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#Poemas em verso#Literatura Portuguesa

Não tenho pressa. Pressa de quê?

Por Fernando Pessoa (1919)

Este texto faz parte dos "Poemas Inconjuntos" (escritos entre 1913 e 1930), conjunto que reúne a produção dispersa de Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa.

Não tenho pressa. Pressa de quê?
Não têm pressa o sol e a lua: estão certos.
Ter pressa é crer que a gente fosse adiante das pernas,
Ou que, dando um pulo, salte por cima da sombra.
Não; não sei ter pressa.
Se estendo o braço, chego exatamente onde o meu braço chega —
Nem um centímetro mais longe.
Toco só onde toco, não onde penso.
Só me posso sentar onde estou.

E isto faz rir como todas as verdades absolutamente verdadeiras,
Mas o que faz rir a valer é que nós pensamos sempre noutra cousa,
E vivemos vadios da nossa realidade.
E estamos sempre fora dela porque estamos aqui.

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