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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

– Abençoada seja essa noite, exclamou a velha sem atender a seu filho adotivo. Tu, Cândido, foste crescendo ao pé de mim sempre belo, feliz e engraçado. De ano em ano, à mesma noite, às mesmas horas, o homem desconhecido, embuçado em sua capa negra, vinha agradecer-me os cuidados que o meu amor gastava contigo, e deixar-me ora uma bolsa repleta de ouro, ora uma carteira contendo soma considerável em relação às pequenas despesas que me obrigavas a fazer.

– E esse homem nunca falou?... nunca disse nada a respeito de meus pais?

– Nunca. E tu eras tão pequeno, que jamais me veio à lembrança contar-te a história dessa noite. Depois, quando chegaste aos treze anos de idade, esse homem te veio arrancar dos meus braços... e sabes quanto tempo estivemos separados?

– Oh! eu o vi então! esse homem de roupas negras... eu me hei de lembrar sempre...

– Voltaste, continuou Irias, e é esta a primeira noite de teus anos que passamos juntos depois da tua volta. Quis referir-te o que se passou nessa noite, que começando em tempestade, acabou tão bonançosa. Oh! foi uma bela noite! bem feliz!... bem ditosa para mim.

– A noite em que me enjeitaram! balbuciou o mancebo.

– Todos os dias agradeço a Deus a felicidade de me haver feito tua mãe, porque tu és a consolação e amparo da minha velhice.

– Obrigado, senhora.

– Porque tu me amas como eu te amo.

– É certo.

– Porque tu me fazes ditosa, e hás de ser ditoso também.

– Ah! quem sabe?!

– Hás de o ser. A Senhora das Dores presidiu à hora feliz em que te eu adotei; tu és seu filho também... confia nela.

– E minha mãe?! exclamou o mancebo.

– E que outra melhor mãe do que ela?...

– Oh! nenhuma; mas aquela que me concebeu tem direito ao amor do meu coração!... oh! minha mãe!... minha mãe... para que eu enxugue suas lágrimas se ela chora...

– Espera.

– Tanto tempo!

– Espera; confia na Santa Virgem, a quem te recomendei quando te recebi em meus braços; a Santa Virgem te mostrará tua mãe...

– Oh! que eu a veja!...

– Bateram na porta.

– Batem... disse a velha.

– Quando eu pedia minha mãe!...

Bateram de novo.

– É talvez ele.

– Quem?...

– O desconhecido.

Cândido lançou-se para a porta, que se abriu imediatamente.

Entrou um vulto preto.

– É ele! exclamou a velha.

– Não, respondeu Cândido; é uma senhora de mantilha.

CAPÍTULO XXXIV

A MULHER DE MANTILHA

A MULHER de mantilha que tinha acabado de entrar, ficara em pé e silenciosa junto da porta.

Trazia tão fechada a mantilha, que apenas se podia descobrir os olhos, que eram negros e brilhantes.

– Minha senhora, disse Cândido, aqui está uma cadeira.

A desconhecida estendeu fora da mantilha um braço perfeitamente torneado pela natureza, e com uma mão delicada e fina tomando a de Cândido, puxou para si o mancebo com voz muito baixa disse:

– Eu preciso falar a sós com o senhor.

– Comigo? a sós?...

– Sim.

– Prefere conversar aqui mesmo, ou quer antes subir ao meu quarto?...

– Prefiro o lugar onde mais livremente puder falar-lhe.

A voz da desconhecida estava trêmula. Cândido pretendia debalde lembrar-se em que ocasião e onde tinha ouvido uma voz que se parecia com aquela. Sentia ao mesmo tempo uma curiosidade imensa de conhecer essa mulher que a tais horas e por tal modo o viera procurar.

– Minha mãe, disse ele voltando-se para Irias, a senhora quer falar-me sem testemunhas; eu vos peço licença para subir com ela ao sótão.

– Meu filho, respondeu a velha, a casa é tua; dá a mão à senhora.

Cândido ofereceu a mão à desconhecida e a guiou pelo corredor à escadinha do sótão.

A velha acompanhou a ambos com um olhar curioso, que se podia traduzir assim: que mulher será essa?... que relação haverá entre ela e Cândido?...

Uma única e fraca luz estava acesa no sótão do “Purgatório-trigueiro”, e logo que aí entraram os dois, Cândido ia acender outra vela, mas a desconhecida o susteve, e disse-lhe:

– Basta a que existe.

O mancebo compreendeu que aquela mulher contrafazia a voz. Pretenderia ela não se dar a conhecer?...

– Perdoai, senhora, a desordem deste quarto, disse Cândido.

A desconhecida, sem responder à desculpa que lhe dava o moço, tomou uma de suas mãos entre as dela, e apertando-a fortemente, perguntou:

– O senhor é sensível?

– Prezo-me de o ser, senhora.

– Oh! sim; eu o sabia; mas há na natureza humana horas de inexplicáveis inconseqüências; horas em que um coração de malvado se dobra como a cera; e em que, também, um coração sempre cheio de piedade se mostra duro como a rocha.

– E o que pretende significar então com o que acaba de dizer?...

– Quero saber que hora é esta para o seu coração; porque eu preciso de toda a caridade de uma alma cristã...

– Senhora... uma palavra diz tudo: eu chorava quando lhe ouvi bater à porta.

– Chorava?

– Oh! chorava lágrimas de amor.

(continua...)

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