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#Romances#Literatura Brasileira

O Guarani

Por José de Alencar (1857)

Álvaro, recostado da parte de fora a uma das janelas da casa, pensava em Isabel. 

Sua alma lutava ainda, mas já sem força, contra o amor ardente e profundo que o dominava; procurava iludir-se, mas a sua razão não o permitia. 

Conhecia que amava Isabel, e que a amava como nunca tinha amado Cecília; a afeição calma e serena de outrora fora substituída pela paixão abrasadora. 

Seu nobre coração revoltava-se contra essa verdade; mas a vontade era impotente contra o amor; não podia mais arrancá-lo do seu seio; não o desejava mesmo. 

Álvaro sofria; o que dissera na véspera a Isabel era realmente o que sentia; não se exagerara; no dia em que deixasse de amar Cecília e fosse infiel à promessa feita a D. Antônio, se condenaria como um homem sem honra e sem lealdade. 

Consolava-o a idéia de que a situação em que se achavam não podia durar muito; pouco tardava que exaustos, enfraquecidos, sucumbissem à força dos inimigos que os atacavam. 

Então nos momentos extremos, à borda do túmulo, quando a morte o tivesse já desligado da terra, poderia com o último suspiro balbuciar a primeira palavra do seu amor: poderia confessar a Isabel que a amava. 

Até então lutaria. 

Nisto Peri chegou-se e tocou-lhe no ombro: 

— Peri parte. 

— Para onde? 

— Para longe. 

— Que vais fazer? 

O índio hesitou: 

— Procurar socorro. 

Álvaro sorriu-se com incredulidade. 

— Tu duvidas? 

— De ti não, mas do socorro. 

— Escuta; se Peri não voltar, tu farás enterrar as suas armas. 

— Podes ir tranqüilo: eu te prometo. 

— Outra coisa. 

— O que é? 

O índio hesitou de novo: 

— Se tu vires a cabeça de Peri desligada do corpo, enterra-a com as suas armas. 

— Por que este pedido? A que vem semelhante lembrança? 

— Peri vai passar pelo meio dos selvagens, e pode morrer. Tu és guerreiro; e sabes que a vida é como a palmeira: murcha quando tudo reverdece. 

— Tens razão. Farei tudo quanto pedes; mas espero ver-te ainda. 

O índio sorriu. 

— Ama a senhora, disse ele estendendo a mão ao moço. 

O seu adeus era uma última prece pela felicidade de Cecília. 

Peri entrou na sala onde se achava reunida a família. 

Todos dormiam; só D. Antônio de Mariz velava sempre apesar da velhice; sua vontade poderosa cobrava novas forças e reanimava o corpo gasto pelos anos. Não lhe restava senão uma esperança; a de morrer rodeado dos entes que amava, cercado de sua família, como um fidalgo português devia morrer; com honra e coragem. 

O índio atravessou a sala e colocando-se junto do sofá em que Cecília adormecida repousava, contemplou-a um instante com um sentimento de profunda melancolia. 

Dir-se-ia que nesse olhar ardente fazia uma última e solene despedida; que partindo-se, o escravo fiel e dedicado queria deixar a sua alma enleada naquela imagem, que representava a sua divindade na terra. 

Que sublime linguagem não falavam aqueles olhos inteligentes, animados por um brilhante reflexo de amor e de fidelidade? Que epopéia de sentimento e de abnegação não havia naquela muda e respeitosa contemplação? 

Por fim Peri fez um esforço supremo, e a custo conseguiu quebrar o encanto que o prendia, e o conservava imóvel, como uma estátua, diante da linda menina adormecida. Reclinou sobre o sofá e beijou respeitosamente a fimbria do vestido de Cecília; quando ergueu-se, uma lágrima triste e silenciosa que deslizava pela sua face, caiu sobre a mão da menina. 

Cecília, sentindo aquela gota ardente, entreabriu os olhos; mas Peri não viu esse movimento, porque já se tinha voltado e aproximava-se de D. Antônio de Mariz. 

O fidalgo sentado na sua poltrona recebeu-o com um sorriso pungente. 

— Tu sofres? perguntou o índio. 

— Por eles, por ela especialmente, por minha Cecília. 

— Por ti não? disse Peri com intenção. 

— Por mim? Daria a minha vida para salvá-la; e morreria feliz! 

— Ainda que ela te pedisse que vivesses? 

— Embora me suplicasse de joelhos. 

O índio sentiu-se aliviado como de um remorso. 

— Peri te pede uma coisa. 

— Fala! 

— Peri quer beijar a tua mão. 

D. Antônio de Mariz tirou o seu guante, e sem compreender a razão do pedido do índio, estendeu-lhe a mão. 

— Tu dirás a Cecília que Peri partiu; que foi longe; não deves contar-lhe a verdade: ela sofrerá. Adeus; Peri sente te deixar; mas é preciso. 

(continua...)

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