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#Contos#Literatura Brasileira

Nelson

Por Mário de Andrade (1943)

Mário de Andrade (1893–1945), figura central do Modernismo brasileiro, constrói em “Nelson” um enigmático frequentador de bar cuja vida é reconstituída pelos comentários e conjecturas de quatro rapazes. O conto explora a curiosidade, a fofoca e a impossibilidade de conhecer plenamente o outro, contrapondo realidade e imaginação. Escrito em 1943, foi publicado postumamente em Contos novos, em 1947.

— Você conhece?

— Eu não, mas contaram ao Basílio o caso dele.

O indivíduo chamava a atenção mesmo, embora não mostrasse nada de berrantemente extraordinário. Tinha um ar esquisito, ar antigo, que talvez lhe viesse da roupa mal talhada. Mas que por certo derivava da cara também, encardida, de uma palidez absurda, quase artificial, como a cara enfarinhada dos palhaços. Olhos pequenos, claros, à flor da pele, quase que apenas aquela mancha cinzenta, vaga, meio desaparecendo na brancura sem sombra do rosto.

Deu uma olhadela disfarçada, bem de tímido, assuntando o ambiente mal iluminado do bar. Ainda hesitou, numa leve ondulação de recuo, mas acabou indo sentar no outro lado da sala vazia. Percebeu se acalmar e depôs as duas mãos, uma agarrando a outra, sobre a toalha. Mas como se arrependeu de mostrá-las, retirou-as rápido pra debaixo da mesa. Se lembrou de repente que não tirara o chapéu, estremeceu, quis sorrir, disfarçando a encabulação. Mas corou muito, tirou num gesto brusco o chapéu, escondeu-o no banco em que sentara, ao mesmo tempo que lançava novo olhar furtivo, muito angustiado, meio implorante, aos rapazes. E estes fingiram que não o examinavam mais, envergonhados da curiosidade.

— Não parece brasileiro...

— Diz-que é. Mora só, numa daquelas casinhas térreas da alameda do Triunfo, perto de mim. Ele mesmo faz a comida dele...

Parou, gozando o interesse que causava. Era desses vaidosos que não contam sem martirizar o ouvinte com pausas de efeito, perguntas de adivinhação, detalhes sem eira nem beira. Continuou: — “Vocês todos sabem onde que ele faz as compras dele!...” Nova pausa. Os rapazes se mexeram impacientes. Um arrancou:

— Você garante que ele é brasileiro, enfim você sabe ou não sabe alguma coisa sobre ele!

— Eu sei a história dele completinha!... — Olhou lento, imperial os três amigos. Sorriu. — Mas, puxa! que lerdeza de vocês!... Eu disse que ele mora no Triunfo, pertinho de mim ... Então vocês não são capazes de imaginar onde ele compra as coisas!...

— Ora, desembucha logo, Alfredo! que diabo de mania essa!...

Diva passava levando dois duplos escuros. Era visível que ambos pertenciam ao desconhecido, pois não havia mais ninguém no bar. Recebendo os duplos o homem ficou envergonhado, tornou a corar forte, mandando outro olho de relance aos rapazes. Falou qualquer coisa à garçonette que ficou esperando. Então ele emborcou o primeiro chope com sofreguidão, bebeu tudo duma vez só, entregando o copo à moça. E Diva se retirou, sorrindo ao “muito obrigado”quente que o homem lhe dizia.

Os rapazes voltavam pensativos aos seus chopes, o desconhecido era de fato um sujeito extravagante... Alfredo aproveitou a preocupação de todos, pra retomar importância. Mas agora “desembucha” mais rápido.

— Pois ele compra tudo no Basílio, e o Basílio é que sabe a história dele bem. Põe tamanha confiança no vendeiro que até pede pra ele fazer compra na cidade, camisa, roupa de baixo... Diz-que foi até bastante rico. Ele é de Mato Grosso, possuía uma fazenda de criar no sul do Estado, não tinha parente nenhum depois que a mãe morreu. De vez em quando atravessava a fronteira que ficava ali mesmo, dava uma chegada em Assunção que é a capital do Paraguai...

— Não sabia! pensei que era Campinas!

— ... ia lá só pra farrear, vivendo naquele jejum da fazenda... — Achou graça em si mesmo e quis tirar mais efeito: — Em Assunção desjejuava a valer. Mas um dia acabou trazendo uma paraguaia pra fazenda, com ele. Era uma moça lindíssima e ele tinha paixão por ela, dava tudo pra ela. Trabalhava e era pra ela; ia na cidade por um dia, imaginem pra que!... voltava carregado de presentes muito caros. Mesmo na fazenda ela só arrastava seda. Mas que ela merecesse, merecia porque também gostava muito dele e os dois viviam naquele amor. Mas a maior besteira dele, isso dava um doce se vocês imaginassem.

Quis parar, mas um dos companheiros percebendo asperejou irritado:

— Não dê o doce, e continue, Alfredo!

— Pois acabou passando a fazenda com gado e tudo e ainda umas casa que tinha em Cuiabá, passou tudo para o nome dela, porque ela já fizera operação, mocinha, e não podia ter filho que herdasse. Não sei se vocês sabem:... mesmo casada no juiz, se não tivesse filho e ele morresse, ela não herdava um isto. E agora é que estou vendo que o Basílio não me informou se eles eram casados, amanhã mesmo vou saber...

— Mas... me diga uma coisa, Alfredo: isso interessa pro caso!



(continua...)

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