Por José de Alencar (1872)
Informaram-me também que o Sr. Benício já foi à cocheira do Porto, examinar o mais rico dos cupês de gala, a fim de estar preparado para encomendá-lo apenas se marque o dia do casamento de Guida.
Por seu gosto não seria Bastos o noivo; pois o bom do amanuense não perdeu ainda o teiró que tomara ao corretor pela concorrência ativa que este lhe fazia antigamente no artigo das encomendas. Mas, quando se tratava de obsequiar, não havia sacrifício que fizesse recuar o heróico Sr. Benício.
Assim terminaram estes “sonhos d’ouro”, tão parecidos com os outros que a cada instante por aí acendem e se apagam, como os arrebóis da tarde.
FIM
CARTA AO EDITOR
Ilmo. Sr. Garnier
Se ainda não tirou a lume a Segunda parte dos Sonhos d’ouro, peço-lhe o favor de mandar imprimir o incluso pósescrito que leva a última notícia de nossos personagens.
Amigo e atento venerador
SÊNIO
S.C. 6 setembro, 1872
PÓS-ESCRITO
Há quinze dias teve Ricardo de assistir a uma vistoria, em questão de terras, para o lado de Jacarepaguá.
Na volta lembrou-se de visitar D. Joaquina, a quem não via desde muito. Achou a casinha e a dona no mesmo estado: velhas como as deixara, mas contentes e sossegadas.
A tia de Fábio recebeu o advogado com muita festa e agasalho; perguntou notícias do sobrinho e da nova sobrinha; e pediu a Ricardo que lhes mandasse muitas e muitas recomendações, quando escrevesse.
Eram duas horas. Já D. Joaquina tinha jantado; mas havia carne assada e improvisou-se uma fritada, que Ricardo aceitou de bom grado, para Ter o prazer de passar com a velha o resto da tarde. O advogado comeu com apetite; e não trocaria o copo d’água cristalina, que bebeu depois do melado, pelo mais esquisito champanha.
- O senhor é que ainda não quis casar? disse D. Joaquina, preparando-lhe uma chávena de café.
- Creio que fiquei para tio, disse Ricardo sorrindo.
- Qual!... A dificuldade é encontrar aí algum peixãozinho que lhe ponha um feitiço; como um que veio aqui outro dia.
- Não tenha receio, trago uma figa, que me livram do quebranto, tornou Ricardo no mesmo tom.
- Deixe ver, disse a velha.
- Estão lá dentro, no coração.
A velha riu-se. E o advogado acendendo o charuto saiu a dar uma volta de passeio a pé, enquanto se ia buscar ao pasto o “Galgo”, que naturalmente andava também matando saudades, pois desde muito tempo residia na corte à Travessa do Espírito Santos, n. 19, cocheira do Viana.
Tomou Ricardo pelo mesmo caminho em que à primeira vez o encontramos, e não tinha dado vinte passos que as recordações de outros tempos surgiram para envolvê-lo como o aparato de uma cena armada de improviso.
Ouviu tropel de animal; reconheceu o “Galgo”; viu passar Fábio; trocou palavras com ele; perdeu-se entre os tufos do arvoredo; sentiu o sobressalto que tivera outrora, despertado por um riso argentino; e contemplou com entusiasmo de artista, e um enlevo que então não sentira, o gracioso vulto da gentil amazona.
Depois correram as vistas; novas cenas sucediam-se; e a imaginação as povoava de recordações vivazes, que entretanto pareciam extintas.
Este volver ao passado incomodava Ricardo, que pensou escapar-lhe fugindo àquele sítio.
Ao voltar uma curva descobriu duas senhoras, que se aproximavam lentamente pelo mesmo caminho; e qual não foi seu espanto reconhecendo Guida acompanhada de Mrs. Trowshy.
Desde certo tempo a saúde de Guida se alterara. Não se queixava, nem tinha mesmo incômodo ou mal determinado. Perdera a alegre vivacidade; e sentia invadi-la um abatimento indefinível. Sua vida nos meses últimos não era mais do que um lento delíquio; parecia-lhe que estava desmaiada. As flores, se é que têm sensibilidade, devem experimentar uma impressão igual quando murcham.
Ultimamente o desfalecimento chegara ao ponto de inquietar a família; os médicos receitaram as duas panacéias do costume, o casamento e o campo. Pobres dos médicos! Queixam-se deles. Ah! Se tivessem na sua farmacopéia certas drogas preciosas, como o amor, a ambição, a glória, que de curas milagrosas não fariam!
Quando se tratou de escolher o arrabalde, Guida pediu a Tijuca; não que ela esperasse tirar proveito para a saúde. Bem longe disso; era um desejo recôndito de rever aqueles sítios, e saciar-se das reminiscências que eles guardavam.
Matassem embora essas árvores, como a mancenilha; queria embriagar-se de seus perfumes.
(continua...)
ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.