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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

– Senhor, seria uma indiscrição perguntar-lhe por quê?

– Não, não; antes eu quereria dizê-lo a todos; eu chorava por minha mãe.

– Pois... eu pensava... o senhor...

– É certo, exclamou Cândido; é verdade! eu sou um mísero enjeitado!

– Mas então...

– Oh! é que, apesar de ser enjeitado, houve forçosamente um homem que foi meu pai, e uma mulher me concebeu! esse homem, senhora, é já morto... disserammo. Eu sou órfão de pai; mas minha mãe!... essa, diz-me o coração que ainda vive...

e eu amo-a com todo este fogo de amor que Deus acendeu na minha alma! ...

– Sem conhecê-la?.

– Que importa? este amor não se gasta, não se esgota; este amor é como o fogo do sol, sempre o mesmo, ou cada vez mais ardente. Quando eu encontrar minha mãe... oh! que amar esse de então!

– É assim... é assim... tem razão, murmurou com voz comovida a senhora de mantilha.

– Uma mãe!... disse Cândido ternamente; uma mãe!... um ventre de mulher abençoado por Deus! oh! senhora, a maternidade é tão sublime, é tão sagrada, que foi por ela que Jesus Cristo se pôs em contato com os homens; foi pela maternidade que Deus salvou-nos!... amaldiçoado seja aquele que não ama a sua mãe.

– E chora?... perguntou a desconhecida chorando também.

– Oh! sim! eu choro... sempre, e muito.

– Por que, senhor...

– Porque eu me lembro que minha mãe pode ser desgraçada... porque talvez ela precise de um braço a que se arrime para fazer a perigosa viagem deste mundo, e eu não a conheço, não lhe posso estender meu braço... enxugar-lhe as lágrimas... ou chorar com ela!

– É assim!...

– Quando, senhora, eu encontro por essas ruas uma pobre mulher doente... mendicante... exposta aos insultos da gente desmoralizada... sendo talvez o objeto do desprezo de muitos... quando de noite, aproveitando as trevas, eu vejo passar junto de mim uma mulher envolta, como a senhora, em negra mantilha, estendendo, vergonhosa, uma mão emagrecida e trêmula para receber a mais chorada esmola... e eu me lembro que tenho no mundo uma mãe, que é por força uma mulher, que não é impossível que seja uma dessas que eu encontro. Senhora!... eu não sei nesses momentos o que desejo... eu toco quase ao desespero... desejo morrer... e não me mato somente porque sou cristão.

Ficaram ambos em silêncio por alguns instantes; ambos chorando, até que Cândido levantou a cabeça, e enxugando as lágrimas, disse:

– Desculpe-me, era a senhora quem devia falar, e eu a tenho ocupado falando-lhe de mim. Eu escuto.

– Não, respondeu a desconhecida; eu precisava ouvi-lo para animar-me.

– Pois bem; agora cabe-lhe dizer em que lhe posso ser útil.

– Senhor, disse a desconhecida, o amor de sua mãe é o único que existe em seu coração?...

– O único, não; eu amo a minha mãe adotiva; devo gratidão a algumas pessoas; e mesmo... amo mais alguém.

– Mas qual de todos esses amores será o maior, o mais poderoso?

O mancebo hesitou; mas depois respondeu com força:

– O de minha mãe.

– Seria capaz de sacrificar-se por esse?...

– Tudo.

– E se alguém lhe viesse pedir um obséquio tão grande que importasse um sacrifício, pelo menos temporário, e lho pedisse em nome de sua mãe?...

– Senhora...

– Se esse serviço que lhe viessem pedir, não o pudesse o senhor fazer sem ferir-se no coração, sem sentir doer-lhe a corda mais sensível dele; mas se, apesar disso, lho pedissem em nome de sua mãe...

– Eu não compreendo...

– Mas se no cumprimento de tal favor estivesse a salvação de uma mulher, que tem talvez idade de ser sua mãe...

– Senhora! fale...

– Oh! é o senhor quem deve falar agora: o que faria?

– Eu não sei de que se trata.

– É um favor imenso, que lhe venho pedir em nome de sua mãe...

– Eu o farei; se a minha honra, se a delicadeza não...

– Nada de condições.

– É impossível obrigar-me de outro modo.

– Em nome de sua mãe...

– Por minha mãe já eu jurei ser honrado e ser honesto...

– O que eu peço, senhor, não se opõe à sua honra.

– Servi-la-ei.

– Basta por alguns dias enganar um coração, martirizando o seu... eis aqui o sacrifício.

Cândido sentiu um calafrio terrível coar-lhe por todo corpo; pareceu adivinhar o que dele queriam, e exclamou:

– Mentir?!

– Por breves dias... mas dessa mentira depende a vida de uma infeliz mulher.

– Mentir! isso não, senhora.

A desconhecida abafou um grito doloroso, que lhe saía do peito.

– De que se trata, senhora? perguntou o mancebo com voz alterada.

A desconhecida, mostrando tomar uma resolução, ergueu-se e perguntou: – Senhor, já aborreceu alguém em sua vida?...

– Não.

– Nem conserva a lembrança de nenhuma ofensa? nem se apraz de vingar-se quando lhe ofendem?

– Não, não.

(continua...)

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