Por Aluísio Azevedo (1897)
— Tanto melhor! porque assim falou com franqueza. Se alguém aqui deve estar agradecido, sou eu, que ganhei uma lição!
— Sim, mas, vem cá, disse o médico, obrigando o sobrinho a entrar para a sala de Genoveva. É preciso que nos entendamos por uma vez; preciso ter a consciência tranqüila!... No fim de contas, és meu sobrinho, e eu tenho obrigação de saber de tua vida!
E depois de um pausa:
— Por que não vais morar novamente lá em casa? Que caprichos são esses comigo, que represento aqui tua única família e fui tão bom irmão de tua mãe?... Pensas que não sei a vida miserável que tens levado ultimamente? Por várias vezes, chameite para casa, sem que ao menos me respondesses... Entretanto isto não pode continuar assim! Teu pai encarregoume de cuidar de ti; sei que não sou rico, mas felizmente os meus recursos chegam para mais um...
— Obrigado! interrompeu Gustavo. Eu conto empregarme agora... Vou entrar em concurso.
Enquanto não aparecer o emprego?...
— Então? perguntou o outro em ar de amizade. Posso contar contigo amanhã...
— Não dou certeza...
— É porque não tencionas ir. Todavia, seria muito razoável que aceitasse de minhas mãos o auxílio que preferes receber das mãos de estranhos...
— Quem lhe disse que eu aceito obséquios de alguém?!
— Calculo eu, ora esta! Tu não tens rendimentos, não tens emprego, hás de aceitar de alguém os meios de subsistência..
— Em todo o caso, é justamente para lhe não dar o direito de lançarme em rosto a minha miséria, que recuso o agasalho que me oferece! Se o senhor me fala agora deste modo, como não me falaria se eu vivesse à sua custa! Não vou!
— Estás muito enganado! Falote como pai, e quero que me obedeças como filho. O teu lugar é lá em casa! Exijo que vivas em minha companhia!
— Não posso!
— Mas por quê?
— Porque não quero!
— Reflete bem!
—Não! não! e não!
XXXVI
VÉSPER
Palpitava de comoção a edemoninhada zona do Rio de Janeiro, que vai desde o Largo do Paço até à nascente da rua do Lavradio. A parte leviana e galhofeira da população carioca agitavase na rua do Ouvidor, eletrizada de interesse por uma grande novidade.
O que teria acontecido de tão extraordinário, para trazer assim em alvoroço. Os repórteres das folhas e os afiambrados janotas dos pontos de bondes. Que diabo poria em reboliço as redações dos jornais, os salões de carambola e de sociedades carnavalescas, as lojas e armarinhos de jóias e de modas, as confeitarias, cafés e restaurantes do alegre coração da cidade?! Seria a morte do Imperador? seria a queda do Partido Liberal? seria algum levantamento da escravatura? seria a quebra de algum banco? seria uma nova guerra com alguma outra República vizinha, ou seria simplesmente o sorteio da grande loteria da Espanha?
Nada disso. A parte folgazã da população do Rio de Janeiro delirava de entusiasmo, apenas porque no vasto e constelado horizonte da bela pândega fluminense, raiara uma nova estrela, bonitona e petulante, ameaçando ofuscar, só com a sua brilhante aparição, todas as outras que cintilavam no satânico empírio.
Era a ordem do dia a "Condessa Vésper". Por todo o ruidoso centro do prazer carioca se falava com febre da deslumbrante criatura, que atravessara a rua do Ouvidor vestida de veludo carmezim bordado a ouro, faiscante de rica pedraria e jóias orientais.
Vinha diretamente de Paris, depois de percorrer todas as capitais do mundo, em que mantém no vícioamor o seu mercado alto. Trazia de comitiva um secretário louro, membrudo, barbado e enluvado, que lhe dava o tratamento de "Alteza", e um grande mono das Antilhas, que na rua lhe carregava a bolsinha de mão e lhe abria com irresistível graça a portinhola do carro.
Um delicioso escândalo!
Todos corriam a vêla, todos a queriam conhecer. Inventaramse logo em torno dela mil lendas e tradições. Uns a diziam artista, sem dúvida judia e grega, que só entre essas poderia haver mulher tão formosa; outros protestavam com orgulho ser a Condessa Vésper, brasileira legítima, que em Paris casara com um fidalgo russo e depois fugira com um tenor italiano; outros enfim pretendiam que ali andava maganice alta de príncipes, e citavam confusamente, de ouvido em ouvido, o nome do Duque de Saxe e do Conde d'Eu.
Essa estranha condessa era nada mais nada menos que Ambrosina. É que três anos haviam decorrido sobre os acontecimentos relatados no último capítulo, três anos que, dia a dia, nada apresentam digno de nota, mas que vistos em conjunto representam nestas Memórias um importante período de transformações.
Durante esse tempo, tudo e todos se foram modificando lentamente, menos a velhinha Benedita.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.