Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

Se Arnaldo não se perturbasse com a vista dessa mulher e a surpresa que lhe acabava de causar, de-certo que não lhe escaparia uma circunstância importante. Quando Águeda proferia seu nome, nem sempre volvia o rosto para o lado onde êle efetivamente se achava, sinal de que não o via, e apenas pressentia a sua proximidade. 

Um dia quis o sertanejo esclarecer êsse mistério; e quando Águeda o chamou como de costume, êle saíu do mato e apresentou-se. Ao rumor de seus passos, D. Flor que ia adiante voltavase, e avistando-o afastou-se, com a mesma esquiva indiferença, que não deixara de mostrar-lhe desde o dia da vaquejada. 

Ficando só em presença de Águeda, o sertanejo perguntou-lhe: 

— Que me quer? 

— Agora não. Esta noite, depois de recolher. Estarei à janela. 

Proferidas estas palavras em voz rápida, Águeda lançou ao sertanejo um olhar provocador e correu a reunir-se com D. Flor. 

Arnaldo cada vez mais surpreendido com o procedimento da desconhecida, ficou algum tempo a cogitar sôbre o estranho emprazamento que recebera. A idéia de uma entrevista amarosa nem de longe passou pela mente do sertanejo; sua conjetura foi que a moça carecia de seus serviços, e talvez de seu auxílio para algum fim oculto. 

Desde então resolveu acudir ao emprazamento, na esperança de penetrar o mistério da vinda dessa mulher à Oiticica. 

Tudo estava tranquilo na fazenda, não havia o menor indício de perigo, e não obstante, o sertanejo não podia eximir-se a uma vaga inquietação, que o trazia em constante desassossêgo. À semelhança de certas plantas que ressentem-se logo de qualquer alteração ainda remota da temperatura, da mesma forma êle como que respirava uma ameaça na atmosfera. 

Um pressentimento lhe advertia que o mal, se êle existia, estava oculto no formoso semblante daquela moça, que de repente aparecera na Oiticica e aí se introduzira de um modo singular. 

Não enganava a Arnaldo o seu fiel coração. Nesse momento, com efeito, a felicidade do capitão-mór Campelo e de sua família, estava dependendo do bom êxito de uma cilada, urdida com uma astúcia rara. 

É preciso remontar ao dia da emboscada para conhecer os pormenores da trama. 

Deixámos o Marcos Fragoso de rota batida para sua fazenda das Araras, em Inhamuns, acompanhado de seus hóspedes e parentes, assim como do Onofre com a sua bandeira e mais gente da comitiva. O José Bernardo breve se reunira ao amo com a bagagem que fôra buscar ao Bargado. 

Ao escurecer pararam para dar algum repouso a si e aos animais. Armaram-se as barracas e as redes; e o cozinheiro preparou a ceia, que todos acolheram com a maior satisfação, pois se o almôço fôra abundante, em compensação tinha havido nesse dia uma sinalefa completa do jantar. 

À mesa, posta sôbre forquilhas, praticaram os quatro mancebos acêrca do estado das coisas e do modo de as deslindar. 

Marcos Fragoso, picado ao vivo em seus brios, era pela desforra pronta: 

— Por mim, se não fossem os avisos que eu reconheço prudentes, teria seguido direito para a Oiticica; e hoje mesmo o Campelo conheceria com quem se meteu. 

— Também eu entendo, que estas coisas apuram-se logo, observou João Correia; mas não se deve desprezar a estratégia, sobretudo em um assalto. Convém reconhecer a posição do inimigo. 

— A estratégia pode servir de muito lá para guerras de soldados, observou Daniel Ferro. Cá no sertão o que decide é a gente e a valentia. O capitão-mór tem uma escolta de cem homens, além dos agregados e escravos da fazenda. Para atacá-lo é preciso aumentar a nossa bandeira. 

— Os senhores são todos homens de guerra, acudiu Ourém, e pois não estranharão em mim, que sou homem de lei, um voto de paz. Antes de um rompimento formal, que ainda não se deu, penso que muito acertado seria tentarmos uma acomodação honrosa; e para a ajustar ofereçome eu. Posso partir agora mesmo para a Oiticica, e lá me apresentarei como parlamentário. 

— É tempo perdido, replicou Fragoso. 

O voto que prevaleceu afinal, foi o do Daniel Ferro. Decidiu-se que a comititva ficaria alí nas vizinhanças de Quixeramobim, enquanto o alferes ia a Inhamuns recrutar uma bandeira numerosa e destemida, com a qual tomassem de assalto a Oiticica, para quebrar a proa do capitãomór e obrigá-lo a dar ao Fragoso todas as satisfações, sendo a primeira delas a mão de D. Flor. 

Quando Marcos Fragoso dirigia-se à sua rede, saíu-lhe ao encontro Onofre, que o 

espreitava: 

— Ainda me apareces? perguntou o mancebo, em quem a presença de seu cabo de bandeira veio de novo atear a ira. 

— Quem é que se livra de ser logrado uma vez, ainda mais daquela maneira? retorquiu o coriboca submisso. Mas o caso está em saber tirar a desforra. 

— Já não creio nas tuas bazófias, tornou o mancebo desdenhosamente. 

— Nestes oito dias, se não for antes, asseguro ao senhor capitão que temos o passarinho na gaiola. 

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...96979899100...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →