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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

— Ainda não te posso dizer; mas descansa, no destino que lhe vou dar, não arriscas um vintém... os próprios juros ser­te­ão restituídos religiosamente. É uma questão toda de confiança...

— Bem! já não digo mais nada.

— Amanhã mesmo te darei os documentos da dívida.

— Como quiseres...

E passaram a conversar sobre outros assuntos.

— Quando partimos?... perguntou Gabriel.

— Para o mês que vêm, naturalmente. Tenho ainda que providenciar sobre muitas cousas; é preciso acomodar a velha Benedita, encarregar algum colega de certos doentes, tratar de uma infinidade de maçadas. Felizmente o Gustavo não me dá o mínimo cuidado.

— Esse nem sequer tira o chapéu quando me vê. Um doido!

— Não é por mal, contradisse Gaspar. Tu é que te não devias incomodar com isso! Ele é um bom moço... tem caráter e tem talento.

— O que, homem? Sabes lá o que ele diz de nós?

— Não há de ser tanto assim...

— Chamou­nos basbaques, em presença de quem o quis ouvir; disse que tanto eu, como tu, éramos duas crianças, dois tipos românticos, que vivíamos na lua!

— E olha que disse meia verdade, respondeu Gaspar, depois de uma pausa; porque, no fim de contas, as circunstâncias especiais da existência, de qualquer de nós dois, nos puseram fora do alcance das forças práticas da vida comum e das leis reguladoras da sociedade. Hoje mesmo, que estou velho e vejo o mundo por um prisma bem diverso; hoje, que tenho o raciocínio já apuradop ela experiência, ainda me sinto dominado todavia pela corrente romanesca em que nasci, e na qual palpitou a minha inútil juventude. Tu vieste depois, é certo, mas nunca viveste no teu tempo, nunca dependestes dos homens para os conheceres; nunca foste oprimido, para poderes ter perfeita compreensão da justiça; nunca sofreste misérias, em luta pela existência, para poderes formar idéia justa da verdade. E, nessas condições, sem um lugar entre os homens, sem parentes, sem responsabilidade e sem amor, vivendo às cegas, iludido, explorado e desestimado, não pudeste compreender o mundo que te cercava, e tiveste de voltar as vistas e a atividade dos teus sentimentos para o passado. Esse passado era tua mãe e sou eu; isto é, era o romantismo no seu maior desvario. E aí tens como nunca chegaste a compreender, meu pobre Gabriel, a época em que tens vivido!

Gustavo, entretanto, prosseguiu o médico, é um produto de elementos inteiramente contrários aos que determinaram o teu caráter e o teu temperamento; há entre vocês proporção de idade e relação mesológica, mas absoluta incompatibilidade no modo de ver as cousas. Formam os dois uma medalha, cujos lados, apesar de juntos, nunca se poderão unir. E, se quisermos determinar qual dos dois lados da medalha é o direito e qual o avesso, não o conseguiremos, porque ambos são legítimos e lógicos, e ambos têm a sua razão de ser. Foi por isso que jamais conseguimos a amizade e a confiança de Gustavo. O presente desconfia sempre do passado, e nunca o toma a sério. Gustavo revoltou­se contra nós, porque o seu espírito moderno, frio e observador, tendia fatalmente a reagir contra nossa abstração idealista, que nos levava à contemplação e ao êxtase. O moço pobre, trabalhador e independente, não podia suportar a nossa tristeza e a nossa concentração. Para ele somos simplesmente ridículos mas a verdade é que somos, nós dois, por processos diversos, igualmente atrasados; eu, porque me deixei estacionar, e tu, por um simples fenômeno de educação e de hereditariedade.

Gabriel atirado indolentemente na sua poltrona, ouvia as palavras do padrasto, quase sem as compreender. Era a primeira vez que lhe arrastavam o espírito a semelhantes considerações; nunca até aí cogitara dos elementos que determinaram a sua farta existência, e nunca se lembrara de prestar contas dos seus raciocínios. Havia aceitado a vida, sem indagar donde ela vinha, nem para onde se encaminhava. Um dia deu por si no mundo, reparou que era rico e bem parecido; tinha dinheiro e saúde... Era gozar! Que lhe importava o resto? A fortuna chegara­lhe às mãos como uma carta anônima, e ele nem sequer agradecia, porque não tinha a quem dirigir os seus agradecimentos. As circunstâncias do meio, da educação e da hereditariedade fizeram­no pueril e romântico, e ele de braços cruzados aceitou essa imposição, como quem aceita uma fatalidade orgânica. Não reagiu contra ela, como não reagiria contra o seu sexo, se nascesse mulher.

Eis, porém, que agora Gaspar, para o obrigar a ver claro, lhe torcia o olhar para a frente.

(continua...)

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