunas
contestações.
Teodora
Acabemos de uma vez com elas: enquanto minha tia
ralhava, eu refletia pois que nenhum de nós cede ao outro, deixemos a Carlos e
a Peregrino o empenho de conquistar o coração de Corina e a esta o direito de
escolher entre os dois.
Firmino
Acho muito razoável esse alvitre.
Teodora
Ambos nos conservaremos absolutamente alheios à
luta rival: nem tu apoiarás as pretensões de teu filho, nem eu as do meu.
Firmino
Convenho; já deveríamos ter assim resolvido a
questão.
Teodora
Em oito dias obrigaremos Corina a decidir-se por
Carlos ou por Peregrino.
Firmino
Perfeitamente.
Teodora
Eu te juro, sob minha palavra de honra, que serei
em tudo fiel a este acordo.
Firmino
Faço o mesmo juramento.
Teodora
Vês? Acabo sempre por concordar contigo: muito bem:
agora mais duas palavras sobre o batizado da boneca: teimas em não querer que a
reunião seja numerosa?
Firmino
Um batizado de boneca é um passatempo tão juvenil
que concedido à uma moça de dezesseis anos, só se tolera em família e em
sociedade de íntimos amigos.
Teodora
É uma explicação; mas se Júlia exigir grande festa
e baile?....
Firmino
Júlia! Júlia! Tu a deitaste a perder...
Teodora
Sim... fui eu!... Mas se ela exigir?...
Firmino
Oh! Não lhe digas que resumimos os convites; deixa
que ela sonhe com o baile.
Teodora
Previno-te de que em caso de revolta direi a Júlia
que se entenda contigo.
Firmino
Não: é melhor iludi-la... Júlia é uma bonequinha...
mas parece que a lembrança de Teófilo não lhe perturba o sono. (consulta o
relógio) Dez horas da manhã!
Teodora
Vou ver se as duas meninas já se resolveram a
amanhecer. (vai-se)
Firmino
(seguindo-a) Até logo... saio; mas volto cedo.
Cena 4ª
Firmino e Peregrino
Firmino
Ah! Pensei que não estavas em casa.
Peregrino
Entrei agora mesmo: vim pedir a meu pai que não
esqueça o meu amigo Simão de Souza na lista dos seus convidados para o batizado
da boneca de Júlia.
Firmino
Simão de Souza... que espécie de interesse...
Peregrino
Ele me protege em meus negócios: ainda há três dias
adiantou-me dinheiro para comprar quatro escravos que logo vendi com seiscentos
mil réis de lucro.
Firmino
Ah! Eu sempre o tive por homem de bem...
ultimamente festeja muito Teodora, quando a encontra no teatro ou no baile. Vou
mandar convidá-lo...
Peregrino
O convite o exultará: o meu amigo pensa também,
como outros, a respeito de Corina...
Firmino
Em Corina?... Onde a viu?...
Peregrino
Não a viu ainda, mas tem conhecimento de seu
dote...
Firmino
Não pode ser convidado.
Peregrino
Meu pai, Simão de Souza começa a envelhecer, é feio
e rude. Não há risco em deixá-lo vir; mas dada a hipótese de que fosse feliz,
eu que receio não vencer a indiferença glacial de Corina, teria a consolação de
vinte por cento do dote da noiva.
Firmino
Então ele te propôs?...
Peregrino
Isso é casar-me com uma sobrinha que possui cerca
de trinta apólices de conto de réis.
Firmino
Convidarei em todo o caso o homem. (vai à porta do
interior)
Peregrino
Obrigado, meu pai.
Firmino
Teodora está no segundo andar: escutas, trata com
atividade de agradar a Corina: eu tenho de fingir-me neutro, chama ao teu
partido a filha do teu padrinho, que gosta muito da minha pupila... eu já vou
falar ao compadre: nada disso seria preciso se eu não tivesse oposição em
casa... mas Carlos.
Peregrino
Carlos não me incomoda: é um excelente mancebo, que
estudou suas letras, agora passa a vida, freqüentando as galerias das câmaras,
fazendo versos e lendo romances e poesias. Está arrufado comigo porque soube
que eu negociava em escravos.
Firmino
E que tem isso?...
Peregrino
Carlos é um pobre e vão sonhador; há de proceder
como eu quiser.
Firmino
Sim... porém a mãe de Carlos...
Peregrino
Minha madrasta.... esposa do meu pai.... eu a
respeito e amo; todavia é mãe, e é raro que, julgando de seu filho, haja mãe
que deixe de ser tola.
Firmino
(rindo) Este Peregrino!... mas... já te disse o que
queria... Teodora pode chegar... vai-te.
Cena 5ª
Firmino, Peregrino, que se retira, Criado,
que se retira, e logo Tomás Pereira
Criado
O senhor Tomás Pereira.
Firmino
Conduza-o para esta sala (vai-se o criado).
Peregrino
Meu pai, eu prevenirei ao meu amigo Simão de
Souza...
Firmino
Ele receberá o convite daqui a duas horas...
Peregrino
Vossa mercê me dá dinheiro a ganhar... hoje comprei
escravos. Não tenho reservas com meu pai: uma pupila rica é mina de ouro.... o
caso é saber explorar a mina... (vai-se)
Firmino
(a Tomás) Sem cerimônia... o senhor é amigo da
família. (saúdam-se) Sente-se... (sentam-se) por aqui a esta hora?
Tomás
Dever de fiel corretor: vendi as três apólices
melhor do que esperava: eis o dinheiro e a nota da transação. (entrega)
Firmino
(Examinando o papel e o dinheiro) Que diligência!
Obrigado.
Tomás
A minha visita ainda tem outro motivo... mas
confidencial.
Firmino
Pode falar, estamos sós.
Tomás
Sou corretor, procurador, negociador, e quando
proponho, não ofendo: franqueza, no seu lugar eu já tinha casado sua pupila;
uma vez porém que o senhor o não quer fazer, digo-lhe que seria loucura
rematada não ganhar licitamente algumas dezenas de contos, livrando-se do
encargo da tutoria.
Firmino
É uma nova, a terceira proposta que me vem fazer
para casar Corina?...
Tomás
Um negociante, boa firma, casa acreditada, moço
elegante e honrado pede a mão da sua pupila; condição: vinte por cento do dote
ao tutor, cinco por cento ao corretor, perpétuo segredo da transação. Que
diz?
Firmino
Que o Senhor me confunde com os tutores sem
consciência e sem honra, com os traficantes que exploram em seu proveito um
depósito sagrado.
Tomás
Não se ofenda e ouça-me: recebi a confiança dos
seus negócios, conheço a situação da sua casa e da sua fortuna: devo dizer-lhe
que os seus recursos estão quase esgotados, e que a sua ruína será completa no
fim de um ou de dois anos.
Firmino
Ficar-me-á ilesa a probidade e tranqüila a
consciência. Corina ainda é muito criança: quando estiver no caso de fazê-lo,
escolherá livremente o seu noivo: o juiz dos órfãos aprovará esta minha
disposição: estou satisfeito.
Tomás
Sua alma sua palma: quer ser Catão, seja-o, há de,
porém, em breve, dormir na esteira da pobreza.
Firmino
Dormirei nela sono que muitos milionários não podem
dormir em seus leitos dourados.
Tomás
Senhor Firmino, sou seu amigo: abandone essas
teorias poéticas, chegue-se à razão prática: veja em primeiro lugar se pode
casar sua pupila com seu filho, ou ao menos casar com seu enteado... o dinheiro ficará em casa...
Firmino
E o meu crédito atirado ao meio da rua...
Tomás
Ao contrário, muito mais fortalecido pela presunção
de maior base de capital: esta é que é a realidade; mas se escrupuliza, negocie
o casamento da pupila rica em transação secreta, e peça a Deus que lhe dê mais
duas ou três tutorias, como essa, para arranjo da vida.
Firmino
Eu penso de modo inteiramente diverso: Não posso
aceitar a sua proposta, e peço-lhe que não insista neste assunto.
Tomás
Quando proponho, não ofendo, e também a negativa
não me ofende: tomo tudo isto debaixo do ponto de vista mercantil: não faz
conta, paciência: amigos como d’antes?
Firmino
Certamente.
Tomás
Cada vez o respeito e o lamento mais: o senhor é um
homem do outro tempo... há de ser vítima da sua escrupulosa e exagerada
probidade...
Firmino
Por quem é... não me confunda...
Tomás
(levantando-se e tomando o choque) Sou eu que saio
confundido...
Firmino
Saiamos juntos.
Tomás
A companhia me exalta: reconheço-me por demônio ao
lado de um santo.
Firmino
Quer dizer de um tolo...
Tomás
Ou isso.. salvo o respeito devido.
Firmino
Vamos, senhor Tomás Pereira. (vão-se)
Cena 6ª
Teodora e Carlos
Teodora
Saíram enfim.
Carlos
Eu também vou sair... são quase onze horas...
Teodora
Carlos, eu esperava que teu padrasto nos deixasse
em liberdade para te ocupar de questão muito séria.
Carlos
Mas hoje não posso perder a sessão do Senado: o
ministério vai receber sova magistral... faz
gosto ouvir os oradores da oposição...
Teodora
Se não fosse o Senado, inventarias outro motivo
para ausentar-te...
Carlos
Com efeito... à tarde tenho sessão magna da
Sociedade Filopoética.
Teodora
É sempre assim! eu te peço dez minutos ao
menos...
Carlos
(abrindo o relógio) Dez minutos hoje, e amanhã o
dia todo para minha mãe.
Teodora
Meu filho, tu me confessaste que amavas Corina, e
eu abençoei esse amor da beleza e da virtude...
Carlos
Sim, minha mãe, eu amo Corina; mas infelizmente ela
me parece um anjo amigalhado...
Teodora
Se a esqueces tanto! aposto que ainda não lhe
confessaste o amor que lhe tributas...
Carlos
Ah! os meus olhos devem ter-lhe dito tanto!... E
além dos meus olhos, já dez vezes tenho tentado declarar-lhe a minha paixão,
mas...
Teodora
Acaba...
Carlos
Júlia me ridiculariza, e Corina põe-se a rir.
Teodora
Não deves falar-lhe de amor em presença de
Júlia.
Carlos
Se uma nunca deixa a outra! Júlia é intolerável,
minha mãe.
Teodora
Eu ralharei com ela; tu, porém, sê mais freqüente
junto de Corina: tens boa voz... canta a miúdo com ela... mostra-te mais
ocupado da sua pessoa...
Carlos
Ontem à noite escrevi-lhe um acróstico: ela há de
lê-lo na Revista da Sociedade Filopoética.
Teodora
A poesia não basta... em regra as senhoras confiam
pouco nos poetas...
Carlos
Mas eu não compreendo amor sem poesia e sem flores:
ontem fiz versos a Corina, hoje hei de trazer-lhe um buquê de violetas, e
amanhã dar-lhe-ei a ler o romance Paulo e Virgínia anotado por mim.
Teodora
Versos, flores, romances, dá-lhe tudo isso, Carlos,
exalta-lhe a imaginação, mas sobretudo sê menos acanhado... menos... não sei
como digo, menos contemplativo, e... meramente respeitoso, ama-a como homem
deste mundo... as senhoras... as donzelas precisam parecer forçadas a ouvir...
a amar... a conceder inocentes favores...
Carlos
Corina é um anjo.
Teodora
Os anjos da terra têm sempre na sua natureza alguma
coisa de material. Carlos, eu quero que Corina seja tua esposa...
Carlos
Se eu merecer o seu amor espontâneo.... flor do
coração.... isento de cálculos de família.... livre.... sem rigor, nem
opressão... porque ela é rica... e eu não toleraria...
Teodora
Perfeitamente... oh! Quem se lembra de riqueza! Eu
só penso na formosura e na virtude de Corina!
Carlos
Oh, muito bem, minha mãe!... Um amor
poético!...
Teodora
Todavia, receio muito pelo teu amor e pela
felicidade de Corina, se não fores mais diligente, mais fervoroso...
Carlos
Por que? Por que?...
Teodora
Segredo inviolável, meu filho: teu padrasto
resolveu casar Corina com Peregrino...
Carlos
O mercador de escravos? Eu desconfiava disso:
Peregrino compra e vende seus irmãos em Deus: é indigno de Corina...
Teodora
E o teu amor pode salvar a vítima...
Carlos
Corina esposa de um escravagista!... Minha mãe —
hoje mesmo... (ouve dar onze horas) Ah, em vez de dez minutos, um quarto de
hora... até logo...
Teodora
(detendo-o pelo braço) Escuta ainda...
Carlos
Não posso perder a sessão do Senado...
Teodora
Cinco minutos só...
Carlos
Já sei tudo! Há de ver como procederei...
Teodora
Ao menos vai buscar-me o acróstico que
fizeste.
Carlos
(tirando um papel do bolso) Ei-lo aí... mas não o
mostre a Corina: quero que ela o leia com surpresa na Revista da Sociedade
Filopoética. (vai sair e encontra-se [sic] com Estefânia)
Cena 7ª
Teodora, Carlos, que logo se retira, Estefânia
Estef.
Ah! Carlos, quase que me deste um abraço...
Teodora
(indo a Estef.) Estefânia!
Carlos
Desculpe: foi ardor parlamentar. (beija a mão de
Estef.) Sinto não poder demorar-me. É a hora da sessão do Senado: vou a correr. (vai-se)
Estef.
Carlos é um querubim; mas voa com excessivo
ardor.
Teodora
Agradeço-te a prontidão com que acudiste ao meu
chamado. Senta-te. (Sentam-se)
Estef.
Acho-te desassossegada...
Teodora
A minha luta com Firmino continua e se agrava.
Estef.
No jogo da teima não há mulher que não ganhe a
partida ao marido.
Teodora
Mas quando não é só o marido a vencer?... Até bem
poucos dias, o que me preocupava era que essa teima de Firmino demorava o
casamento de Carlos e que a demora podia aproveitar a algum astucioso e feliz
pretendente de Corina.
Estef.
Com efeito! Os especuladores são tantos!...
Teodora
Agora, porém, é o meu maldito enteado que me está
ameaçando com as mais temíveis probabilidades da sua vitória...
Estef.
Ora... Peregrino... Corina o trata com tanta
indiferença...
Teod.
Tu és como minha irmã: a nossa
amizade...
Estef.
Começou no colégio... (olhando em torno) ninguém
nos ouve: começou no Colégio há trinta e cinco anos.
Teod.
É por isso que me animo a dizer-te, pensando no meu pobre Carlos, o que
aliás por lealdade também te diria, se teu sobrinho...
Estef.
Não falemos em Fortunato: sabemos ambas que se ele
um dia pôs-se a requestar dona Corina, soube esta desenganálo para sempre: além
disso eu te comuniquei o projeto de casamento que formei desde muito para meu
sobrinho.
Teod.
Eu me comprometi a auxiliar-te com todo o
esforço nesse empenho. Creio até que tenho feito já alguma coisa.
Estef.
Muito: e uma mão lava a outra: ocupemo-nos de
Carlos.
Teod.
Vou confiar-te um segredo delicadíssimo e
pedir-te um conselho.
Estef.
O segredo ficará no coração; o conselho sairá da
reflexão.
Teod.
Isto morre aqui: eu suspeitei... e enfim
verifiquei que Peregrino... abusando da casa de seu pai... entretinha relações
secretas... criminosas com a mísera Corina...
Estef.
Oh!... É horrível!... Estás bem certa do que
dizes?... Teod. Infelizmente é verdade.
Estef.
Que escândalo! Mas então é caso julgado... pobre
Carlos!
Teodora
Conforme...
Estef.
Pois aí há conforme?.. .(cravando os olhos em
Teod.) Ah! Sim! Neste mundo tudo é conforme:
eu também juraria que dona Corina detestava Peregrino e todavia.. mas..
conforme o que?...
Teod.
Corina é ainda no seu erro tão inocente como
tola, e por felicidade no colégio a tornaram fanática: há quatro dias que tive
a certeza do seu opróbrio e não tardei em recorrer aos bons ofícios de minha religiosa
tia, e a boa da velha reteirou o demônio com tanta eloquência que a triste
menina malvadamente enganada, apenas agora compreende o que fez, e abomina
Peregrino com sentimento de horror.
Estef.
(sorrindo) É um pouco inverossímil: eu, no teu
caso, desconfiava.
Teod.
A tia Suzana assegura o arrependimento de
Corina, que parece ter sido vítima de sua rude ignorância a certos
respeitos...
Estef.
Mas o diabo não sai tão facilmente do corpo, em que
conseguiu uma vez entrar.
Teodora
Julgas que estou sossegada? eu passo as noites
velando: temo da influência fatal adquirida por Peregrino... tenho medo de que
amanhã, ou em outro dia, Eva de novo atenda à serpente... mas dada a hipótese
do arrependimento sincero e essa ignorância do mal que se praticava...
Estef.
Entendo... (sorrindo) dada a hipótese...
Teod.
Nestas circunstâncias devo ainda pensar em Corina para esposa de meu
filho?... tenho escrúpulos: aconselha-me.
Estef.
Tanta inocência da alma obriga a esquecer em dona
Corina o erro que foi só da ignorância: não refletes assim?...
Teod.
Confesso que penso desse modo. Sê franca: faço bem em insistir no
casamento de Corina com o meu Carlos?...
Estef.
Fazes... fazes...
Teod. Dizes isso em um
tom...
Estef.
De quem se admira da hesitação: dona Corina não é
só moça bonita... é meio milhão. Teima.
Teod.
Tu me resolves; mas em tal
caso preciso do teu concurso. Corina é muito amiga tua; quero que patrocines a
causa de Carlos.
Estef.
Como se ele fosse meu filho: hei de fazer
prodígios. Verás. Teod. (apertando-lhe a mão) Minha
Estefânia!...
Estef.
Carlos ainda não conseguiu tocar o coração de dona
Corina?...
Teod.
Tem perdido o seu tempo em êxtases poéticos:
o inocente bate à porta daquele coração a compassos diversos.
Estef.
Com uma menina de quinze anos os versos tem seu
lugar. Teod. A propósito: aqui está um acróstico do nosso
poeta.
Estef.
Lê.
Teod.
(lendo) A voz do coração, voz que é gemido
Mudo enleio que a fala tolhe e prende
O terno olhar nos olhos teus perdido,
Culto de fogo ao Sol que o fogo acende;
O receio, a esperança, a queixa, o medo
Rompendo d’alma que a teus pés se rende
Inda trêmulos n’alma em segredo
No poético ardil que amor socorre,
Amor de quem por merecer se morre.
(voltando o papel e lendo) As iniciais dos
versos dizem: = Amo Corina = na verdade é bonito! Não achas bonito?...
Estef.
Melhor do que isso, declaração em regra.
Teod.
E os versos trazem a assinatura de Carlos: é positivo!... Que talento o
de meu filho!...
Estef.
Cantarei como sereia aos ouvidos de dona
Corina.
Teod.
Minha amiga, minha irmã!
Estef.
Agora volto para receber a minha modista que talvez
me esteja esperando... (em pé)
Teod.
O que eu disse
relativamente a Corina...
Estef.
Sepultou-se aqui.(aponta para o coração)
Teod.
Confio em ti. (abraça-a) Sê mãe de Carlos.
Estef.
Tenho medo de adorá-lo demais (beijam-se. Estef.
sai)
Cena 8ª
Teodora e logo Carlos
Teodora
(acompanha Estef. até a porta: volta; relê para si
os versos, sorri, vai à mesa escolhe um álbum, gruda com goma arábica que
haverá em um vidro competente, o papel dos versos em uma das folhas do álbum e
desfolha uma rosa na mesma página)
Carlos
(Entrando) Não houve sessão no Senado por falta de
quorum. (vendo Teod. junto da mesa) Que faz, minha mãe?... (começa o canto
dentro)
Teod.
Silêncio! Júlia e Corina vão
entrar.
Júlia
(cantando dentro e até o fim)
(continua o canto) O meu acróstico!...
Teodora
Silêncio. (cai o pano durante o canto)
Fim do 1º ato.
Ato 2º
A mesma cena do 1º ato
Cena 1ª
Júlia e Corina
Júlia
(deixando a janela) Minha mãe está no jardim
conversando com o seu poeta.
Corina
(Entrando) Vou buscar a tua boneca...
Júlia
Para que?...
Corina
Far-lhe-emos um vestido rico... todo de gaze branco
e rendas.
Júlia
Ora! na nossa idade brincar com bonecas?...
Corina
Mas então o batizado...
Júlia
Não vês que foi pretexto para te dar um
baile?...
Corina
Ah! a mim ou ao padrinho?
Júlia
Em todo caso ganhas...
Corina
Que faremos esta manhã?
Júlia
Tudo e nada: por exemplo, olhar-nos ao espelho. Vem
cá... (defronte do espelho)
Corina
Para que isto?... (indo para o espelho)
Júlia
Somos ambas bem bonitas!
Corina
Me parece...
Júlia
Tipos diferentes; ambos porém igualmente
lindos.
Corina
Eu menos...
Júlia
Tu menos? Suponhamos! Como é então...
Corina
O que?
Júlia
(deixando o espelho) Vamos fazer um jogo?... (vai
buscar um baralho de cartas, que devem ser muito friqnos [sic]) Queres ver?...
Tu és a dama de ouros, eu sou a que aparecer primeiro. (corre as cartas) A de
espadas. (baralha). Quem vence?...
Corina
Tu com as espadas...
Júlia
Sim? E tu com o ouro? Vejamos a quem saem os
condes. (vai deitando as cartas a uma e
outra dama) Aí tens: saiu para ti o de paus... também o de espadas. (larga as
cartas) Não quero mais... Entendes isto?... (à frente da mesa)
Corina
Eu não: é acaso.
Júlia
Isto quer dizer que me é preciso que te cases...
solteira, tu me fazes perder no jogo dos condes.
Corina
Estás doida?
Júlia
Eu?... Escuta: desde alguns meses que sinto a
verdade: o sobrinho de d. Estefânia fazia-me a corte, e de súbito mudou de
rumo, e é a ti que rende finezas, quando a tia nos visita. Pouco me importa...
não deixou saudades...
Corina
E eu por ventura o animo?
Júlia
É outra questão: o moço que costuma passar a tarde
em faetonte , esquecia os olhos em mim; mas depois ou fica vesgo, ou é só para
ti que olha, quando por acaso te deixam ir à janela...
Corina
E se ele soubesse como o acho horrível!...
Júlia
É outra questão, já disse. Nos bailes, aos quais
meu pai não te quer levar, é certo que os moços me cumprimentam; mas as tias,
as mães e as irmãs armam-me tais laços para informar-se de ti, que
evidentemente elas te prefeririam para os sobrinhos, para os filhos e os
irmãos.
Corina
Ainda bem que o padrinho da boneca te ama.
Júlia
Veremos: já esperei mais. Também ele perguntou-me
por ti. Desconfio da curiosidade.
Corina
Podes esperar tudo... eu te juro. JuIia
Não podes jurar o que não sabes. Uma experiência; vejamos: (vai buscar
uma flor e tira as pétalas) Sim... não, sim... não... (até o fim) não! Estás
vendo? Exijo que te cases.
Corina
Acabarás por aborrecer-me, Júlia!
Júlia
Eu? Se tu me fazes conhecer os homens!... Amo-te!
Tu és o fogo em que provo a minha prata: se Teófilo for casquinha, boa viagem!
(indo ao piano) Vamos ensaiar um dueto?
Corina
Com que fim? O senhor Firmino não consente que eu
cante em sociedade.
Júlia
Mas se eu quiser...
Corina
Prefiro que não queiras.
Júlia
Tu te resignas demais: eu no teu lugar me
revoltava, (abrindo o relógio) onze horas e três quartos... que dia
comprido!... (boceja) Ah! É verdade: a outra questão. Corina, tu tens o coração
encouraçado?...
Corina
Que pergunta, Júlia!
Júlia
Ainda não amas? Porém é indispensável que ames...
digo-te que me é preciso que te cases... perde esse coração uma vez, Corina!
Ah, eu tenho perdido o meu tantas vezes!... (rindo-se) Ainda bem que ele foge e
volta, vai e vem, como passarinho acostumado à gaiola!
Voz de mulher (dentro)
Uma esmola à pobre velha pelo amor de
Deus!..
Corina
Ah! É a voz da minha pobre! (querendo ir)
Cena 2ª
Júlia, Corina, Teodora e Carlos
Teodora
Menina, já lhe temos dito que não deve ir sozinha
dar esmola à sua pobre: venha comigo...
Corina
Perdoe-me... não tornarei a ir só... (vão-se as
duas e voltam)
Carlos
Isto é contra o preceito do Evangelho: a esmola da
caridade não deve ter testemunhas; o segredo é a santa poesia da esmola: também
o segredo, o mistério é quase sempre poético; não acha?...
Júlia
Acho tudo quanto quiseres, menos somente uma
coisa.
Carlos
O que?...
Júlia
O teu juízo, de que ninguém me dá notícias. (voltam
as duas)
Carlos
Minha mãe, Júlia começa a provocar-me...
Teodora
É uma estouvada: eu te livro dela; vem comigo,
Júlia; tenho que dizer-te (vai-se)
Júlia
(beliscando Corina) Gare aux vers!
Cena 3ª
Corina e Carlos
Carlos
Ela nem sabe falar o francês, e quer fazer
calembour!...
Corina
Não admira, aqui estou eu que ignoro até o
português.
Carlos
Se eu não a conhecesse tão instruída, chegaria a
suspeitá-lo; porque a senhora finge não entender...
Corina
O que?
Carlos
O meu penar cruel...
Corina
Então está doente?...
Carlos
Do coração, bela Corina.
Corina
Isso é grave: deve quanto antes consultar os
médicos.
Carlos
Porque zomba de mim?... Que fez do buquê de
violetas que lhe ofereci?
Corina
Pu-lo de molho por amor das violetas.
Carlos
Essas flores nada lhe disseram?
Corina
As
flores?... Flores falando! Senhor Carlos...
Carlos
Isto desespera! Porque assim me trata? Tanta
impiedade quando me rendo a seus pés?... Um desengano, é apenas sentença que
infelicita; mas o escárnio é injúria bárbara. Uma vez ao menos falemos
seriamente...
Corina
Se o assunto for sério...
Carlos
Não pode sê-lo mais: ouça e decida. A minha alma
vai falar, e a minha vida concentrar-se nos meus lábios: o amor em que se
abrasa o meu coração é puro, como o fogo dos seus olhos, amo-a como Petrarca
amou a Laura, Lamartine a Graziella, Gonzaga, ou antes Dirceu à Marilia!
(Corina ri) Por quem é não ria-se... tudo o que quiser, menos rir assim. Eu a
adoro... adoro-a nos meus sonhos... adoro-a nas minhas tormentosas vigílias...
de dia a minha alma é seu altar... de noite... (Corina põe-se a rir) podes fazer-me
o favor de não rir?...
Corina
Mas é impossível conter-me! (rindo ainda)
Carlos
Oh! A senhora ri enquanto o meu coração se afoga em
pranto envenenado! Nós devíamos ser como duas flores que o almo sopro de amor aproximasse; mas a estrela do
céu não vê o verme da terra que a namora, como diz Victor Hugo! (Corina
desatando a rir, leva o lenço à boca) Oh! O rir aqui é inteiramente fora de
propósito!...
Corina
Mas o senhor tinha dito que ia falar
seriamente...
Carlos
E que há de mais sério que este amor poético,
arrebatador, vulcânico... (Corina ri) e a senhora a rir! Aí está uma coisa com
que dou o cavaco! Desengane-me, se quiser, mas não ria-se... não riase...
Corina
Senhor Carlos... eu o estimo muito... faço justiça
aos seus sentimentos... mas, tornando ao sério... (desata a rir)
Carlos
Basta de rir: dona Corina, além do terno interesse
do meu amor, eu quero, posso e devo livrá-la do mais horrível naufrágio...
Corina
Oh! não se exponha por mim... deixe-me
naufragar.
Carlos
Peço-lhe a mão de esposa... o marido será um
escravo, o meu amor será culto a divindade... Corina a minha Eva sem o
pecado... eu, o Adão, inocente, vivendo em êxtase de amor puro... (Corina
desata a rir) ora... assim não se pode... a senhora a rir... e a rir... e a
rir... em vez de rir diga de uma vez — sim ou não?...
Corina
Senhor Carlos... eu... (desata a rir) perdoe-me...
(rindo) eu... sou assim... rio-me de tudo... (rindo)
Carlos
É de matar! Há risos mais frios que o gelo, mas
faça-me o favor de não continuar a rir, minha senhora!...
Cena 4ª
Corina, Carlos, Tereza e Júlia
Teodora
Conversaram?... O que?...
Corina
O senhor Carlos falava-me sobre flores e
poesia.
Teodora
É incorrigível... jurou viver respirando perfumes e
amando os anjos... mania de poeta... mas parece que também revolveram
músicas... (chegando-se à mesa) e junto das músicas o álbum de Corina que
também o examinaram... (toma o álbum e
abre-o)
Corina
Nem sequer olhamos para ele...
Teodora
Oh! folhas de rosas... versos de Carlos...
(fingindo ler)
Corina
Isto é novo para mim... (a Carlos) o sr. não podia
escrever no meu álbum sem a minha permissão...
Carlos
Eu?... minha mãe... esse acróstico...
Teodora
Amo Corina!... que quer dizer isto? Reprovo severamente o proceder de ambos:
menina, eu me oponho a semelhante amor... proíbo, condeno esta afeição!...
Corina
Juro que foi um abuso de seu filho!... (quase a
chorar)
Carlos
Abuso!... E esta?... Minha mãe... isto é
demais...
Teodora
Silêncio, senhor! (à Corina). Ordeno-lhe que nem
olhe para meu filho! Não quero que o ame... (a Carlos) Não quero que a ame...
ouviram?... Não quero...
Carlos
Preciso explicar-me... não direi quem foi... mas eu
não fui...
Teodora
Basta! Venha comigo, senhor. (leva Carlos pela mão)
Júlia, espera-me: vou tomar o chapéu.
Cena 5ª
Corina e Júlia
Corina
Que indigno proceder: querem talvez comprometer-me!
(a Júlia que está lendo os versos) Deixa-me rasgar essa folha do álbum...
Júlia
Por que?... O pobre Carlos não merece tal
castigo...
Corina
Mas o abuso... o desrespeito... a ousadia...
Júlia
Tens a certeza de que foi ele quem colou os versos
no álbum?
Corina
Júlia!
Júlia
(indo à porta e voltando) Psiu! Aposto que isto é
travessura de minha mãe... ela se empenha em casar-te com Carlos: (olhando) eu já estou no segundo... se
quiseres conta comigo.
Corina
É para enlouquecer-me...
Júlia
É; porque também meu pai te destina para
Peregrino.
Corina
Sei tudo isso, há muito!...
Júlia
Então não enlouqueces mais: (olhando) todavia as
exigências vão ser mais fortes... nota: minha mãe já te ordenou que não amasses
a Carlos de propósito para te provocar a contrariá-la...
Corina
Oh, como é lamentável ser rica!
Júlia
Que tola!... Eu trocava a tua sorte pela
minha...
Corina
Tu?... Oh, sabes tu o que é não ter mais na terra
pai nem mãe?...
Júlia
(comovida) Corina!... Perdôo-a... eu não trocava,
não... mas tens ao menos em mim uma irmã... e doravante...
Corina
Chegam. (vai cortar a folha do álbum e
dobrá-la)
Júlia
Como se rasga um coração em uma folha de papel!
Coitado de Carlos!
Cena 6ª
Corina, Júlia, Teodora, e depois Carlos e Silvia
Teodora
Júlia, vamos: (a Corina) menina; voltaremos antes
de duas horas... esqueçamos o que se passou a pouco...
Corina
Mas o sr. Carlos terá a bondade de guardar, se
quiser, os seus versos... (entrega a folha do álbum)
Carlos
(recebendo) Eu quero restabelecer os fatos...
protesto que...
Teodora
Agora não; vamos sair: (a Corina) a tia Suzana já
está prevenida para fazer companhia a senhora. (com voz ressentida) Silvia!
Irás dizer a tia Suzana que já saímos. (a Carlos) Vem... (toma-lhe o
braço)
Júlia
Adeus, Corina, até logo (abraça-a e beija-a)
Carlos
Isto não fica assim... eu explicarei os fatos,
ainda que seja em outra poesia. (Vão-se os três: Silvia segue)
Cena 7ª
- Corina, em pé e meditando. - Silvia volta
logo - Peregrino que com expressiva mímica e falando em segredo à porta,
recomenda que demore o chamado de Suzana: Silvia ri e acode: Peregrino espera à
porta.
Silvia
Vou chamar a sr.ª d. Suzana..
Corina
(sem olhar) Você. (vai-se Silvia que olha e ri para
Peregrino)
Peregrino
(depois de um momento) Ah! D. Corina...
Corina
(voltando-se) Senhor Peregrino...
Peregrino
Eu procurava meu pai...
Corina
Creio que não está em casa.
Peregrino
Perdoe se penetrei até aqui, estando a senhora só:
minha madrasta saiu também com Júlia e Carlos...., porque não a
levaram?...
Corina
Porque sou demais: não sei outra razão.
Peregrino
Pode haver outra: os tesouros mais preciosos
guardam-se, escondem-se com avareza.
Corina
É portanto uma desgraça ser tesouro precioso. Pereg.
Deixa transpirar uma queixa bem fundada: o seu viver assim é triste, já
o disse a meu pai; ele porém julga um dever não expô-la às seduções e aos laços
de infames exploradores da inocência e da confiança cega das donzelas
ricas.
Corina
Reconheço a bondade e os cuidados do meu tutor; nem
me lastimo... distraio-me tanto neste meu enclausuramento... nunca estou só...
tenho o piano, o estojo do desenho... a lã e a seda com que bordo. Sou tão
feliz... (vai tocar)
Pereg.
Não: a influência desses vis exploradores é
fatal, porque é um perigo para a moça rica, e desanima o amor leal e honesto
que teme ser confundido com as fingidas e interesseiras afeições: não pensa
como eu?...
Corina
Desculpe-me: ocupada com a música, fui incivil ao
ponto de não ouvir o que me dizia. Não tocarei mais. (deixa o piano e vai
sentar-se à mesa)
Peregr.
Eu maldizia àqueles que simulam amor, adorando só a riqueza, e maldigo pelo que sinto: maldigo porque me tenho condenado a fechar até hoje no coração o mais puro amor pelo receio de uma suspeita que ofenderia a delicadeza dos meus sentimentos.
Corina
Ah! agora ouvi mas ainda arriscando-me a
parecer-lhe néscia... confesso que não entendo. (desenha)
Pereg.
Quer que eu fale bem claro?... Eu amo e me contenho à força: a donzela
que amo é rica e mil ambiciosos a desejam sem ao menos tê-la visto, a querem
por esposa sem a conhecerem... e eu que a vejo todos os dias... que aprecio o
valor da sua virtude... que me sinto cativo dos seus encantos... ver que me
julgo capaz de faze-la feliz... ainda não ousei, e, apenas agora, deixo escapar
a primeira e incompleta confissão do amor mais ardente e santo!
Corina
Quem é que diz... ora... o desenho é como o
piano... eu estava distraída... não ouvi: perdoe-me.
Pereg.
D. Corina... eu lho peço... esqueça o piano e o desenho... não me confunda com distrações que se me afiguram desprezos
cruéis...
Corina
(levantando-se) Oh, não!... Eu não desprezo pessoa
alguma, ainda menos o filho do meu tutor; mas em verdade não sei o que me
dizia...
Pereg.
Agora pois não toca, nem desenha: ouvir-me-á,
eu a espero: estamos sós... o momento é oportuno... receba a declaração sincera
do segredo mais terno...
Corina
Espere: o senhor disse que o momento é oportuno,
porque estamos sós; portanto se seu pai e sua madrasta estivessem presentes,
não diria o que pretende...
Pereg.
Oh! É a confissão de um sentimento
irresistível cheio de celeste fogo, que só à senhora devo revelar!
Corina
É pena; mas seu pai me proibiu confidências desta
natureza: decididamente só na presença dele e de sua madrasta é que poderei
ouvi-lo.
Pereg.
Ah! D. Corina!... quer dizer que me
autoriza...
Corina
Não... autorizar não; eu não posso autorizar o que
não compreendo... toquei piano e desenhei enquanto o sr. falava... e não
entendi coisa alguma...
Pereg.
Mas depois não tocou, nem desenhou, e eu
falei com tanta clareza, que somente não rasguei o véu do respeito.
Corina
Então é que eu sou tão tola que nem compreendo as
coisas mais claras e simples...
Pereg.
Oh, pois que se finge
ignorar, não deve negar-se a ouvir a explicação mais completa...
Corina
A sós, como estamos? Deus me livre: seu pai mo
proibiu...
Pereg.
D. Corina!...
Corina
Ah! Sinto os passos da tia Suzana: na presença dela
sim, o senhor pode explicar-me tudo...
Pereg.
Não... agora não... tenho pressa... peço-lhe até por favor, que não refira a tia Suzana o que eu lhe dizia... (saindo)
Corina
Ainda que eu
quisesse, não poderia fazê-lo: pode crer que não entendi nada. (seguindo-o dois
passos. Vai a Pereg.)
Cena 8ª
Corina e Suzana
Suzana
Que foi que não entendeste, menina?
Corina
O que sou obrigada a ouvir e a entender todos os
dias.
Suzana
Então finges e simulas; mas no fingimento há
malícia: a candura é que é agradável ao Senhor. (senta-se)
Corina
Guardo a franqueza só para a confiança: vivo nesta
casa há um ano e ainda não fui fingida com a tia Suzana.
Suzana
Creio-te Corina; mas na tua idade que é a das
expansões!...
Corina
Expansões?... Tive-as, enquanto meu pai viveu; aos
dez anos porém, pobre órfã, presa no colégio, o que logo me ensinaram, foi a
desconfiar de todos: falavam-me de minha riqueza e de mil perigos que me
cercaram: por ordem de meu tutor acompanhava-me sempre uma espionagem
suspeitosa e ainda mais nociva por ser mais de ostentação do que de vigilante
cuidado: fizeram-me adivinhar o mal e ter medo do mundo...
Suzana
Não exageras?...
Corina
Afetaram disputar-me o ar, a liberdade, os vôos de
menina nas horas de recreio: menina, fui passarinho com as asas cortadas, vendo
o espaço e sem poder voar, pareciam vigiar-me de dia e de noite com apreensões
sinistras: tudo isso me aterrorizava, mas também me fazia crer que me achava
defendida e livre de qualquer traição: todavia um dos meus professores teve
tempo para tentar seduzir-me, e uma das alunas do colégio atormentar-me com o
amor de um seu irmão que se propunha a raptar-me.
Suzana
Que horror!... Coitadinha...
Corina
Aos quatorze anos vim esperançosa para a casa do
meu tutor, mas bem depressa tive de chorar pelo meu colégio! Aqui a prisão
chega a ser cruel: a tia Suzana sabe como o sr. Firmino e sua esposa conspiram
contra os direitos do meu coração, cada qual de seu lado, e no interesse
material de seus filhos!
Suzana
Tens razão...
Corina
Não consentem que eu tenha uma amiga, nem que eu
desça sozinha ao jardim, nem que saia uma vez de casa, ao menos para levarem-me
à igreja: despediram a minha ama-de-leite que meu pai libertara com a condição
de acompanhar-me até o meu casamento: enclausurada e suspeita, as criadas
espiam-me, a minha escrivaninha é a miúdo revolvida [sic]: sofro injusta
opressão... e sinto-me ameaçada pela prepotência e... oh, tia Suzana... chego a
temer o crime...
Suzana
Pobre menina! Tem paciência, espera.
Corina
Sim, espero; mas sem mãe, sem pai, educada na
desconfiança, no medo, nos sofrimentos e nas aflições, de cinco anos de
orfandade, sou o que me fizeram ser, sou fingida, e espero, sim espero,
escudando-me com o fingimento.
Suzana
Era mais nobre ser franca, mas deveras nunca
fingiste para enganar-me.
Corina
Nunca, porque a tia Suzana desde o primeiro dia em
que me falou, falou-me a linguagem que em pequenina eu ouvi da minha mãe.
Suzana
Obrigada... podes confiar na velha Suzana...
Corina
Com o coração todo aberto e os seus olhos, como eu
o abria aos olhos de minha mãe...
Suzana
Mas... se nela guardasses um segredo...
Corina
Seria seu... e sem reservas. Até hoje a tia Suzana
é o único seio leal e amigo que tem acolhido e consolado a triste órfã!...
Suzana
Órfã!... Órfã!... Não me chamarás em vão tua
mãe!... Serás minha filha. (abraça-a)
Voz de mulher, dentro Uma esmola
à pobre velha pelo amor de Deus!
Corina
(estremece) Oh, é a minha pobre! Posso ir dar-lhe
esmola?
Suzana
Vai... vai... e abençoada sejas, porque estendes a
mão da caridade ao pobre! (Corina vai-se pela porta do jardim: Suzana levanta-se e a segue, abençoando-a,
risonha; mas recua da porta e vem sentar-se triste)
Corina
(voltando alegre) Já se foi.
Suzana
Os outros pobres esmolam à escada da frente, como é
que esta vem até aqui, entrando pelo jardim?
Corina
Pedi e obtive que lhe permitissem isso: é a minha
pobre.
Suzana
Ah, e tu trazes sempre dinheiro contigo? (silêncio
e confusão de Corina). Tinhas dinheiro, Corina?
Corina
(abrindo os olhos) Não... tia Suzana... não
tinha...
Suzana
Então!... o que deste à tua pobre?...
Corina
Eu não dei... recebi... tia Suzana... recebi uma
carta do homem que amo, e com quem espero casar. Ei-la aqui. (mostra)
Suzana
Um grave erro, menina! Tu mesma sentiste que
procedeste mal, pois certamente correste, recebendo essa carta. Mas... eu tinha
um peso sobre o coração... tiras-te-mo; por que não mentiste.
Corina
E eu lhe digo tudo: o dr. André de Araújo
ama-me...
Suzana
Doutor André de Araújo?... Não conheço: onde viste
esse doutor?...
Corina
Outrora na casa de meu pai: nossas famílias eram
amigas. Dez anos mais velho que eu, André muitas vezes carregou-me em seus
braços, e quando me achei mais crescida, ele me dava bonecas e flores... foi no
tempo em que eu era anjo... no tempo da felicidade e dos risos... depois...
Suzana
Depois?...
Corina
Meu pai morreu: vi ainda uma vez André na hora
terrível do saimento para o enterro... ele chorava também, e chegando-se a mim,
beijou-me a fronte... sinto ainda esse beijo, e na minha face uma lágrima que
lhe caiu!... Separamo-nos; há dois anos, porém, André levou para o meu colégio
uma sobrinha, viu-me, reconheceu-me, saudou-me com ternura melancólica, e eu
não pude saudá-lo, porque desatei a chorar, lembrando-me de meu pai: depois...
tornamos a ver-nos uma... dez... vinte vezes... e pouco a pouco... ah, tia
Suzana não sei como foi... nós nos amamos.
Suzana
E por que não vem ele pedir-te em
casamento?...
Corina
Há dois meses que o fez, e meu tutor o
repeliu.
Suzana
Talvez não seja digno de ti.
Corina
André?... Eu ouvi o que diziam dele no meu colégio:
é a virtude, a bondade e a ciência entesouradas em um homem a quem não seduz a
minha fortuna, pois é mais rico do que eu, e desconhece a avareza por brilha
[sic] pela caridade.
Suzana
Que entusiasmo! E que te diz ele em suas
cartas?...
Corina
Pede-me que o ame e espere; e que respeite o meu
tutor. Confesso: propus-lhe que apelasse para a autoridade e que me arrancasse
deste meu cativeiro.
Suzana
E ele?
Corina
Condenou esse recurso que provoca o ruído público,
mas assegurou-me que em caso extremo não hesitará...
Suzana
E que mais...
Corina
É tudo: confiar-lhe-ei todas as suas cartas. Quer
ler esta que ainda não abri?...
Suzana
Quero antes de tudo que me prometas não receber
outra.
Corina
Oh, e que será de mim?...
Suzana
Sairei em breve a informar-me sobre o doutor André.
Se ele for honrado e virtuoso, como o acreditas, a velha Suzana tem uma missão a cumprir, protegerá o
amor da órfã, o amor de sua filha em nome de Deus.
Corina
E meu tutor? E sua esposa?... E Peregrino e
Carlos?...
Suzana
Falei-te em Deus: como podes temer os
homens?... Se o teu amor é puro, os
anjos o abençoam; se és vítima de opressão e se a violência te ameaça, levanta
os olhos para o céu: tem fé!...
Corina
Esperança e fé, meu Deus!... (de joelhos)
Suzana
Reza! A oração é já em si uma graça, porque na
oração falamos ao Senhor. Corina, reza à virgem mãe de Jesus que é a protetora
e a mãe sagrada das órfãs...
Corina
(começando a rezar) Ave Maria!...
Suzana
Espera: tenho-te ouvido em suave canto a saudação
sublime: reza cantando, mas cantando com fé! Se assim rezares com fé, as
harmonias do teu canto serão asas de anjo a levar tua oração ao céu!...
Corina
Oh, sim! fé! E com a minha fé, a esperança do meu
amor! (senta-se à harmônica e canta — Ave Maria. Suzana, em pé, ergue os
braços. (Cai o pano)
—Fim do 2º ato —
Ato 3º
— Espaçosa [sic] sala interior: porta ao fundo, pela qual se apercebe mal outra sala onde se ouve música e se dança: ao lado direito, porta abrindo para um gabinete: portas laterais, brilhantismo de luz: sinais de festim.
Cena 1ª
Peregrino sentado; Carlos que entra
Peregrino
Também te aborreceu o jogo de prendas?
Carlos
Se Júlia é intolerável!... Há meia hora que sem
piedade me martiriza! Não pude mais sofrê-la!
Peregr.
Júlia é apenas uma menina
leviana que brinca: hoje há aqui alguém que muito mais nos incomoda: eu sou
franco; é o filho do barão... e Teófilo...
Carlos
Que queres dizer?
Peregr. Veio, entrou-nos em casa
com aparência de pretendente de Júlia, e evidentemente é de Corina que ele se
ocupa... e ela o atende... e parece encantada...
Carlos
Seu proveito... talvez não me tenha sido agradável
essa observação que também já fiz... talvez mesmo tenha isso concorrido para
impacientar-me; porque eu amo Corina, ouviste?... mas se ela ama Teófilo... que
seja feliz.
Peregr.
Eis aí: eu não amo Corina, e todavia não sou
tão tolerante. Teófilo me aflige muito.
Carlos
Mas... se dizes que não amas... Pereg.
Não é dizer que eu não queira casar com ela: o seu dote arranjaria muito
a minha vida; confesso.
Carlos
Peregrino!
Pereg.
Não ralhes como ralhaste
no caso do negócio de escravos: cada qual tem seus princípios. Eu quero Corina
para esposa, mesmo sem amor e até muito contra sua vontade: apontar-me-ão nas
ruas com reprovação... dirão que sacrifiquei o coração ao ouro; mas sendo rico,
serei poderoso, e a sociedade virá em breve lisonjear-me respeitosa.
Carlos
Essa teoria é infame!
Pereg.
Dá-lhe o nome que quiseres: faço-te justiça: tu, meu poeta, não
quererias ser esposo não sendo amado; hesitarás, mesmo na hipótese de merecer
amor, ante a suspeita de vil interesseiro, que em todo o caso despertarias no
ânimo dos maliciosos.
Carlos
E levantaria ufano esta cabeça de homem
honesto...
Pereg.
Cabeça de poeta... pois bem, cada qual com os
seus princípios... e daí quem sabe, se não és ainda mais ladino do que eu?...
Desejo, aconselho-te que o sejas: se Corina não for minha esposa, estimarei que
seja tua.
Carlos
Não quero que me imagines com os teus sentimentos:
vai comprar e vender homens...
Peregr.
Olha... acabou o jogo de
prendas... estão tomando sorvetes... vamos arrefecer o sangue... (vai-se.
Carlos passeia agitado)
Cena 2ª
Carlos e Teodora Teod.
Por que fugiste da sala? Não devias dar importância aos gracejos de tua
irmã.
Carlos
Minha mãe, cumpre-me preveni-la de que vou sufocar
o amor que sentia ou sinto por Corina.
Teod.
Temos ciúmes? Não sejas
criança.
Carlos
Juro-lhe que só desposarei Corina, se partir dela
manifesta e publicamente a proposição mais livre e positiva.
Teod.
Mas isso é contra todas as regras, seria até indecoroso.
Carlos
Ou eu farei a proposição franca e altamente com a
condição de passar todo o seu dote para algum estabelecimento de caridade. (em
fogo mal contido)
Teod.
Estás delirando... agora não podemos
conversar. Vai distrair-te e sossega. (vai-se Carlos)
Cena 3ª
Teodora que se retira, Estefânia e Corina, tomando sorvete
Estef.
Roubei por momentos Corina a seus admiradores.
Teod.
Fazes-me ter ciúmes desta menina que parece amar-te mais do que a mim:
não me roube de todo o seu coração.(vaise)
Estef.
Vê como é hipócrita?... Toma-se, [sic] acautele-se
dela! Não atraiçoe o segredo que lhe confiei... diga pelo contrário,
queixando-se de mim, que empenhei-me em induzi-la a desposar Carlos... mas, eu
lho peço, ouça ao menos por breves momentos a meu sobrinho... prometa-me uma
contradança para Fortunato.
Corina
Mas eu já prometi a outro a seguinte... e além
disso...
Estef.
Fortunato a ama... livra-la-á do inferno em que
vive... creia que a senhora está exposta aos maiores perigos, e meu sobrinho
que é o mais nobre cavalheiro, que a adora, e que daria a vida pelo seu
amor...
Corina
Olhe, quanta gente chega.
Cena 4ª
Carlos, Peregrino, Simão de Souza, Tomás Pereira, Teófilo, Firmino, Fortunato, Estefânia, Corina, Teodora, Júlia, senhoras, cavalheiros — conversação geral, movimento.
Teóf.
(com a boneca nos braços) A minha linda
afilhadinha não pode dormir com semelhante ruído! Acabou de despertar chorando
assustada... onde melhor lhe poremos o berço? (embala a boneca) Tempo perdido!
Nos meus braços não dorme: (a Corina) minha senhora, por quem é, acalente esta
menina.
Corina
Compete esse dever à madrinha.
Teóf.
A madrinha está carregando o berço... e que pesa!...
Estef.
Que feliz [sic] boneca! (Corina recebe-a e
acalenta-a)
Júlia
(com o berço nos braços) Qual! Uma pobre
enjeitadinha, que não tem pai nem mãe!
Simão
Enjeitada! Pronto a declarar-me pai da menina. (riso)
Teóf.
Ah; senhor! Acaba de matar-nos a esperança de achar mãe para a criança!... (risadas)
Simão
(a Pereira ) Eu não sei porque esta gente ri assim!...
Teóf.
E a menina dormiu ao doce calor dos seus braços: (a Corina)
V. Exª. há de por compaixão e caridade
apresentá-la à pia... mas onde depositaremos o berço?...
Firmino
Neste gabinete (abre a porta onde entram Júlia e
Corina)
Teóf.
Minhas senhoras, deixemos a menina dormindo.
(segue-as)
Tomás
(a Firmino) Que enchente de puerilidades; na
comédia do mundo somente o dinheiro é coisa séria: e o senhor não quer
crer!...
Simão
(a Pereira) Ainda não pude manifestar-me: não sei, como hei de conseguir que a moça olhe para mim...
Pereira
(a Simão) Convide-a para dançar. (Júlia e Corina voltam)
Teóf.
(a Simão) V. Exª. terá a bondade de ser o padre que batize a criança... acho-o com jeito... com a aparência de cônego...
Simão
Aceito in limine: (a Pereira ) É um modo de me manifestar...
Teod.
Oh, nunca me trataste assim Firmino!
Firmino
E tu?... E tu?... Nossa casa era um paraíso...
mudaste de caráter por amor de teu filho...., a tentação da riqueza...
Teod.
Sim... é isso... a fome de dinheiro.
Cena 6ª
Firmino, Teodora e Estefânia
Estef.
Que dois pombinhos! Festejam-se mais ternos do que
moças que (começa a rir)
Teod.
Oh, que torpe sede de ouro!...
Firmino
Confessa: é por causa do teu Carlos que me vejo
exposto ao mais triste desengano... Teófilo me roubará Corina!...
Júlia
Minha afilhada dorme: vamos dançar?...
Teod.
É o senhor com o seu Peregrino: para que se casou comigo, se só vive
pelo filho da sua defunta?
Firmino
Faço-lhe igual pergunta: tem a bondade de me
responder!... creio, porém, que ali vai um teu rival. (vai-se)
Simão
(tomando o braço de Pereira ) Aquele padrinho me parece muito estúpido!
(Pereira sorri — vãose)
Cena 5ª
Firmino e Teodora
Firmino
Eis aí em que está dando o batizado da boneca!...
Não me sujeitarei mais aos caprichos de Júlia.
Teodora
Júlia está bem castigada: sua esperança vai
morrendo... já morreu talvez... Teófilo voltou-se para Corina.
Firmino
Uma indignidade e um perigo a mais!
Júlia
Minha afilhada dorme: vamos dançar?...
Teóf.
Decreto de rainha: (a Corina) é a nossa contradança... (baixo) por
procuração... (oferecendo-lhe a mão)
Corina
Com o maior prazer. (toma-lhe a mão vão sair
todos)
Fortunato
(a Estef. dando-lhe o braço) Que devo
esperar?...
Estef.
(a Fortunato) Por ora nada; mas desesperar nunca.
(Vão-se)
Carlos
(a Per.) A idolatria do ouro é esquálida, lá se
rendem ternuras, dançando!
Teod.
Este nosso amor já é hábito, não merece
elogio.
Firmino
É a felicidade pelo egoísmo... só cuidamos de nós.
Eu tenho, porém, meus momentos de abnegação: aí lhe deixo a sua amiga.
(vai-se)
Estef.
Tenho perdido toda a minha eloqüência esta noite:
Corina não quer ouvir falar de Carlos: é preciso ser severa e um pouco clara e
inclemente com ela: fecha a porta de tua casa ao filho do barão...
Teod.
É a primeira vez que eles se encontram. Julgávamos Teófilo apaixonado de
Júlia...
Estef.
Vou ver como Teófilo e Corina se namoram. Estão
tocando a indecência...
Teod.
Estefânia, que dizes?...
Estef.
Eu falo-te assim só por amor de Carlos... tolerar
as loucuras desta noite é, sem dúvida, sacrifício obrigado ao decoro, e ao
dever; mas desde amanhã ou só prepotente, austera, terrível, ou despede-te de
Corina...
Teod.
Eu não devia ter saído da sala... vamos.
Estef.
Vamos... (indo) é porém tarde... a contradança
acabou.
Teod.
Não importa. (vão-se; tem acabado a
música)
Cena 7ª
Peregrino e Simão
Pereg.
Que tem?... que quer?...
Simão
Aquele padrinho que dança com ela quem é?...
Pereg.
É filho de um barão.
Simão
Assim não me diz nada, barão? Tenho uma dúzia de barões embrulhados na minha burra.
Pereg.
Chama-se Teófilo e é filho do barão do Lago Azul.
Simão
Do barão do Lago Azul!... Estou perdido. Vale muito mais do que eu... podia ser marquês ou duque... já não tenho ânimo de manifestar-me
Peregr.
Espere sempre... eu sirvo para alguma coisa
Simão
Qual! Se eu fosse mulher casava-me logo com o filho do barão do Lago Azul... vou-me embora...
Pereg.
Não... não... dance primeiro com a bela Corina, e ainda que ela se mostre indiferente e fria, tenha esperança... eu sustentarei a sua causa...
Simão
Não posso mais apresentar-me candidato... aquela firma é melhor que a minha...
Peregr.
Que homem desanimado!... Demore-se e mostre-se amável: olhe... isto é segredo de família... Teófilo tem outras intenções... creio que minha irmã...
Simão
Hein?... Que está dizendo?... Eu, porém, o vejo muito mais ocupado a conversar com a outra...
Peregr.
Disfarce de namorada...
Simão
O senhor dá-me alma nova... então tratarei de manifestar-me... mas não me engane...
Pereg.
Voltemos à sala... estão servindo o chá. (vão-se)
Cena 8ª
Júlia e Corina
Corina
Não tens razão... acredita-me
Júlia
Se tenho! É casquinha como os outros.
Corina
É prata de lei.
Júlia
Por isso estás perdida por ele.
Corina
Teófilo adora-te...
Júlia
Sim; já mo repetiu dez vezes e continua a dizê-lo;
mas sem nunca te haver conhecido teve que dizer-te tanta coisa em voz baixa...
ocupa-se tanto de ti...
Corina
É verdade...
Júlia
E tu pareces tão contente, tão feliz...
Corina
É verdade...
Júlia
Ah! confessas?... E então?...
Corina
Confesso o que acabas de dizer; juro, porém, que é
a ti que ele ama.
Júlia
E tu?...
Corina
Confia em mim.
Júlia
Desta vez ficou-me um espinho no coração... Corina!
Sabias que eu amava Teófilo...
Corina
E bendigo do teu amor... oh! Júlia tu nem pensas
como eu amo o teu amor.
Júlia
Que fogo!... Mas ou eu não te posso entender ou tu
és a sonsa mais refinada...
Corina
Aceito o dilema.
Júlia
Então... há um jogo...
Corina
Convenho.
Júlia
E esse jogo... esse jogo... Corina, tu contas
ganhar?...
Corina
Se tu ganhares...
Júlia
Tu esperavas Teófilo?...
Corina
Esperava-o
Júlia
Corina!...
Corina
Não pude ver-te sofrer e julgar mal de mim...
Deixei transpirar já metade do meu segredo: basta...
Júlia
Ah, sonsa!... tu amas... tu amas... ele o
sabe?...
Corina
Atraiçoa-me agora, se quiseres...
Júlia
O que eu quero é entrar no jogo... já devias ter
falado... como é a história toda?
Corina
Agora... aqui é impossível... depois eu te direi
tudo.
Júlia
Mas se eu quero entrar no jogo!... Hei de perguntar
a Teófilo... (sinal de contradança)
Corina
Júlia!
Júlia
Não dizes que é a mim que ele ama?
Corina
Pergunta-lho: o teu amor é a minha fiança.
Cena 9ª
Júlia, Corina, Teófilo e logo Simão,
Firmino aparece e desaparece,
observando Teóf. Por ordem da música e da ambição de glória
perturbo a conferência angélica. (a Júlia) Vim lembrar a V. Exª. a minha
contradança... (oferecendo-lhe a mão)
Júlia
Posso perguntar, Corina?...
Corina
Podes.
Teóf. Oh! E eu serei tão feliz
que possa responder?...
Corina
Pode.
Júlia
Ainda bem! Vou entrar no jogo. (os três vão
sair) Simão V. Exª. não pretende, creio eu, dançar com
duas senhoras...
Teóf.
Pretendo, sim senhor...
Simão
Esta é nova! E como?
Teóf. Dançando agora com uma e logo com a outra.
Simão
Ah! isso é claro... mas eu estava meio
só...
Corina
O senhor me havia pedido esta contradança... com
todo o prazer... (toma o braço a Simão)
Teóf.
De vis-à-vis conosco... sim?...
Simão
Não faço questão de vis-à-vis... (de mau modo)
Teóf.
Admirável! De vis-à-vis toda a noite! (vão-se)
Cena 10ª
Firmino e Peregrino
Peregrino
(moitando) Vê, meu pai?...
Firmino
Agora ao menos é Júlia o seu par!...
Peregr.
Corina não podia sê-lo sempre.
Firmino
Mas Júlia estava contrariada e agora vai
radiante.
Peregr.
Também desconfio de Júlia.
Firmino
Ela ama Teófilo, não é admissível que conspire
contra o seu amor.
Pereg.
Mas os dois namorados acharam meio de
iludi-la, e de abusar da sua credulidade.
Firmino
Nesse caso deves lamentar tua irmã, e não
desconfiar dela...
Pereg.
É que Júlia deixa-se enganar com simplicidade
pueril!... Meu pai me desculpe... é natural que eu esteja desensofrido...
Firmino
Tens razão: tudo nos contraria: até havia de
acontecer que teu padrinho adoecesse hoje, para que a filha não pudesse
vir!...
Peregr.
Mas que lembrança infeliz a de Júlia com a sua
maldita boneca!...
Firmino
Pensas que não me tenho arrependido desta malfadada
reunião?...Mmas que hei de fazer agora?.. É indispensável mostrar o rosto
alegre...
Peregr.
Sem dúvida: hoje é sofrer com paciência; mas
desde amanhã, meu pai...
Firmino
O que?
Peregr.
Sempre sou transparente
aos olhos de meu pai: Corina é o meu brilhante futuro pela sua riqueza; mais do
que isso, é a regeneração da fortuna paterna pela dedicação e pela diligência
do filho enriquecido.
Firmino
Sei tudo isso, mas só me lembro de ti.
Peregr.
Tão importante fim deve ser atingido por todos os meios e sem hesitação
nem demora.
Firmino
Portanto... (soa sempre a música)
Peregrino
Meu pai, Corina é simplesmente uma boneca
rica.
Firmino
E assim...
Peregrino
Uma boneca não tem vontade, nem ação própria.
Firmino
Compreendo; tenho, porém, fora de casa, o juiz dos
órfãos a quem aliás é fácil enganar, e enfim confundir impunemente com um
casamento consumado, e dentro de casa, o que é pior, minha mulher contra nós,
minha mulher que me transtorna todos os esforços e todos os planos.
Peregr.
Por isso mesmo... exatamente por isso mesmo.
Firmino
Explica-te... fala claro...
Peregrino
O que me parece: que meu pai deve ajudar-me a fazer
para que a boneca rica me pertença a despeito do juiz dos órfãos e de minha
madrasta!...
Firmino
Sim... sim...
Pereg.
Como me é preciso proceder
para possuir a boneca rica?...
Firmino
Estás hoje insuportável! Dize de uma vez.
Peregr.
Meu pai há de vê-lo hoje mesmo e dentro em poucos minutos em um apólogo
vivo.
Firmino
Mas que é?... (cessa a música)
Peregr.
A noite é de contrariedade e de paciência forçada; espere. Meu pai me
perdoe; eu lhe peço o favor de ir observar se os seus convidados já se preparam
e se o ordenam para a cena burlesca do batizado da boneca de Júlia; creio que é
a hora aprazada...
Firmino
Sim... é meia-noite... o tal batismo tem de
preceder à ceia.
Peregr.
Meu pai, por quem é... vá ver...
Firmino
Que aborrecíveis mistérios!... (vai-se)
Cena 11ª
Peregrino e logo Firmino Peregr.
(olha em torno... e apressado entra no gabinete)
Firmino
(voltando) Já vem todos... Peregrino! Peregrino!
(Sai Pereg. do gabinete) Que fazias aí?
Peregr.
Preparava o apólogo... o
apólogo que é lição.
Firmino
Ei-los que chegam...
Cena 12ª
Peregr. Firmino, Carlos, Simão, Tomás ,
Teófilo, Fortunato, Estefânia, Teodora, Júlia, Corina, senhoras, cavalheiros.
Teófilo traz uma salva contendo rosas desfolhadas, Corina imensa toalha de
renda, Júlia um manto de renda (ilegível) próprio de senhora.
Teófilo
Eu entrego a pia ao sacristão...
Estef.
Quem é o sacristão?
Teóf.
O mais moço e o mais bonito do sexo masculino: (à Simão) não se adiante que não é o senhor... (à Carlos) É o senhor Carlos.
Simão
(a Pereg) Que homem impertinente! eu não me
adiantei... ele é que parece querer divertir-se comigo!
Carlos
(recebendo a salva) Obedeço: fico sendo sacristão
de bonecas.
Teóf.
Agora o padre à frente: senhor Simão, tenha a bondade de chegar-se...
Simão
(a Pereira ) Isto cheira-me a zombaria... que diz?...
Pereira
(à Simão) Carlos prestou-se logo... não se faça rogado...
Simão
(a Perª ) Com efeito... em todo caso a preferência me distingue... e eu me manifesto. (chega a frente)
Teóf.
Eu o paramento... permita. (toma de Júlia o manto e o põe nos ombros de
Simão) Agora o barrete de cônego: (põe-lhe na cabeça o chapéu roxo de Estef.)
Perfeitamente!... A madrinha a meu lado: estamos prontos. (a Cor.) Tenha V.
Exª. a bondade de ir buscar e de apresentar a menina, como se chama
ela?...
Corina
A madrinha é que o sabe.(entra no gabinete)
Júlia
Esperança...
Teóf.
O cônego tem de fazer um
discurso, e o sacristão de improvisar um soneto...
Carlos
Improvisarei um soneto... Simão
Discurso eu não faço... protesto...
Corina
(da porta do gabinete) A boneca não está no
berço!...
Júlia
A minha boneca!... (corre para o gabinete)
Teodora
Como é isto?... Desapareceu a boneca?...
Carlos
O caso seria romanesco!
Júlia
(saindo aflita) Furtaram a minha boneca!
Corina
(saindo) Sem dúvida que a furtaram... não está
lá!... Vozes Oh! Oh!... (movimento)
Teodora
É incrível!...
Teóf.
Quem ousou roubar a
Esperança? Em nome da beleza e da aflição da madrinha, restituam a
menina!...
Estef.
Ficamos então sem o batizado?...
Júlia
A minha boneca!... Que mau brinquedo!...
Teóf.
(tomando a salva de Carlos) Em falta da menina receba a madrinha o batismo de flores. (senta as flores sobre Júlia)
Júlia
A minha boneca!... (recebendo a chuva de
flores)
Teóf.
Vamos procurá-la por toda parte: eu piano! A
madrinha cantará... a menina roubada há de por força acudir nos milagres da harmonia
e da voz mais terna!...
Júlia
Não poderei cantar!...
Teóf.
Nesse caso faremos corpo de delito e iniciaremos um processo criminal...
demito de cônego ao sr. Simão e o nomeio delegado de polícia... vamos fazer
vingar o império da lei...., vamos... d. Júlia por amor da Esperança...
vamos!... (vão-se todos, menos Firmino e Peregrino)
Firmino
(ao fundo depois de todos se retirarem) Peregrino,
como foi isto?...
Peregrino
(tirando a boneca do bolso e mostrando-a) É o
apólogo, meu pai; por meio de um rapto apodereime da boneca rica... (com
intenção) que ficou no meu bolso.
Firmino
Oh!... O rapto!!!
Fim do 3º ato
Ato 4º
Sala da recepção; portas laterais; porta de
entrada no fundo; janela
Cena 1ª
Firmino, Teodora, Carlos, Júlia; Corina
bordando
Firmino
(a Teodora) A hora se aproxima: não achas
conveniente mandar Corina para dentro? (na frente com Teodora)
Teodora
(a Firmino) Não... não... eu sou mãe e não me
engano: é Júlia que ele ama... e a carta e a visita solene...
Firmino
(a Teodora) Se vier pedir-me Corina, eu lha
negarei, mas seria imprudência que ela estivesse presente... se for Júlia, que
importa a ausência da outra?...
Teodora
(a Firrnino) Ele repararia na ausência... mostrou
interessar-se muito por Corina... pelo menos não é delicado escondê-la...
deixe-mo-lo vir.
Carlos
(a Corina) Há nesse rosto que está bordando
aparências de retrato... creio que conheço um nariz com esse...
Júlia
(a Carlos) E que tens tu com o nariz do bordado de
Corina? Ela tem tanto direito de copiar teu conhecido, como tu de furtar
pensamentos e versos de poetas que lês.
Carlos
Isso é aleive revoltante: na Sociedade Filopoética
tenho reputação de original. (Firmino e Teodora conversam)
Júlia
Mas a tua originalidade é só em composições que não
tem senso comum.
Carlos
Segue-se que as minhas composições poéticas se
parecem muito contigo.
Teodora
Já vocês estão a brigar! Carlos, Júlia é uma
senhora.
Júlia
Mamãe, é preciso que Carlos não publique mais
poesia alguma que não tenha passado pela minha censura; ele se desacredita por
plagiário...
Carlos
Ouve-a?... É uma injúria...
Teodora
Não vês que ela se diverte contigo?... (a Firmino)
Estás enganado...
Firmino
(a Teodora) Verás... é Corina que ele vem pedir-nos
em casamento.
Teodora
(a Firmino) Terás sempre tempo de mandá-la sair;
agora nem temos o recurso ou o pretexto da companhia de nossa velha. É
verdade... (voltando-se) sabem onde foi minha tia, que tanto se demora?...
Corina
Eu não sei.
Firmino
Aposto que subiu ao castelo, se está confessando
com algum frade barbadinho.
Teod.
Talvez: com o júbilo do concílio de Roma
triplicou de devoção e de penitência.
Júlia
E tu já te confessaste, Carlos? Precisas
fazê-lo...
Carlos
Não tenho contas a dar-te, e nem estou para graças:
(tomando o chapéu — à Teodora e Firm.) Eu saio... com licença: vou à sessão do Senado...
Teod.
É melhor; vai.
Júlia
Quem perde com a tua ausência, sou eu, ingrato!
(vai-se Carlos)
Cena 2ª
Firmino e Teodora, na frente; Júlia e Corina sentadas bordando; Firmino e Teodora conversam.
Corina
(a Júlia) Estão a fazer castelos à espera da
visita.
Júlia
(à Corina) Sem Carlos ao pé de mim não posso
dissimular... estou tremendo...
Corina
(a Júlia) Cala a boca.
Júlia
(a Corina) Se meus pais adivinhassem tudo...
Corina
(a Júlia) Pelo amor de Deus!...
Firmino
(a Teodora, abrindo o relógio) Chega a hora...
Corina não devia estar aqui...
Teodora
(a Firmino) Não é natural separá-la de nós: esquece
Corina, e lembra-te de nosso filho.
Júlia
(a Corina) Vamos sair da sala?... Eu sinto frio e
fogo... nem sei que sinto... vamos sair...
Corina
(a Júlia) Não... domina-te... finge-te alheia a
tudo.
Júlia
(a Corina) Como estou nervosa!... É um
tremor...
Firmino
Nervosa?... Que é... com efeito... (tomando-lhe a
mão) trêmula e fria como o gelo. Júlia! estás incomodada?...
Júlia
Não sei papai... foi de repente... sem
causa...
Firmino
Oh! Teodora! Ela não está boa...
Teodora
(trazendo Firmino à frente) Não há de ser nada...
(a Firmino) Que simplicidade a tua! Não vês que Júlia espera por
Teófilo!...
Firmino
(a Teodora) Como os filhos nos enganam!...
(voltando-se) Parou um carro à porta... (indo à porta)
Júlia
(estremecendo e querendo levantar-se) Eu
fujo...
Corina
(a Júlia) Da felicidade, Júlia?...
Cena 3ª
Firmino; Teodora; Júlia; Corina (criado que logo sai) e Teófilo
Criado
O senhor Teófilo de Carvalho. (vai-se) Teóf.
Minha senhora... minhas senhoras... senhor Firmino...
Firmino
Como passou V. Exª.?... tenha a bondade de
sentar-se.
Teóf.
(sentando-se) Profundamente penhorado me confesso pela extrema delicadeza com que V. Exªs se dignaram em receber tão prontamente a minha visita...
Teod.
De nossa parte havia mais do que dever,
gratidão e glória...
Firmino
Estas meninas iam recolher-se, quando V. Exª.
chegou. A retirada de ambas nos deixaria em plena liberdade sem inconveniente
algum, se V. Exª. não ordenar o contrário...
Teóf.
Eu vim somente para ouvir e
obedecer; mas com franqueza, o assunto de que me devo ocupar diz respeito a uma
das duas senhoras, e nem por isso é exigente a ausência da outra.
Firmino
Senhor Teófilo ordena-lhes que fiquem...
Teóf.
Senhor Firmino, minha senhora, tenho a honra
de vir pedir a V. Exªs a srª d. Júlia em
casamento.
Firmino
Júlia?... Oh!...
Teodora
A proposição de V. Exª. nos exalta muito e estou
certa que Júlia sente e pensa como seus pais.
Firmino
Sem a menor dúvida... Júlia, responde...
Teóf.
(a Júlia) Minha senhora...
Teóf.
Fala, menina...
Júlia
Senhor... meus pais responderam por mim.
(trêmula)
Teóf.
Oh!... É mais do que mereço! (beija a mão de
Júlia)
Firmino
Este dia é o mais feliz da minha vida! Devo crer
que o senhor barão do Lago Azul...
Teóf.
Autorizou, aprovou e abençoa a escolha do meu coração.
Teod.
Minha Júlia (abraça-a)
Firmino
Perdoe-me... mas a felicidade tem suas ânsias: nós
nos entregamos ao seu arbítrio... Júlia será sua esposa, é já sua noiva; mas a
mim que sou pai, é lícito perguntar, quando deseja que se realize o seu
casamento...
Teóf.
Por mim eu o quisera amanhã: e quase adia a própria data; tenho porém uma dependência que me pode prender até um ano.
Teod.
Um ano!...
Teóf.
Imprudente compromisso de estudante; eu e um íntimo amigo, com quem fraternizo desde o colégio, ajustamos que se fosse possível, nos casaríamos à mesma hora e na mesma igreja, e que para isso aquele que primeiro contratasse casamento, preveniria o outro, correndo-lhe o dever de esperar um ano para a execução do compromisso.
Firmino
Mas esse amigo... já talvez tenha também
encontrado.
Teóf.
Amou antes de mim; a noiva de sua escolha foi-lhe porém negada.
Firmino
Ah, mas nesse caso...
Teóf.
Ele não desanimou ainda, e confia no seu amor...
Teod.
É da corte o seu amigo?
Teóf.
É; a sua amada não sei;
respeitei o segredo que ele não me revelou espontaneamente: o meu amigo V. Exas
sem dúvida conhecem, é o dr. André de Araújo...
Firmino
Oh!... (emoção de Corina)
Teodora
Senhor Teófilo... o segredo do seu amigo...
Firmino
Sobre este assunto hei de explicar-me com V. Exª.
em particular... e o dr. André de Araújo...
Teóf.
Perdão: não tenho amigo a
quem preze tanto, como ao dr. André; mas o seu projeto de casamento apenas
influi sobre o meu, podendo obrigar-me a esperar até um ano, conforme o nosso
desastrado ajuste. Quanto ao mais sei que André foi reservado comigo e basta
isso para que eu me ocupe exclusivamente da minha felicidade.
Firmino
Aplaudo o seu ótimo juízo; por amor de Júlia,
porém, se o dr. André não pode obter a mão da noiva que desejava, a influência
de sua amizade conseguirá levá-lo a fazer em breves meses, outra e mais
oportunada escolha. (movimento de Corina)
Teóf.
Outra vez perdão: se nem
procuro conhecer-lhe o amor, também não me é lícito combatê-lo. Vou esperar um
século, se d. Júlia quiser esperar-me um ano.
Júlia
E deve ser assim...
Teóf.
A glória que mereci, me embriaga... (levantando-se) O coração pede-me expansões, e almeja mandar longe as suas alegrias.
Teodora
Pois quer deixar-nos já?...
Teóf.
Tenho pressa de felicitar meu pai pela encantadora filha que lhe vou
dar. Despacharei hoje mesmo um próprio. Se me for permitido voltarei freqüentemente...
Firmino
Todos os dias...
Teodora
Não vai ser nosso filho?... Olhe-nos já como sua
família.
Teóf.
E preso para sempre por duas cadeias de
flores, a do amor... e a da gratidão. Minha senhora... (Teodora o abraça) d.
Júlia... (beija-lhe a mão) minha senhora... (aperta a mão de Corina) senhor
Firmino!...
Firmino
Um abraço bem apertado! (abraçam-se, vai-se
Teófilo; Firmino e Teodora o acompanham)
Cena 4ª
Júlia, Corina: Firmino e Teodora que
voltam
Corina
É ou não prata de lei?
Júlia
Prata de lei? É brilhante sem jaça.
Teod.
(abraçando Júlia) Minha filha, Deus ouviu os votos de tua mãe!...
Firmino
E eu? E eu?... Júlia, não tenho um abraço?...
(abraça)
Teod.
É pena somente que não se case já... é pena!...
Firmino
E por causa de um libertino... de um homem que se
diverte a enganar pobres moças com esperanças de casamento que nunca se
realiza!...
Teod.
Conheces de perto esse doutor André?
Firmino
De perto não o quero ver... mas de longe conheço-o
pelos desatinos e costumes desenvoltos...
Teod.
Ah! Então é amizade bem
ruim para Teófilo. (tomando-o à parte) Estás se excedendo... toma
cuidado...
Firmino
(a Teodora) Este embaraço é terrível... devemos
casar Corina antes de oito dias... (conversam com viveza)
Corina
(a Júlia) Que injustiça... que crueldade...
Júlia
(a Corina) Queres ver como faço a minha entrada no
jogo?...
Corina
(a Júlia) Júlia!... Sê discreta.
Júlia
(suspirando) Ai!... Ai!...
Firmino
Júlia... gemeste?...
Júlia
(chegando-se) Papai... eu confesso que não posso
esperar um ano.
Firmino
Com esta contava eu! Menina, isso não é
bonito.
Júlia
É melhor papai entender-se com o sr. Teófilo e com
esse doutor André...
Firmino
Não sabes o que dizes...., tens a cabeça
perdida.
Júlia
Ora... papai talvez conheça a família da moça com
quem o doutor quer casar, e interessando-se por este resolveria tudo em meu
favor...
Firmino
É claro que estou metido em uma roda viva...
Teod.
Júlia, é necessário mostrar juízo...
Júlia
Mamãe, esperar um ano eu não posso. Declaro que não
hei de esperar um ano!!! (com viveza)
Cena 5ª
Firmino, Teodora, Júlia, Corina, e Suzana
muito fatigada
Carlos
Não houve sessão no Senado por falta de quorum; mas
em compensação encontrei a tia Suzana ao chegar em casa.
Júlia
(correndo) Tia Suzana!... Não sabe?... Teod.
Menina!... Menina!...
Firmino
A senhora nos estava dando cuidado...
Suzana
Deixem-me descansar... (senta-se, toda (ilegível))
andei muito! Nem em moça... quando... na quinta-feira de endoenças saía a visitar as igrejas...
Teod.
E onde foi, minha tia?...
Suzana
Deixem-me descansar. (respira descansando)
Júlia
(a Corina) Esquece esse bordado, Corina.
Carlos
Pois ainda trabalha?
Corina
Esquecê-lo? O bordado me faz não sentir as horas
que passam: o que mais gosto de esquecer... é o tempo.
Júlia
Tens razão: o tempo custa muito a passar! E um ano
então!...
Suzana
Ah!... (respirando)
Firmino
Está menos fatigada?... Teod.
Por onde andou?...
Suzana
Andei por [sic] onde me levou o amor do próximo: eu
tenho rezado três noites em relação ao meu sentido, e tenho para mim que foi o
Senhor que me inspirou o que fiz.
Firmino
E é segredo de devoção ou de penitência?...
Suzana
Para que segredos? O que não é justo, não se faça;
o que é justo, faça-se com os olhos em Deus e sem temor dos homens. Corina, vem
cá. (Corina obedece Suzana a achega)
Teod.
Que temos de novo!
Suzana
O doutor André de Araújo e Corina se amam...
Firmino
Se amam?!!!
Corina
Tia Suzana...
Suzana
Firmino, tu negaste a mão de tua pupila ao doutor
André e eu quis convencer-me da justiça dessa recusa: tenho ainda bons amigos
do outro tempo, que receberam em festa a velha Suzana: inquiri a todos, a todos
ouvi...
Firmino
(Severo à Corina) Retire-se para o seu
quarto...
Suzana
(abraçando Corina pela cintura) Não: que mal faz
que ela ouça o que já sabe?
Teod.
Minha tia, que imprudência é essa?...
Suzana
Voltei com os ouvidos cheios de elogios ao doutor
André: não houve boca que não lhe louvasse as virtudes, não achei coração que o
não amasse: como é isso, Firmino?... Além de seus tesouros morais, ele nem pode
ser suspeito de interesseiro, porque não é menos rico do que Corina, e tem as
mãos abertas para dar aos pobres.
Firmino
E quem a convidou a envolver-se neste
assunto?...
Suzana
Os pais de André e de Corina foram amigos: a
afeição dos dois jovens começou na mais pura ligação de suas famílias, e hoje o
amor que os está fazendo sofrer na terra, é sem dúvida abençoado no céu.
Firmino! com que direito impedes a felicidade da tua pupila?...
Firmino
Donde lhe vieram tais informações?... Mas eu estou
vendo... vejo na confusão da hipocrisia...
Suzana
Corina me confessou o seu amor, é verdade: ama um
homem digno dela, o seu tutor devia aplaudir a sua escolha, mas aqui se
premedita um crime de lesa orfandade; tu por Peregrino, Teodora por Carlos, não
quereis que haja fogo santo no altar deste coração inocente!
Firmino
Inocente... ela que engana seu tutor!...
Suzana
Oh! Vocês não imaginam que crimes intentam cometer!
Pensem bem: o despojo recolhido pelo salteador chama-se roubo, porque é tomado
com violência e abuso da força: como se há de chamar a usurpação do dote de uma
pupila tomado por meio de casamento imposto pela violência e pelo abuso da
autoridade do tutor?...
Firmino
Senhora!...
Teod.
Minha tia!...
Suzana
Eu digo que vocês não pensam no que fazem, mas isso
é pecado que brada ao céu!... Oh, faço idéia do que irá por esse mundo com as
desgraçadas pupilas ricas! Quantas mártires! Quantos tutores e mulheres de
tutores que para enriquecer seus filhos, esmagam os corações e lançam para
sempre no abismo da desgraça as míseras órfãs.
Teod.
Minha tia nos ultraja.
Suzana
(em pé) Meu Deus! se não há na terra leis que
tornem impossíveis tais atentados, sede misericordioso, Senhor, com os pais que
morrem esquecidos das suas almas e absolvidos nas aflições do mundo, porque não
haverá pai nem mãe que não morram nesse pecado, deixando filha menor exposta à
opressão e aos tormentos do tutor ambicioso! Perdoai a esses, meu Deus! E
amaldiçoados sejam os tutores que sacrificam as pupilas!
Firmino
(a Teod.) Faze calar tua tia... ou não me contenho
mais.
Suzana
Disse-vos a verdade: refleti no que tendes feito e
tentares fazer: por mim eu me declaro mãe desta menina; mãe no serviço do
Senhor: se atentares contra a liberdade de Corina, a pobre velha sairá para
sempre da casa do crime; saindo, porém, há de ir logo denunciar ao juiz dos
órfãos, ao povo, ao rei o martírio da órfã, e a tirania dos algozes. Teod.
Denunciar-nos!...
Firmino
É uma velha demente...
Suzana
Sou apenas uma triste pecadora, mas temente a Deus
nosso Senhor, o que disse não foi por mal: eu vos amo e padeço pela cegueira
com que vos vejo atirados na perdição: pensai bem no que me ouvistes, meus
filhos!... Agora vou descansar: vem comigo, Corina, vem...
Firmino
Doravante proíbo a Corina a sua companhia.
Suzana
Na minha companhia será sempre honesta e pura: sou
sua mãe no serviço do Senhor: ela há de vir comigo... quero poupa-la às tuas
asperezas... (a Firmino) afasta-te!...
Firmino
(tomando-lhe o passo) Quem manda aqui,
senhora?...
Suzana
(levantando a cabeça) Aqui e em toda parte, acima
de todos... Deus! (comoção: Firmino recua um passo: Suzana passa com
Corina)
Cena 6ª
Firmino: Teod.: Júlia: Carlos
Firmino
Fanática e demente!... E no fanatismo e na demência
a língua desenvolta e envenenada!...
Teod.
Com efeito! Minha tia
sempre foi intratável com os seus escrúpulos e casos de consciência; nunca
porém a vi tão desatinada e insensata!...
Carlos
Insensata!...
Firmino
Tenho-a sofrido muito! E se não fosse a sua velhice
e a minha reputação, despedi-la-ia de nossa casa, provando assim como desprezo
o que ela possui, e que de direito herdaríamos por sua morte...
Despedi-la-ia...
Teod.
Firmino, ela é
irmã de minha mãe...
Firmino
Ao menos não quero que continue a desmoralizar
Corina: recomendo-te que faças cortar todas, absolutamente todas as suas
relações. (passeia agitado)
Carlos
(a Teodora) Minha mãe...
Teod.
Que queres?... Bem vês que devo estar preocupada...
Carlos
Eu também: é por isso que desejava dizer-lhe
já...
Teod.
O que?...
Carlos
Qualquer idéia que tenha havido de casar-me com
Corina, a pupila de meu padrasto, não é mais concebível de hoje em diante.
Teod.
E por que?
Carlos
Porque a tia Suzana disse a verdade.
Firmino
(com aspereza) A verdade?!!!
Júlia
(oferecendo a mão a Carlos que a afasta) Muito bem
Meu irmão! meu Carlos! Acabas de improvisar um belo poema: muito bem...
Firmino
Também tu?...
Júlia
Também: papai, eu o sinto... o que a tia Suzana
disse, caíra-lhe do céu no coração... foi voz de Deus falando pela boca de uma
santa velha... chorei ouvindo-a...
chorei...
Teod.
Tola!
Júlia
Tola?... Papai e mamãe adoram-me: adoram-me tanto
que eu vejo bem que muitas vezes abuso caprichosa. Papai e mamãe vivem por
mim... são felizes com as minhas alegrias doidas... atormentar-se-iam um século
para que eu não padecesse um dia... eu sei... adoram-me.
Teod.
Feiticeira!...
Firmino
Se és um anjo, minha filha!...
Júlia
Façam pois de conta... a idéia é horrível, mas é
força imaginá-la... meu Deus! Perdoai-me a idéia medonha, eu, porém, sou ainda
menor... e papai e mamãe estão ali a morrer... (profundamente comovida) eu, sua
filha querida, em consternação a chorar... a estender os braços... a pedir
compaixão e misericórdia... no pé de mim o tutor que escolheram... papai e
mamãe agonizando abraçados comigo... (chorando) e com os olhos em meu tutor
pedindo amor e piedade para sua filha, depois o horror da morte. Sua filha
querida só no mundo... e depois... o meu tutor oprimindo-me... o meu tutor
atormentando-me... e violentando o meu coração... impondo-me a escravidão de um
casamento forçado. Papai, mamãe... a sua Júlia, a sua filha, o seu anjo a
gemer... a chorar... a padecer... a desejar a morte...
Firmino
(em pranto) Minha filha!...
Teod.
(chorando) Júlia, minha Júlia!...
Carlos
(soluçando) Minha irmã... muito bem!... eu não
brigo mais contigo.
Júlia
Oh!... E Corina?... Papai, mamãe, o pai e a mãe de
Corina que morreram deixando-a só no mundo?... Oh!... Ee o papai e a mamãe de
Corina? (tristíssima)
Teod.
Minha filha, tu és uma santa, que ainda vives
no céu
Carlos
Segue-se que a terra pode parecer o céu com o
cumprimento da lei a paternidade.
Firmino
Mas é preciso viver neste mundo com as condições
deste mundo.
Júlia
Oh, papai!
Firmino
Corina se há de casar com quem deve casar-se.
Teod.
Pensa mais em ti do que em Corina: confia em teu pai que é um tutor
honrado e consciencioso.
Carlos
Ficando entendido que eu estou absolutamente fora
de todo e qualquer projeto de casamento,
Júlia
(Em outro tom e revoltada) E pela minha parte
protesto, que não posso e não hei de esperar um ano.
Teod.
Isto é fora de propósito!...
Júlia
Eu não fico aí: acabo de tomar uma resolução
definitiva.
Firmino
Qual?... Vejamos...
Júlia
É inútil pensar no meu casamento com Teófilo, se
Corina não se casar com o doutor André.
Firmino
Oh! Dir-se-ia uma conspiração geral!... é a guerra
no seio da família... Teodora, livra-me de Júlia.
Teod.
Estás afligindo teu pai; vem, menina. Carlos...
Carlos
Eu vou trabalhar no meu romance. (vão-se os
três)
Cena 7ª
Firmino e Peregrino
Peregrino
(a Firmino que vai entrar no gabinete) Meu
pai.
Firmino
Ah! Peregrino... se soubesses..
Pereg.
Sei tudo já: Teófilo é o noivo de Júlia, e de ajuste com esta e com sua
pupila protege a causa do doutor André e lhe prepara o triunfo.
Firmino
Pensas!... Teófilo...
Pereg.
A maquinação é patente: sei mais que a tia
Suzana impelida por Corina.
Firmino
Quem te informou de tudo?...
Peregr.
Foi Silvia, a criada de Corina, que me está dedicada.
Firmino
Ah! Silvia... contanto que ela não venda também a
outro essa dedicação, que sem dúvida lhe compraste: bem vês que devo desconfiar
de todos... o nosso empenho vai mal, Peregrino...
Peregr.
Sim, meu pai, o dia é sinistro para mim. Simão de Souza fechou-me a
bolsa, e deixei por isso de arrematar hoje dez escravos.
Firmino
Fechou-te a bolsa?... E por quê? Peregr.
Anteontem à noite Corina repeliu, como eu esperava, as suas
pretensões... e... o que foi pior, e ninguém o suspeitaria, minha madrasta provavelmente
com o fim de poupar a seu filho um rival a mais, confessou a Simão de Souza um
segredo revoltante...
Firmino
Qual?...
Peregr.
O de minhas relações de amor com a pupila de
meu pai...
Firmino
É falso! é impossível!... A desonra de
Corina!...
Peregr.
Uma dose de veneno, que só a mim pode
aproveitar: sem o querer minha madrasta me auxilia...
Firmino
Peregrino! Teodora é incapaz dessa infâmia! Simão
de Souza mentiu...
Peregr.
E se além dele mais alguém tivesse recebido a
mesma confidência?...
Firmino
Peregrino... isto é demais... é horrível... minha
mulher é vítima de um aleive perverso...
Peregr.
Tranqüilize-se, meu
pai... creio também que caluniam minha madrasta, cuja inocência há de brilhar a
toda a luz; mas o ardil de Teófilo, a conivência de Júlia, a intervenção da tia
Suzana, esse mesmo aleive perverso que ofende em sua esposa anunciam que a
minha causa está perdida se não a salvarmos
com o extremo recurso.
Firmino
Sempre a idéia do rapto...
Peregr.
É o meio vulgar, mas infalível. (aparece
Teodora)
Firmino
E as conseqüências?
Peregr.
Realizado o rapto, o
casamento com o raptor satisfaz a lei, e a sociedade o sanciona depois de
murmurar alguns dias.
Firmino
E eu?... Nunca pensas no tutor!...
Peregr.
Delineei plano seguro, no qual meu pai fica livre de toda a
responsabilidade...
Cena 8ª
Firmino: Peregrino: e Teodora que tem
parado à porta e vai logo entrar no
gabinete.
Firmino
Com efeito... as circunstâncias urgem, mas eu não
quisera recorrer a esse crime...
Peregr.
Quem recorre sou eu. Meu
pai é vítima da minha traição...
Firmino
Se fosse exeqüível...
Peregr.
O meu plano?... Seguríssimo: eu lho exponho (vai fechar a porta de
entrada depois de observar a do interior)
Firmino
Não tranques a porta: vamos fechar-nos no meu
gabinete.
Peregr.
Tem razão: é mais prudente. (vai-se: aparece
Teodora à porta)
Firmino
Teodora!
Peregrino
(ao mesmo tempo e recuando) Oh!...
Teod.
Um rapto!!
Firmino
Silêncio!... A senhora vai escutar-nos?... Teod.
Eu vinha dizer-te que desisto de todos os meus intentos relativamente a
Carlos e a tua pupila.
Firmino
Melhor: está simplificada a questão. Teod.
Vinha dizer-te que por amor de nossa filha a cujo casamento não devemos
criar embaraços, te cumpre ir já tratar do consórcio de Corina com o amigo de
Teófilo.
Firmino
Ah!... Pois que Carlos se revolta, e te
desobedece...
Teod.
Vinha dizer-te... mas ouvi a palavra rapto e
quis saber tudo: escutei... sim... e o que fiquei sabendo é ignóbil.
Firmino
Teodora!...
Teod.
A madrasta era indigna,
talvez malvada, porque desejava casar o filho com uma jovem rica, e o enteado,
(para Peregrino) e o senhor... é a alma
cândida, santo mártir, quando prepara o plano do rapto da pupila de seu
pai!...
Firmino
Basta... basta...
Teod.
É um homem honesto, tipo de
virtudes, exemplo de pureza, quando premedita a vergonha da própria família, a
difamação da casa paterna...
Firmino
Peregrino... retira-te! (Peregr. imóvel)
Teod.
É um filho modelo que atira às garras da maledicência; — o nome de teu
pai, que faz da desonra de teu pai o fundamento da tua fortuna!
Firmino
Ponhamos termo a esta cena... Teodora!...
Teod.
É um irmão sublime, que, comprometendo o casamento de sua irmã, quer
pela infâmia do rapto arrebatar a riqueza de uma órfã que o despreza!...
Firmino
Senhora!...
Peregr.
Perdão, minha madrasta!
Ao menos cuido em pagar a dívida mais sagrada: ouça-me bem! Testemunhas Simão
de Souza e d. Estefânia: quero regenerar com o casamento, a vítima de minha
sedução, a amante que a senhora me deu na casa de meu pai!
Teodora
(confundida) Oh!
Firmino
Desgraçada!... Que calúnia atroz!!!
Fim do 4º
Ato Ato 5º
a mesma cena do 4º
ato
Cena 1ª
Firmino: Peregrino: e Silvia que logo se
retira
Firmino
Que demora!
Silvia
Eu estava no 2º andar.
Firmino
E Corina?
Silvia
Recolheu-se ao quarto da srª. d. Suzana.
Firmino
Ainda!
Peregr. Procurou a melhor
companhia que pode ter na ausência de minha madrasta.
Firmino
Em todo caso não te afastes do lugar onde ela se
acha, e cumpre as ordens que tens recebido. (entra no gabinete)
Peregr.
Silvia, põe-te a janela, e se minha madrasta chegar antes que eu tenha
saído, corre logo a prevenir-me. Basta que te mostres à porta desta sala.
Silvia
Pode ficar descansado.
Peregr.
Com certeza d. Corina não recebeu hoje carta, nem recado?...
Silvia
Nem recado, nem carta.
Peregr.
Vai para a janela. (vai-se Silvia)
Firmino
(saindo) Paga bem a essa criada: é o único meio de
impedir que ela venda iguais serviços a outro.
Peregr.
Não terá tempo: amanhã
será o dia afortunado, se minha madrasta não se opuser à partida de
Corina.
Firmino
Teodora abateu-se, coitada: parece castigar-se pela
injusta difamação de Corina: já lhe perdoei; perdoa-lhe também: foi devaneio de
mãe.
Peregr.
Aprova ela a retirada da sua pupila para a
chácara de Andaraí?
Firmino
Tanto ela como Corina concordaram nisso desde que
souberam que a tia Suzana vai também para a chácara.
Peregr.
Eis o essencial: o mais é simples.
Firmino
Peregrino, nós nos expomos a um grande opróbrio;
que ao menos o resultado compense o escândalo.
Peregr.
Agora o meu empenho é
salvar meu pai da mais leve suspeita de conivência comigo. Amanhã de manhã
vossa mercê escreverá ao dr. André, marcando-lhe dia e hora para tratar do seu
casamento com a sua pupila, a quem dará a agradável notícia; a retirada para a
chácara explica-se pela conveniência de separar Corina de mim e de Carlos que
pretendíamos a sua mão.
Firmino
E que mais, Peregrino?...
Peregr.
Amanhã vossa mercê procurará o juiz dos órfãos que, sem dúvida, tomará
todas as suas resoluções e principalmente aquela que fará distanciar de seus
filhos a noiva do dr. André.
Firmino
E à tarde levarei Corina e a tia Suzana para a
chácara...
Peregr.
E Silvia e Roberto as acompanharão, ficando
lá a seu serviço e em sua guarda...
Firmino
E tu?...
Peregr.
A chácara é solitária,
meu pai; as noites de junho são longas, e as que estão correndo agora, escuras
e propícias aos ladrões e aos amantes: Silvia e Roberto me estão dedicados; o
seu feitor é criatura minha, e tarde, bem tarde, vossa mercê saberá que um
filho ingrato lhe roubou a pupila.
Firmino
Peregrino!
Peregr.
Tenho tudo pronto, meu
pai: o clorofórmio para o lenço que sufocará os gritos de Corina, e a tornará
por minutos... insensível... a carruagem para fugir; o abrigo ermo e seguro
para ocultarme por alguns dias...
Firmino
Mas se ela morresse... se involuntariamente a
matasses com a perigosa aplicação de clorofórmio...
Peregr.
Que receio inconseqüente!... Não vê que eu tenho necessidade de Corina
viva?... Sei o que vou fazer.
Firmino
Tu nem calculas com a desesperada resistência da
vítima!...
Peregr.
Meu pai... amanhã à noite eu me despedirei,
ressentido de vossa mercê, recusando o seu desamor e revoltando-me contra a sua
autoridade: naturalmente o sr. Teófilo estará aqui, e será testemunha da minha
desobediência e ingratidão: um filho tão mau... um filho que desacata seu
pai...
Firmino
Que queres dizer?...
Peregr.
Digo que tudo está calculado por mim, e que vossa mercê deve poupar-me
às explicações. Eu vou ser opressor... algoz durante alguns dias para ser feliz,
rico e esposo estremecido toda minha vida.
Firmino
Oh, meu filho... deveras que planejamos um crime...
sim... o mundo, porém, aí está erigindo altares ao ouro... a sociedade aí está
honrando, purificando a riqueza ainda mesmo provinda de fontes turvas e
lodosas... e escarnecendo da pobreza ou pelo menos, aviltando-a como o
desvalimento do homem de honra que é pobre... Peregrino, o teu casamento lavará
a nódoa... vou... não hesito mais... vai... mas lembra-te bem: nestes casos
extremos há só um crime que é imperdoável...
Peregr.
Qual?
Firmino
O malograr-se o atentado.
Peregr.
Posso contar com meu pai?...
Firmino
Farei tudo por ti.
Peregr.
Corina será sua nora.
(beija a mão de Firmino)
Firmino
Julgas que desde hoje devo mostrar-me favorável ao
dr. André?
Peregr.
Não, meu pai; só amanhã: é preciso não dar
tempo nem aos assomos da esperança. (Silvia chega à frente e faz-se sentar,
tossindo) Ah, chega minha madrasta: sairei sem que ela me veja. (vai-se)
Firmino
Silvia! (aparece Silvia) A senhora já
entrou?...
Silvia
Entraram todos pelo jardim, onde passeiam.
Firmino
Todos quem?
Silvia
A senhora e seus filhos e o sr. Teófilo.
Firmino
Ah!... Teófilo... vou encontrá-lo...
Cena 2ª
Silvia; Suzana e Corina
Suzana
Já chegaram?... eu ouvi a voz de Júlia...
Silvia
Estão no jardim.
Suzana
Queres descer ao jardim, Corina?...
Corina
Para que, tia Suzana?... Esperemo-los aqui...
Cena 3ª
Suzana: Corina: Teodora: Silvia que se
retira
Teodora
Tia Suzana! Adeus Corina: (tirando o chapéu e a
manta) você guarda [sic] isto (a Silvia que vaise), passei pelo seu quarto, tia
Suzana... (ansiosa)
Suzana
Saímos dele agora mesmo...
Teod.
Escutam:
tia Suzana, eu imponho segredo: se falar, me fará mal: Corina será discreta: é
de seu interesse.
Corina
Meu Deus!
Teod. Resistam, oponham-se à
partida para a chácara do Andaraí... não vão... resistam...
Suzana
Por que?...
Teod.
Peregrino, o meu nobre
enteado preparou um plano para o rapto de Corina... e este desterro para a
chácara isolada... deserta...
Corina
(abraçando-se com Suzana) Oh!
Suzana
E Firmino?
Teod.
É pai e ambicioso, como sou
mãe, e fui má: não tenho o direito de acusá-lo... perdão para ambos!... e
agora...
Suzana
Agora é o crime que provocou a vingança do
senhor!...
Teod.
Silêncio, minha tia; façam o que disse:
resistam ambas: não vão para a chácara... mas... segredo: volte para o seu quarto e leve consigo
Corina... depressa... não me convém que
nos achem conversando...
Suzana
Por que tem medo de fazer o bem?...
Teod.
Oh! depois direi, confessarei tudo: retirem-se... depressa... já sinto
passos. Deixem-me só...
Corina
Tia Suzana! vamos... (levando-a)
Suzana
(indo e apontando para Teod.) Ali também há pecado,
Corina!... (vão-se)
Teod.
(caindo em uma cadeira) Ah!... (levanta-se
risonha à chegada dos que entram)
Cena 3ª
Teodora: Júlia: Teóf.: Carlos: Firmino
Firmino
(a Teodora) Eu saí por uma porta e tu entraste por
outra.
Teod.
A procurar-me?... Foi o que me aconteceu,
procurando-te: quando entrei por uma porta, tinhas saído pela outra.
Firmino
Ao menos voltaram mais cedo do que eu esperava e
com o melhor dos nossos amigos.
Teod.
E apanhado por feliz acaso: está escrito que Júlia é a mais ditosa das criaturas. (sentam-se)
Júlia
Nem tanto; pois que a minha companhia não pode vencer de todo a preocupação amarga do senhor Teófilo.
Teóf.
Eu protesto: trazia sobre o coração o peso de grande desgosto e quase
que o esqueci, achando-me a seu lado...
Júlia
Devo perdoar-lhe o quase?...
Teóf.
Deve; porque o desgosto era profundo, e o seu prestígio fez-me
alegre...
Júlia
Oh, não! O seu olhar e a sua voz foram os bálsamos
milagrosos que me curaram a ferida: a sua virtude e consolação angélica que me
afoga a lembrança de uma ação indigna de um atentado horrível, que embora me
sejam estranhos, abriga a minha reprovação e o meu aborrecimento.
Firmino
Um segredo?...
Teóf.
Que não é meu, e que posso
docemente esquecê-lo aqui.
Firmino
Santas palavras! Janta hoje conosco?
Júlia
Janta, sim: e eu hei de obrigá-lo a não pensar mais
nesse ruim segredo: serei capaz de conseguílo?
Teóf.
Pergunta se pode fazer o
milagre depois de tê-lo feito? O que de resto me preocupa é o meio de vê-la
aflita por sua vez.
Júlia
Como? Por que?...
Teóf.
Porque se chegar a saber do que se sabe, há de revoltar-se ainda mais do que eu...
Teod.
Algum fato escandaloso...
Júlia
Nada há de triste ou de desairoso que possa ter
comigo relação...
Teóf.
Oh, certamente; mas os corações generosos
choram os males, os martírios alheios como se fossem próprios.
Júlia
Os martírios!!!
Cena 4ª
Teod: Júlia: Firmino: Carlos: Teófilo: e um
criado que traz uma carta
Criado
Pelo correio urbano uma carta para sr.ª Suzana.
(Teófilo e Júlia conversam)
Teod.
Uma carta para minha tia!... Que
novidade!...
Firmino
(tomando a carta e a Teodora) Não conheço a letra
do subscrito.
Teod.
Nem eu.
Firmino
(a Teod.) Desconfio desta carta: não a devemos
entregar.
Teod.
(a Firmino) Cuidado! Teófilo está presente e
talvez nos observe... não seria bonito...
Firmino
(ao criado) Leva a carta à sr.ª d. Suzana. (vai-se
o criado) É a primeira vez que a nossa velha tia recebe carta pelo correio... o
fato nos tornou curiosos.
Teóf.
Ah!
Carlos
D. Corina será a primeira a ler a carta; porque
sempre que se acha com a tia Suzana é a sua leitora obrigada.
Teóf.
Então d. Corina vive confinada aos cuidados da sr.ª d. Suzana?
Teod.
Apenas quando saímos sem ela: fora desses casos vive sempre com Júlia, de quem nunca se separa.
Teóf.
Perdão... escapou-me uma pergunta
indiscreta.
Firmino
Oh, não houve indiscrição... (conversa com
Teodora)
Júlia
Pergunte-me tudo: desejo e estimo que conheça toda
a nossa vida.
Teóf.
(baixo) Deveras d. Corina é aqui sua
companheira inseparável?
Júlia
De dia sempre juntas estudando ou brincando; à
noite dormimos na mesma sala.
Teóf.
E que pensa de d. Corina?...
Júlia
É tão bonita, como boa.
Teóf.
(baixo e sério) Em tudo soa igual?
Júlia
(estremecendo de leve) Senhor! Tão pura como
eu.
Corina
(dentro, grito pungente) Oh!...
Júlia
Um grito de Corina!... (em pé) Teod.
Que será?... (querendo ir)
Firmino
Vamos ver... (indo)
Cena 5ª
Teodora - Júlia - Firmino - Carlos -
Teófilo - Corina e Suzana que a segue
tendo na mão uma carta aberta
Corina
(Em desespero e pranto) Justiça de Deus!... Oh...
justiça!...
Firmino
Teodora
Carlos
Júlia
Que é?...
Corina
É o horror... a infâmia! (vendo Teóf.) Oh!...
Senhor Teófilo, é falso, é falso é falso... (afoga-se em pranto)
Firmino
(a Suzana) Que foi isto?...
Suzana
A serpente da calúnia mordeu-a no seio
virginal.
Firmino
Minha filha!...
Suzana
Não é sua filha, é sua vítima!
Teod.
Minha tia, não estamos sós...
Suzana
Que todos me ouçam! Esta inocente menina é uma
vítima, para quem dois abismos estão cavados pelo crime: um deles se preparava
na chácara maldita, para onde não irei, nem ela irá...
Firmino
Senhora... senhora...
Suzana
O outro é a difamação aleivosa, com que para
arredar o mancebo honesto que o céu lhe destina para esposo atacam, despedaçam
o seu crédito, e com a mais vil calúnia ultrajam a sua pureza!...
Júlia
Corina!... A pureza de um anjo. (abraça
Corina)
Firmino
Senhor Teófilo, não posso explicar o que diz esta
senhora... sou alheio a tudo... minha pupila está consternada: enquanto me
informo do que se passa, ela vai recolher-se ao seu quarto.
Teóf.
Não, senhor Firmino; o assunto é gravíssimo:
trata-se da honra de sua pupila, e ela deve estar presente ao processo e à
sentença. Aquela carta é do doutor André de Araújo que nela expôs à protetora
de d. Corina horríveis informações que recebeu hoje em outra carta
anônima.
Firmino
(tomando a carta da mão de Suzana) Quero ver...
(lê) Corina... amante de Peregrino!... Oh!... como isto é inf... (encarando
Teodora) Eu juro que é falso!
Júlia
(com veemência) Que aleive infernal! Que
perversidade!... Veja, minha mãe! Veja aquela carta!...
Teodora
(luta íntima) Já sei tudo... delírio de
ambição...
Júlia
Perversidade!... veja!...
Teodora
Oh, minha filha... sim... perversidade...
perversidade... e castigo de Deus!... (Senta-se à mesa e escreve agitada duas
cartas)
Suzana
Mas a honra de Corina?... Quem a caluniou?... Quem
lhe arma traição? É preciso tudo patente e claro, ou eu sairei à rua, e
bradarei pela justiça da terra!
Carlos
Sim; porque eu também maldigo do caluniador e quero
minha reputação ilesa: qual é o crime que se preparava na chácara?... Devo
saber...
Firmino
É inútil e imprudente explorar seguidos sinistros,
ou suspeitas indecorosas: a partida para a chácara não se efetuará: deixemos isso de parte... está acabado: já
tenho confusão e vergonha de sobra...
Teóf.
Sim; esqueçamos o mistério
da chácara: seja o que for, esqueçamo-lo pelo brio da família a que vou
pertencer; a carta anônima, porém, compromete o nome e a honra de uma donzela
inocente... ei-la em torturas de aflição...
Júlia
Minha Corina! Minha irmã...
Suzana
Cada tormento da inocência vale uma coroa no céu.
Levanta a cabeça menina!
Corina
Quando minha mãe morreu, eu tinha seis anos: ela me
chamou para junto de si... olhou-me... disse chorando: “pobre mártir”... e em
um beijo — o último — exalou a vida nos meus lábios. Quando meu pai morreu, eu
tinha dez anos... em seu agonizar... ( a Firmino) o senhor estava lá... ele lhe
disse: —seja-lhe pai, meu amigo! Lembra-se?... Depois encostando a cabeça no
meu seio... murmurou quase já sem voz —coitadinha! — e... (em pranto) adeus,
meu pai... adeus, meu pai!...
Júlia
Corina!... (chorando)
Corina
Palavras proféticas de minha mãe e de meu pai:
previram na hora da morte: — pobre mártir, coitadinha — eis o que sou. (Júlia
abraça-a)
Teodora
(da mesa) Carlos! (Carlos chega-se) Por todo o amor
que me deves, por compaixão ao menos, vai a correr e entrega estas duas
cartas... depressa... tu sabes onde... aí vai indicado no sobrescrito de ambas:
uma no escritório comercial: a outra é para Estefânia: corre, meu filho; eu te
peço que corras.
Carlos
Sim, minha mãe... seja o que for... devo correr.
(vai-se)
Teod.
(à Corina, pondo-lhe a mão no ombro) Corina!... Tu és inocente e casta, como Júlia! A calúnia será destruída...
Teóf.
D. Corina, tranquilize-se: ninguém crê nessa aleivosia satânica; ninguém
a ofenderia com uma suspeita, ou eu faria ajoelhar a seus pés o miserável
ofensor.
Corina
(levantando a cabeça) Mas a aleivosia feriu a
triste órfã; e que ela diga mil vezes — é falso — a malícia de uns... a simples
dúvida de outros, abafadas, embora no silêncio, estarão sempre a procurar a
mancha negra no véu branco da donzela... oh!... Uma pobre menina que já não tem
pai, nem mãe, devia ser objeto da compaixão de todos!... Como é que me
assassinam assim!...
Firmino
Corina... minha filha...
Corina
(forte) Sua filha?... E a minha reputação?...
Oh!... Tome para seu filho toda a riqueza que meus pais me deixaram; mas eu
quero insuspeita a minha honra: eu quero!... Meu tutor! A honra da sua
pupila?... Amigo suposto de meu pai! A honra da filha do seu amigo?... Meu
Deus!... (com desespero) A minha pureza aos olhos do mundo?... Eu sou
inocente!... Sou inocente!...
Cena 6ª
Teodora - Júlia - Corina - Suzana - Teófilo -Firmino - Criado que logo se retira - e André
Criado
O senhor doutor André de Araújo pede para ser
recebido. (sensação geral)
Corina
Oh! (cobrindo o rosto com as mãos)
Firmino
Dá-lhe entrada.
Suzana
(à Corina, apertando-lhe as mãos) Filha! Tem
fé!...
Criado
(da porta) O senhor doutor André de Araújo. (vai-se
—cumprimento geral)
Firmino
Tenha V.S.ª a bondade de sentar-se. André
V.S.ª me desculpe: sou um cavalheiro que profundamente ofendido vem dar
e exigir contas.
Firmino
Exigir?...
André
Amo sua pupila e por ela
autorizado, pedi-lha em casamento: V.S.ª negou-ma: não quero esclarecer o
motivo; sou, porém, tão conhecido e, direi, tão estimado nesta capital, que
ter-me-ia sido fácil obrigá-lo a sujeitar-se ao que me recusou.
Firmino
Senhor doutor...
André
Não quis fazê-lo: confiando
plenamente na senhora que amo, preferi esperar a expô-la e exporme às
discussões públicas sobre a noiva em depósito e o casamento com intervenção da
autoridade. Eu desejava receber minha esposa no altar, sem notoriedade de
oposição e de contendas; para que não atacasse de leve nem o mais rápido olhar
de reparo injustamente malicioso. V.S.ª me obrigou ao contrário.
Firmino
Tutor de Corina, só darei ao juiz dos órfãos contas
do meu proceder, enquanto ela for solteira, e de sua fortuna a seu marido logo
que se case. Não tenho a honra de ver em V.S.ª nem juiz, nem marido.
André
Venho da casa do juiz dos órfãos que condenando a recusa, com que V.S.ª
me repeliu, ofereceume toda ação da sua autoridade e nem para isso precisei
mostrar-lhe o que o meu amor e o santo pudor de sua honestíssima pupila
impunham-me o dever de ocultar. V.S.ª sabe o que é...
Firmino
Mas ignoro ainda o fim da acerba visita de
V.S.ª
André
Exigir explicações desta carta anônima, caluniosa e malvada que hoje recebi. (apresenta a carta) Tenha a bondade de lê-la! V.S.ª, como tutor, tem obrigação de destruir torpes falsidades e de vingar a honra ultrajada da sua pupila. Senhor Firmino! Vim pedir-lhe... quero o nome do difamador aleivoso... quero-o! porque em falta do tutor... eu, o noivo de Corina, tenho o direito e o dever de punir o miserável...
Teóf.
André!...
Firmino
V. Sª. certamente não teve a idéia de referir-se a
mim, quando pronunciou as palavras difamador e miserável...
Teóf.
É preciso não esquecer que ele ama d. Corina, e que o seu coração deve estar abrasado de cólera... André! André!...
André
(a Firmino) Eu não estaria
falando a V.S.ª se o julgasse autor desta afronta: as culpas do tutor são
grandes... mas são outras: tenha a bondade de ler. (apresenta a carta)
Firmino
Uma carta anônima rasga-se e despreza-se.
André
Mas eu li esta carta, senhor! V.S.ª deve lê-la também! Ela mancha a sua
casa... traz uma nódoa para a sua família... deve lê-la...
Firmino
V.S.ª tem necessidade de acalmar-se: quero ceder...
lerei este vergonhoso escrito. (recebe a carta e lê: Teóf. procura sossegar
André: comoção geral)
Cena 7ª
Teodora - Júlia - Corina - Suzana - Teófilo - Firmino - André e Peregrino
Peregrino
(indo a Júlia) Que é isto aqui por casa?
Júlia
(a Pereg.) Começo a crer que é a providência que
vai entrar nela.
Peregr.
(a Júlia) A providência? Não conheço tal
senhora.
Júlia
(a Pereg.) Pois talvez tenhas de sentir que ela te
conhece.
Firmino
(rasgando a carta) É uma falsidade indigna que,
despedaçada pelo desprezo, o meu criado varrerá do chão.
André
Mas eu não posso prescindir do nome e da confissão do caluniador!...
Cena 8ª
Teodora - Júlia - Corina - Suzana - Teófilo
- Firmino - André - Peregrino - Carlos -
Estefânia e Simão de Souza
Carlos
E ei-los aqui minha mãe.
Teodora
(correndo a porta) Bem-vindos sejam! (toma as mãos
de Estef. e Simão, vem com eles à frente) Senhor doutor André de Araújo, quer o
nome e a confissão do caluniador?... (ajoelha-se) a caluniadora fui eu! Mas que
castigo! Meu filho, sem o pensar, maldisse de mim; minha filha, sem o pensar,
chamou-me perversa! (comoção dos filhos) Deus puniu a mãe com a sentença dos
filhos!...
Estef.
Teodora... eu não compreendo... Simão
E eu ainda menos...
Teodora
Com o fim de arredar pretendentes de Corina, a quem
eu por vil ambição destinava para a esposa de meu filho, disse em pérfido
segredo a Estefânia e ao sr. Simão de Souza que essa aliás, virtuosa donzela,
entretinha relações secretas... era... oh!...perdão!... Estefânia! Senhor Simão
de Souza! Eu menti!... caluniei a pupila do meu marido!... Perdão... oh... e
tu, Corina, pelo amor de Deus, perdão...
(chorando)
Corina
(Correndo a ela) Minha mãe... eu lhe perdôo e a
amo!... (abraça Teod - Carlos e Júlia vão levantar Teod: Carlos beija a mão de
Corina)
Firmino
Basta, Teodora.
Teodora
Não: confessei o meu crime; não carregarei, porém,
com o de outrem. Eu não fui autora da carta anônima, em que se explorou a minha
calúnia; não fui: juro-o!... André Quem foi então o desgraçado?...
Carlos
(olhando Peregr) Se ele está presente, e não ousa
declarar-se, é muito infame!... (confusão de Peregrino)
Teodora
(com os olhos em Peregrino) É muito infame!
Corina
(voltando o rosto com desprezo) É muito
infame!...
André
(olhando Peregr.) Por minha voz... é muito infame!... (silêncio) Segue-se que o criminoso não nos ouve; porque o último dos homens saberia responder à provocação que lhe atiro ao rosto, como se fosse uma bofetada!...
Peregr.
(Trêmulo e furioso) Meu pai... o insulto é a
mim...
Firmino
(a Peregrino) Sim... é... mas, se não sabes
matar... sabes morrer, ou abisma-te na terra... sai!... Retira-te! (vai-se
Peregrino)
André
(vendo Peregrino sair) Senhor Firmino, estou
satisfeito.
Firmino
Eu não o estou: Corina é sua noiva: a solene
confissão de minha mulher lavou-a da nódoa do aleive; mas a carta anônima,
ignóbil, embora, foi escrita por meu filho, e os insultos e a bofetada que o
senhor lhe atirou ao rosto, aqui estão queimando a face do pai! O tutor
cedeu...., o homem revoltou-se, o pai exige desafronta...
Suzana
Perdão a todos em nome de Deus!...
Teóf.
André, meu amigo!...
Corina
André!...
André
Peço ao pai que me desculpe das injúrias que dirigi ao filho... esqueçamos tudo... (oferece a mão a Firmino)
Teod.
Firmino, fomos tão culpados!... (Firmino
imóvel)
Júlia
Meu pai, o esquecimento do passado é o futuro cheio
de flores para a sua Júlia.
Teóf.
Senhor Firmino...
Suzana
És tu, Firmino, que precisas tanto do perdão e da
misericórdia do Senhor!...
Firmino
É assim: foi a providência que me castigou em meu
filho... senhor doutor... perdoe-nos todos. (dá a mão a André que a
aperta)
Júlia
(correndo a Corina) Corina! (abraça-a) Portanto não
tenho de esperar um ano! Papai; é claro que tudo acabou o melhor possível!
Fim da Comédia
BRASIL. Domínio Público. Uma Pupila Rica (Joaquim Manuel de Macedo). Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2087 . Acesso em: 08 jan. 2026.