Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
Mas do outro lado levantava-se um mancebo, nobre, ardente e destemido; um mancebo que lhe salvara a vida... que a amava com paixão desmedida, e que era amado com mais paixão ainda... enfim, do outro lado levantava-se o moço loiro, aflito... silencioso... que ia passando sem deixar uma só queixa... e que ia indo com o desespero no coração... ia indo...
E para onde se vai quando se tem no coração o desespero?!...
E essas duas imagens, a de seu pai, e a do moço loiro, se sucediam em seu espírito uma à outra, três, vinte, cem, mil vezes sempre as mesmas, sempre do mesmo modo; como as ondas do mar repetidas sempre!...
Falava primeiro o amor de seu berço, o amor da infância, o amor que votava àquele, que, pegando-lhe pelas mãozinhas, lhe tinha ensinado a andar... que se sorrira ao seu primeiro sorrir, e chorara de prazer à sua primeira palavra... falava primeiro o amor do pai...
Falava depois o primeiro amor de seu virginal coração... oh! o primeiro amor!... o eterno sentimento, que ainda quando se não realizam seus anelos, deixa, papa jamais extinguir-se, seu doce e fragrante aroma impregnado na alma!... o primeiro amor! almo desperto do sono da inocência! chama abrasadora da juventude... pura, como a juventude; tão sem vil ambição como a juventude; bela e cheia de esperança, como ainda a juventude!... o primeiro amor! e falava então o amor do moço loiro...
E depois ela media suas próprias forças...
Ardente e devotada achava-se capaz de ser mártir... não hesitaria em sacrificar pela felicidade de seu pai a sua própria vida... tudo... tudo... oh! mas aquilo que ela dizia ser a única luz que pode tornar brilhante o caminho da vida para a mulher?...
E apenas com dezesseis anos, tão moça ainda! ela olhava para a vasta extensão que lhe cumpria atravessar no mundo, e tudo se lhe antolhava feio, perigoso, escuro, horrível... e não longe, pronto a correr para seu lado, estava um moço loiro, que, com lâmpada mágica na mão, mudando a face de toda essa cena amedrontadora, prometia levá-la por um caminho de flores, risonha e feliz até o fim da viagem.
Afora a imagem do moço loiro, não via mais nada no campo da vida... tudo era negro... e feio... apenas na outra extremidade do vasto campo podia descobrir a pálida figura do descanso assentada na beira de uma cova...
Oh!... se ao menos lhe dessem a certeza de não padecer muito... de morrer cedo!...
E de novo lembrava-se de seu pai... não; nunca de seus lábios sairia a sentença da desgraça dele... mas o sacrifício de seu amor?!... era muito... muito!...
E Deus não podia amaldiçoá-la por vê-la hesitando; e o mundo não tinha o direito de chamá-la ingrata; porque Deus está vendo a sorte que os homens prescrevem à mulher; e o mundo deve, antes de tudo, corar de si próprio!!!...
A verdade é esta: a mulher só tem na vida o amor; sacrificar seu único bem é perder tudo... é deixar-se morrer de um modo cruel.
Porque, ou seja vício de educação, ou de qual causa estimarem dar, a sorte da mulher é apoucada e mesquinha.
Na divisão dos direitos e deveres coube-lhe um papel, sem dúvida respeitável e nobre debaixo de um ponto de vista; porém, em tudo mais secundário e quimérico, a mulher chega a ser mãe de família... e mais nada.
Primeiro, felizmente adormecida no doce cativeiro de seus pais, acorda com um gemido para passar ao de seu tutor; ou se sorri, recebendo as cadeias que lhe lança seu marido, sujeita desde que nasce... sujeita até que morre, tem sempre ao pé de si um homem para pensar e desejar por ela; para, pelo prazer dele, medir o seu... é uma criança, que sempre se vigia... um cego, que se leva pela mão; ou, ao muito, quando consegue ser amada, uma escrava, que se prende em um altar, uma divindade que se tem em ferros, e a quem se dá o nome de senhora!...
E a mulher há de por força sujeitar-se à lei, que os homens lhe têm imposto: se alguma tentasse reaver... exercer direitos muito nobres e legítimos, que Deus lhe concedeu, e o mundo lhe arranca; se alguma ousasse dizer — eu sou livre, — teria horríveis tempestades a assoberbar, e, por fim, sucumbiria; porque o mundo entende que só há dois caminhos para a mulher: o da escravidão e o da vergonha.
E ainda quando ela, sentindo-se insultada, gritasse — calúnia! calúnia!... o mundo rir-seia... e responderia sempre — vergonha!... vergonha!... porque somente o homem tem o direito de fazer face à opinião dos outros... e a mulher não pode ser senão aquilo que o mundo quiser que ela seja...
E, apertada no estreito círculo dos deveres domésticos, a mulher não terá nunca outras honras, outra glória a desejar, senão aquelas que se devem à fidelidade da esposa, à extremosa maternidade, às virtudes domésticas enfim; e, quando uma desgraça cair sobre ela e sobre a sua família, ela, a quem se não permite outro cuidado, outro culto, que não seja o de sua família, e o de si, isto é, ela que está apertada no estreito círculo dos deveres domésticos, é mais que o homem lamentável.
Porque o homem tem o comércio... as armas... a política... muito mais ainda... e, finalmente, a mulher.
E a mulher tem unicamente o homem.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.