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#Romances#Literatura Brasileira

O Guarani

Por José de Alencar (1857)

Levou a mão ao bolso das bragas, e achou algumas folhas de fumo, mas não trazia o seu cachimbo; ficou desesperado, e decidiu dirigir-se ao outro. 

— Olá, amigo! também fazeis a vossa guarda? 

O homem voltou-se, e continuou o seu caminho sem dar resposta. 

No segundo giro o aventureiro atirou segunda isca. 

— Felizmente o dia não tarda a raiar; não vos parece? 

O mesmo silêncio que a primeira vez; o aventureiro contudo não desanimou, e na terceira volta retrucou: 

— Somos inimigos, camarada; mas isso não impede a um homem cortês de responder quando outro lhe fala. 

Desta vez o silencioso sentinela voltou-se de todo: 

— Antes da cortesia está a nossa santa religião, que manda a todo cristão não falar a um herege, a um réprobo, a um fariseu. 

— Que é lá isso? Falais sério, ou quereis fazer-me enraivar por nonadas? 

— Falo-vos sério, como se estivesse diante do nosso Santo Redentor confessando as minhas culpas. 

— Pois então, digo-vos que mentis! Porque tão bom podeis ser, porém melhor crente que eu não o é outrem. 

— Tendes a língua um pouco longa, amigo. Mas Belzebu vos fará as contas, que não eu: perderia a minha alma se tocasse o corpo de endemoninhados! 

— Por São João Batista, meu patrão, não me façais saltar esta estacada para perguntar-vos a razão por que tratais em ar de mofa a devoção dos mais. Chamai-nos rebeldes, mas hereges não. 

— E como quereis então que chame os companheiros de um frade sacrílego, maldito, que abjurou dos seus votos, e atirou o seu hábito as urtigas? 

— Um frade! Dissestes vós? 

— Sim, um frade. Não o sabíeis? 

— O quê? De que frade falais vós? 

— Do italiano, bofé! 

— Ele!... 

O homem, que não era outro senão o nosso antigo conhecido mestre Nunes, contou então, exagerando com o fervor de seus sentimentos religiosos, aquilo que sabia da história de Loredano. 

O aventureiro horrorizado, tremendo de raiva, não deixou mestre Nunes acabar a sua história e lançou-se para o alpendre, onde viu-se a ameaça que fez ao italiano. 

Quando eles se separaram, Peri saltou por cima da estacada, e dirigiu-se para o quarto que há pouco tinha deixado. 

O dia vinha então rompendo; os primeiros raios do sol iluminavam já o campo dos Aimorés, assentado sobre a várzea à margem do rio. Os selvagens irritados olhavam de longe a casa, fazendo gestos de raiva por não poderem vencer a barreira de pedra que defendia o inimigo. 

Peri olhou um momento aqueles homens de estatura gigantesca, de aspecto horrível, aqueles duzentos guerreiros de força prodigiosa, ferozes como tigres. 

O índio murmurou: 

— Hoje cairão todos como a árvore da floresta, para não se erguerem mais. 

Sentou-se no vão da janela, e encostando a cabeça sobre a curva do braço, começou a refletir. 

A obra gigantesca que empreendera, obra que parecia exceder todo o poder do homem, estava prestes a realizar-se; já tinha levado ao cabo metade dela, faltava a conclusão, a parte a mais difícil e a mais delicada. 

Antes de lançar-se, Peri queria prever tudo; fixar bem no seu espírito as menores circunstâncias; traçar a sua linha invariável a fim de marchar firme, direito, infalível ao alvo a que visava; a fim de que a menor hesitação não pusesse em risco o efeito do seu plano. Seu espírito percorreu em alguns segundos um mundo de pensamentos; guiado pelo seu instinto maravilhoso e pelo seu nobre coração, formulou num rápido instante um grande e terrível drama, do qual devia ser o herói; drama sublime de heroísmo e dedicação, que para ele era apenas o cumprimento de um dever e a satisfação de um desejo. 

As almas grandes têm esse privilégio; suas ações, que nos outros inspiram a admiração, se aniquilam em face dessa nobreza inata do coração superior, para o qual tudo é natural e possível 

Quando Peri ergueu a cabeça, estava radiante de felicidade e orgulho; felicidade por salvar sua senhora; orgulho pela consciência de que ele só bastava para fazer o que cinqüenta homens não fariam; o que o próprio pai, o amante, não conseguiriam nunca. 

Não duvidava mais do resultado: via nos acontecimentos futuros como no espaço que se estendia diante dele, e no qual nem um objeto escapava ao seu olhar límpido; tanto quanto é possível ao homem, ele tinha a certeza e a convicção de que Cecília estava salva. 

Cobriu o peito e as costas com uma pele de cobra que ligou estreitamente ao corpo; vestiu por cima o seu saiote de algodão; experimentou os músculos dos braços e das pernas; e sentindo-se forte, ágil e flexível, saiu inerme.  


XII 

DESOBEDIÊNCIA 

 

(continua...)

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