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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

Passa-se nela longas horas em uma doce embriaguez de reflexões, engolfado em místico e jamais interrompido silêncio... nulificam-se aí os sentidos com a mais completa indiferença a tudo que os rodeia... não se vê o que existe a dois palmos dos olhos... não se ouve a avezinha que modula na árvore mais próxima... não se sente a aurora que principia a romper, nem as trevas que começam a difundir-se; está levantada uma barreira entre o mundo e a alma; e, mais que nunca dona de si própria, ela rumina o passado... reflete sobre o presente... e sonha de ordinário com o futuro...

Oh!... então é um milagre, quando os lábios se sorriem, a não ser com amarga ironia!... porque também, para dizer a verdade, o homem tem na sua vida tão poucas coisas de que sorrirse alegremente!...

Então se está quase sempre ou sempre sob o domínio da melancolia.

Mas esse estado não se parece nada com o desgosto de si mesmo, que, como o castigo de Deus, enche de fel o coração do mau.

Esse estado é o que convém à imaginação brilhante, que se sente enjoada e se vinga do mundo de gelo e de cifras, indo, livre dos grilhões da sociedade, derreter-se em arabescos de fogo...

É o fecundo sonhar do poeta...

É não dormir, e não velar; é um viver entre a vigília e o sono, que se assemelha à hora do crepúsculo, que não é dia nem noite.

A natureza parece haver criado aqui e ali sítios moldados a esse inefável gozo de ilusões, como altares erguidos ao espírito no templo da solidão.

E os homens nisso, como em tudo mais, têm pretendido com a arte arremedar as obras inimitáveis do Senhor.

No jardim da casa ocupada por Hugo de Mendonça se encontrava um desses lugares silenciosos e melancólicos, que convidam a meditar.

As pequenas salas que davam para os terraços levantados aos lados do pórtico singelo da rua solitária, se escondiam cercadas por grupos de frondosas árvores, abrindo para o interior do jardim duas janelas, defronte de cada uma das quais outras tantas palmeiras derramavam seus ramos arqueados.

Pois que essa rua é ainda agora mesmo muito pouco freqüentada; em certas horas do dia reinava aí silêncio profundo... solidão completa... e então as pequenas salas desabitadas e sombrias, onde chegava apenas o gemer das ondas e o ciciar das palmeiras, tinham inexplicável encanto.

Honorina, já naturalmente melancólica e contemplativa, e escrava ainda mais do terno segredo de seu amor, desde que viera com sua família habitar a elegante casa da Rua da Glória, se aprazia em ir passar as últimas horas do dia naquela das salas que ficava do lado do mar.

Hugo, respeitando os inocentes desejos de sua filha, não só deixou sempre que ela fosse na companhia de Lúcia passar as tardes na sala predileta, como fê-la mobiliar com simplicidade e gosto; de modo que, ao aproximar-se a hora do crepúsculo, Honorina e Lúcia dirigiam-se para os terraços; e, enquanto esta descansava à sombra das palmeiras, aquela ia, em completa liberdade, pensar no seu amor.

Era, portanto, aí que Honorina dividia os seus pensamentos e suspiros pelo moço loiro e pela amiga de seu peito; e era nesse lugar, enfim, que um dia, repassada de angústia, deveria vir chorar a desgraça de seu pai... e a posição melindrosa em que tinha de ver-se colocada.

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Não havia chegado ainda a seu termo o dia em que Hugo de Mendonça recebera a notícia de seu inesperado infortúnio, e logo depois a carta de Lauro.

O sol começava a moderar o calor de seus raios; uma aragem branda e suave vinha soprando docemente.

Honorina e Lúcia encaminharam-se para os terraços da rua solitária; e, como sempre, Lúcia ficou sentada à sombra de uma palmeira, e Honorina subiu para a sala do lado do mar.

E ela meditava...

Não lhe restava a menor dúvida... a lei do destino, a força das circunstâncias a tinha colocado entre dois terríveis extremos!... dois pensamentos deviam ser medidos... um de dois tormentos escolhido:

Ou a miséria de seu pai.

Ou o sacrifício de seu amor.

De um lado estava um ancião respeitável, que a carregara pequenina; que depois de lhe ter dado a existência, lhe dera ainda tudo mais que pode dar um extremoso amor de pai; que, nas tristes circunstâncias em que se achava, não ousava oferecer um conselho; não queria o menor sacrifício; não desenhava aos olhos dela o painel da miséria, que podia ser para longe lançada com uma única palavra... enfim, de um lado estava seu pai: seu pai, que ela amava como a mais extremosa das filhas, abatido... magro... desfigurado... enfermo... pedindo compaixão e piedade à sua filha!...

E a filha poderia negar compaixão e piedade a seu pai?...

(continua...)

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