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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

— Mas não se trata de nós agora. A Oiticica vai ser atacada. 

— Por quem? perguntou o ajudante surpreso. 

— Pelo Marcos Fragoso. 

— Como sabe? 

— Sei; é quanto basta. 

— Já avisou ao sr. capitão-mór? 

— Não; e enm o avisarei. 

— Por quê? 

— Talvez me engane. Demais êsse Fragoiso é meu inimigo, e não posso denunciá-lo. 

Agrela era homem para compreender semelhante suscetibilidade. 

— Que devo eu fazer então? perguntou ao sertanejo. 

— Voltar quanto antes. 

— Conte comigo. 

Os dois mancebos despediram-se. Eram duas almas nobres que sentiam-se atraídas pela estima recíproca; mas os acontecimentos as tinham separado, lançado entre elas um gérme de desconfiança. 

Apartando-se do ajudante, Arnaldo esteve algum tempo a refletir, e encaminhou-se para a gruta. 

— Um de nós deve partir. 

— Para onde? perguntou Jó. 

— Para a taba dos Jucás. 

— Dá-me a seta. 

 

XIV – A trama 

 

Três dias tinham decorrido depois da partida de Agrela para a Barbalha. 

Águeda insinuara-se por tal modo na afeição de D. Flor, que esta não a deixava, nem fartava-se de sua conversação agradável e sedutora. Alina tinha ciúmes dessa preferência e afastavase queixosa e arrufada. Assim passavam as duas a maior parte do dia a sós. 

De seu lado também Arnaldo observava com inquietação e desgôsto essa intimidade de D. Flor com a viúva. 

A beleza de Águeda continuava a produzir no mancebo a mesma acre sensação: êle não podia perdoar a esta mulher o encanto e sedução com que à primeira vista ofuscava a lindeza de D. Flor. 

Quando as contemplava juntas, êle reconhecia que a formosura da donzela era uma flor do céu, pura e imaculada, respirando a fragância de sua alma angélica. O brilho dos grandes olhos pardos tinha a limpidez do rútilo das estrêlas; o sorriso dos lábios de nácar abria-se como um doce arrebol da manhã; e as faces assetinavam-se como as nuvens brancas ao de leve rosadas pelo crepúsculo da tarde. 

Mas no semblante, e no talhe da viúva, ressumbrava um fulgor vivo e intenso, que deslumbrava. Essa mulher não tinha a suprema correção e delizadeza de traços que distinguia o perfil de D. Flor; não possuia a elegância casta, graciosa e senhoril que vestia a donzela de uma gentileza de rainha; porém sua beleza exercia sôbre os sentidos uma poderosa fascinação. 

Essa influência, que êle sofria a seu pesar, o irritava contra aquela mulher; e às vezes admirando-a, vinham-lhe ímpetos de aniquilar os encantos, que, se não a tornavam mais formosa do que D. Flor, davam-lhe provocações que esta não tinha. 

Não era esta, porém, a preocupação única de Arnaldo acêrca de Águeda. 

O repentino aparecimento dessa mulher no mesmo dia da emboscada; a história por ela contada, e que dera em resultado a partida de Agrela com boa parte da bandeira do capitão-mór; a súbita retirada de Marcos Fragoso, quando êste voltasse; e assim, enquanto o capitão-mór permanecia na habitual tranquilidade, Arnaldo velava na segurança dessa família, a que havia dedicado toda a sua existência. 

A convite e instâncias de Águeda, D. Flor saía com ela a passeio pelos arredores da casa, quando quebrava de toda a fôrça do sol. Depois de algumas voltas iam sentar-se à sombra de uma gameleira, que ficava no princípio da mata. Havia alí um tronco derrubado, que servia-lhes de banco. 

Aí passavam o tempo em conversa. Águeda tinha sempre uma larga provisão de contos e novidades para atrair a atenção de D. Flor, que educada no retiro da fazenda, sentia a natural curiosidade de conhecer o mundo. 

Arnaldo desde o primeiro dia acompanhou êsses passeios, oculto no mato e atento às práticas das duas moças. Nada colheu que justificasse seus receios; mas notou que a viúva também de seu lado estava alerta, pois a cada instante volvia de súbito e disfarçadamente olhos ávidos em tôrno, como para surpreender alguém que porventura a estivesse espreitando por entre a folhagem. 

E não ficou nisso. Por mais de uma vez, queando D. Flor, que ia na frente, adiantava-se, a viúva demorando o passo voltava-se e, com a voz submissa e velada, chamava-o por seu nome. 

— Arnaldo!… Arnaldo!… 

Esta circunstância deixou atônito o sertanejo. De onde o conhecia esta mulher? Que lhe queria para chamá-lo? Como pudera ela descobrir a sua presença, que passaria despercebida para olhos vaqueanos? 

(continua...)

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