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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Em 1770, o Cônego Manuel Freire fez para o mesmo fim doação à irmandade de S. Pedro de duas casas de sobrado situadas no fim da rua do Ouvidor, para o lado da praça da Sé Nova, que é a que hoje e desde muito se chama largo de S. Francisco de Paula, e que então se chamava da Sé Nova, pelas obras da nova Sé, que acabaram servindo para o edifício em que está estabelecida a escola militar,44 e que nos deixaram um provérbio que sempre se faz lembrar, quando se trata de obras públicas.

Com a doação devida ao Cônego Manuel Freire, aumentou-se mais um capelão aos seis que compunham o coro da irmandade, e esta ficou com o encargo de uma missa rezada pela alma do instituidor, no dia do aniversário da sua morte, e de um memento cantado no coro.

Em 1790, Belchior Soares deixou por seu falecimento um legado à irmandade para subsistência ou aumento de outro capelão do coro, uma casa na rua do Sacussarará, que depois se denominou rua da Quitanda, e que outrora assim se chamara por um motivo que eu não ignoro, mas não quero dizer, porque estou tratando de um assunto muito sério e não devo provocar o riso aos meus companheiros de passeio.45

Finalmente, o Bispo D. José Caetano, em consideração do aumento das rendas do patrimônio do coro, elevou a dez o número dos beneficiados ou capelães, e aumentou as côngruas destes.

O Bispo D. Frei Antônio do Desterro, em provisão de 29 de novembro de 1764, deu estatutos para o regime do coro, estatutos que foram reformados com aprovação do nosso atual e venerando bispo em 1854, como se vê da provisão de S. Exa Revma de 27 de outubro desse ano.

“O trecho entre a Rua do Carmo (7 de Setembro) e a do Ouvidor (então de Gadelha) recebeu diversos nomes, tais como travessa de Lucas do Couto, de Tomé da Silva, do Malheiros e do Sacussará. Davam este último nome ao canto onde tem sede o estabelecimento Borlido. Houve quem pensasse que Sacussará é de origem tupi! “Conta-se a seguinte anedota:

“Certo morador da rua passou mal a noite por força de incômodos para os quais a medicina moderna emprega os preparados de hamamelis virginica (hemorróidas). Ao chegar de manhã à janela, dá de cara com um vizinho, cirurgião (sic) inglês. Este inquire do doente a causa dos seus males. ‘Oh! Isto não é nada. Faz isto (aconselha ao doente um remédio) e seu...sarará.’

“O inglês dera o nome aos bois. Serviu-se de um termo que as conveniências mandam calar.”

O patrimônio da instituição do coro da irmandade de S. Pedro se compõe de cento e treze apólices de 1:000$, de duas de 800$, de cinco de 600$, de uma de 400$ e de quinze moradas de casas que rendem 14:550$000.

Cumpre notar que o número de apólices relativamente avultado que aparece, tanto no patrimônio do coro, como no da irmandade, é em sua máxima parte o fruto da conversão de prédios que a irmandade e o coro possuíam. A venda desses prédios e a compra de apólices foram uma medida financeira da administração do monsenhor Antônio Pedro dos Reis, medida que deu em resultado um aumento de renda, o que é uma útil e excelente lição que deve ser aproveitada por todas as corporações de mão-morta, quando o país, mostrando-se em mais animadoras condições econômicas, puder oferecer-lhes as vantagens que em 1854 e 1855 ofereceu à irmandade de S. Pedro.

Tenho dito quanto sei a respeito da instituição do coro os irmandade de S. Pedro. Passo, portanto, a contar a história da terceira e última instituição, que é a dos socorros aos sacerdotes e irmãos pobres, que me parece, em verdade, a mais interessante de todas, por alguns episódios e algumas circunstâncias que a ela se prendem, e de que não dão conta as memórias e os manuscritos que se podem consultar; mas que eu consegui ler em alguns bons e conscienciosos arquivos de oitenta e noventa anos, arquivos que pouco a pouco vão desaparecendo, como desapareceremos todos.

Em 25 de julho de 1756, o irmão secular Antônio Fernandes Maciel fez à irmandade de S. Pedro doação da quantia de 800$, para que com os juros desse dinheiro se dessem anualmente, no dia de Todos os Santos, dezesseis esmolas de 1$ cada uma a dezesseis pobres de mais necessidades, à eleição da mesa, preferindo-se na distribuição os próprios irmãos. Ficando, além disso, a irmandade obrigada à pensão de quatro missas anuais e dois responsórios por alma do instituidor.

Esta doação era em verdade tão insuficiente para produzir socorros aproveitáveis aos irmãos necessitados, e além disso, as condições com que ela se fizera tão facilmente permitiam que as fraquíssimas esmolas fossem dadas a pobres que não pertencessem ao grêmio da irmandade de S. Pedro, que não é admissível referir àquele ano de 1756 o princípio da instituição de que vou tratar.

A instituição dos socorros aos padres e irmãos pobres da ir mandade de S. Pedro começou em 1812, e foi devida à caridade do sargento-mor Alexandre Dias de Resende.

Quero dizer-vos alguma coisa a respeito deste homem piedoso, cuja história deixaram esquecida os nossos escritores, e apenas hoje se pode colher da memória dos bons velhos, últimos representantes que nos restam do século passado.

(continua...)

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