Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Alexandre Dias de Resende era homem pardo. Seu pai tinha sido um carpinteiro laborioso e econômico, que lhe deixara uma pequena fortuna, que ele soube aumentar pouco a pouco, entregando-se ao comércio, de modo que, além da sua casa mercantil, adquiriu também a propriedade de uma grande chácara no caminho de Mataporcos para
S. Cristóvão.
Entre parêntesis: o sítio que atualmente e desde muitos anos é chamado Mataporcos começou provavelmente a ser denominado Mata dos Porcos, porque ali havia um arvoredo silvestre terminando no mangue, e nessa mata se criavam numerosas varas de porcos, que se matavam para alimentação dos habitantes da cidade. É de crer que depois se corrompesse a denominação primitiva. E fecho aqui o parêntesis.
A fortuna ou tal qual riqueza de Alexandre Dias de Resende era explicada pelos invejosos e murmuradores de um modo menos honroso para ele. Diziam que, descobrindo um tesouro enterrado junto de uma árvore no lugar do Jogo da Bola, no morro da Conceição...
E abro de novo outro parêntesis: o Jogo da Bola de que se trata neste caso ficava perto da antiga fortaleza da Conceição, e não se deve confundir com outros dois Jogos da Bola que então existiam, um perto do lugar em que hoje se vê a igreja de Sacramento, e outro nas imediações da atual Rua de Bragança. Os Jogos da Bola eram lugares de numerosa e alegre reunião. Conclui-se disto que no século passado jogava-se muito a bola na cidade do Rio de Janeiro. Hoje, porém, não havendo tantos jogos da bola, dá-se mais freqüentemente no vinte.
E torno a fechar o parêntesis.
Diziam, pois, que Resende, descobrindo um tesouro enterra do junto de uma árvore no lugar do Jogo da Bola, no morro da Conceição, de todo o dinheiro se apoderara, sem respeito aos direitos de quem se devia considerar seu verdadeiro dono. Entretanto, a vida inteira de Resende faz crer que essa história de tesouro enterrado não passou de um aleive levantado contra aquele a quem não perdoaram o acidente da cor, apesar do merecimento que tinha, e que lhe deu força para conquistar uma certa consideração.
Depois do conhecimento dessa calúnia, forjada para nodoar a reputação de Resende, não admira saber-se que este era objeto de sátiras e de zombarias. E como nas pequenas povoações – e a cidade do Rio de Janeiro não era grande naquele tempo – é costume darem-se alcunhas a muita gente, não pôde Resende escapar à regra terrível, e era chamado o Focas Tirano.
Nada disso, porém, pôde amesquinhar ou obscurecer as boas qualidades de Resende.
Quando o terceiro vice-rei do Brasil, homem que tinha nove nomes, D. Luís de Almeida Portugal Soares Eça de Alarcão Melo Silva e Mascarenhas, e de quem, apesar disso, não se pode dizer que maior foi o nome do que a pessoa, quando o marquês de Lavradio, terceiro vice-rei do Brasil, organizou completamente os quatro terços ou regimentos auxiliares da cidade do Rio de Janeiro, dispôs que o quarto regimento fosse o regimento dos pardos, e foi Alexandre Dias de Resende nomeado capitão ele uma das companhias do quarto terço, o que indica bem que Resende era digno de estima e de confiança.
Mas o quarto terço ou o terço dos pardos teve por comandante o Major Melo, oficial português, austero na disciplina. Às vezes, porém, tão violento e desatencioso, que sacrificava, sem o pensar, a própria disciplina.
Os pardos do quarto regimento, repetidamente vítimas do gênio desabrido e frenético do seu comandante quiseram ver na escolha de um tal chefe uma prova da má vontade que lhes tinha o marquês de Lavradio, e procurando a origem da suposta má vontade do vice-rei, foram descobri-la em um fato que eles interpretaram como lhes convinha.
Este episódio não tem relação alguma com a história de Resen de. Como, porém, ele dá idéia de um dos principais defeitos ou de grande fraqueza do marquês de Lavradio, que, aliás, foi um vice-rei que prestou imensos serviços ao Brasil, vou ocupar-me dele para deixar o marquês bem marcado com a sua notável fraqueza, como oportunamente o apresentarei com as suas muito belas qualidades de homem e de administrador.
O marquês de Lavradio era famoso pelo amor que tributava ao belo sexo e pelas travessuras, às vezes bem repreensíveis, que fazia para satisfazer a sua paixão. A sua fama a este respeito era tal que em um tempo em que muito se ocupava da polícia da cidade e do asseio das ruas e praças dela, encontrou o marquês em certo dia um doido tão célebre na cidade pelos seus repentes e ditos espirituosos, que o seu nome ainda hoje não está esquecido. O doido chamava-se Romualdo.
O marquês de Lavradio, ao encontrá-lo, fez parar o cavalo em que ia e, sorrindo para o doido, perguntou-lhe:
– Romualdo, que dizem de mim aí pela cidade?
O doido encarou o vice-rei, riu-se também para ele, e respondeu sem hesitar:
– Dizem que V. Exa limpa as ruas e suja as casas.
É escusado dizer que o vice-rei fez o cavalo partir a galope.
Agora o caso de que murmuravam os pardos do quarto
regimento.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.